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Archive for the ‘Jorge Carvalheira’ Category

PONTO FINAL

Posted by J. Vasco em 31/05/2011

Em nome da «lisura» e da «clareza», o Jorge Carvalheira vem pôr um «ponto de ordem» na mesa.

Pela parte que me toca, depois de algumas observações, porei também um ponto final nesta discussão.

Em relação ao tema do «ódio a Sócrates» e minudências afins, deixo a barganha para os jugulentos, para os arrastados e para o Pitta. A coisa, superficial e irrelevante, parece ser muito adequada a estas pessoas de alto nível, cada uma mais coberta de verniz «democrático» e de «esquerda» do que a outra. Sinceramente, interessa-me mais, em política, perceber que grandes tendências sociais ela expressa, que classes sociais se enfrentam em cada momento, qual a correlação entre elas nos planos económico, social e institucional. É este o cerne da luta política. Por mais ruído que se faça, sem isto não se perceberá muito do que se passa. E o tempo pode então ser dedicado a discutir o «ódio a Sócrates» e afins.

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NÃO É NEGANDO A REALIDADE QUE SE SAI DA NOITE ESCURA

Posted by J. Vasco em 26/05/2011

Ernst Thälmann (1886-1944)

O meu amigo Jorge Carvalheira começa por bater a uma porta que já está aberta: é verdade que a vida é, na essência, prática, não-linear, concreta, complexa. É justamente por isso que a teoria – ao contrário do que ele parece defender – se torna tão necessária. Sem teoria não há acção consciente – há apenas resposta a estímulos. Como se há-de ver.

Sentado nesta concepção «vitalista», o Jorge Carvalheira diz depois que sente «pena» e «vergonha» de «ver os comunistas mancomunados com a direita mais vil». São palavras fortes e terríveis, com efeito. Note-se, no entanto, que se adoptarmos como critério de definição de esquerda simplesmente apoiar as medidas do PS (apenas porque vêm do PS, abstraindo, portanto, do seu conteúdo real: social e político) e verificarmos a seguir que mais de 90% daquilo que foi aprovado na Assembleia da República por proposta do «partido de Sócrates» contou com o voto favorável do PSD e que o programa da «troika» é partilhado por PS, PSD e CDS – então das duas uma: ou o PSD é um partido mais à esquerda do que o PCP, ou o Jorge Carvalheira, em relação aos comunistas, alinha com o discurso da «direita mais vil». O que é «pena» – e a «vergonha» que sente percebe-se melhor.

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NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE ESCURA

Posted by J. Vasco em 30/04/2011

Se o meu amigo Jorge Carvalheira se der ao trabalho de virar a atenção, por um segundo, para a Grécia antiga dos séculos VI e V antes da nossa era – que diferenças encontrará entre Esparta e Atenas, por exemplo? Em termos da forma política do estado, do peso relativo das diferentes actividades económicas, das preocupações pedagógicas – algumas, com certeza. Os hilotas e os periecos, com efeito, não tinham as mesmas características económicas e sociais dos metecos.

Uma cabeça entupida de senso comum olha para estas diferenças, no movimento seguinte genuflecte diante das aparências – e acaba consagrando-as como a contradição determinante da Grécia clássica, afirmando que num lado há ditadura e que noutro existe democracia. Mas um indivíduo medianamente cultivado, portador de espírito crítico, sujeito de razão (e um escritor a sério, por força do seu ofício, é tudo isto a multiplicar por 10), observa as mesmas diferenças, integra-as na totalidade concreta a que estão ligadas e onde ganham estação, e nunca lhe passará pelo sentido negar que o estado grego, seja ele o de Esparta ou o de Atenas, não é outra coisa senão o estado dos escravistas, não é mais do que a organização dos proprietários de escravos para manter, consolidar e aprofundar o seu domínio de classe sobre os escravos. Este indivíduo, raciocinando desta forma, transitou da aparência à essência, não para negar a aparência, mas para explicá-la no seu movimento de manifestação e de aparecimento. Este indivíduo, pensando desta maneira, nem sequer negou a especificidade dos metecos em Atenas: integrou-a na contradição determinante, fundamental, essencial, da sociedade grega. Leia o resto deste artigo »

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O MENSÁRIO DO CORVO

Posted by J. Vasco em 18/01/2011

Lembrei-me do corvo, por estes dias. O autor, como sabem, não é estreante aqui na tasca.      

O texto é construído num estilo aparentemente rapsódico e fragmentado. Nele pulsa, no entanto, uma unidade mais funda, dada pelo mensário. E através do diverso que o mensário unifica é-nos mostrado um fresco vivíssimo da história portuguesa, da variedade regional que a compõe e de alguns dos tipos sociais que lhe dão viso. Uma leitura que se recomenda, principalmente em tempos de aniquilamento da memória, de consagração da sonsice e de aclamação do oportunismo.  

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SOBRE O VELHO DO RESTELO

Posted by J. Vasco em 08/06/2010

A superficialidade reinante atribui à figura do Velho do Restelo, de ordinário, características que desfiguram por completo a mensagem e o núcleo de valores que Camões, através de tal personagem, condensou na sua criação literária. Por que motivo isto aconteceu? Eis um tema sobre o qual, um dia, pensei escrever. Mas para quê, se o Jorge Carvalheira já o fez, e com a elegância que se sabe? Aqui fica o seu textinho, precioso, retirado do Ladrar à Lua:

«É das figuras mais injuriadas e mais caluniadas do sótão da nossa história. E no entanto o poeta deixou dele uma visão positiva, sem auréolas pintadas nem coroas de louro falso.
Era um velho de
aspeito venerando, tinha um saber real só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as falsas promessas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, contra a crueza e feridade a que puseram nome esforço e valentia.
Estas sentenças tais o velho honrado/vociferando estava… E ficou vociferando, e vocifera ainda, enquanto partem as naus da nossa praia das lágrimas.
Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde. O néscio povo seguiu-lhes o exemplo, e agora já é tarde para mudar».

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ATÉ SEMPRE, COMPANHEIRO!

Posted by J. Vasco em 08/06/2010

Faleceu Rosa Coutinho. Figura maior da Revolução de Abril e da luta pelo socialismo. Homem íntegro, vertical, avesso a mediatismos. Está na altura de se começar a falar dele, de destacar o seu papel ímpar no apoio à luta dos povos colonizados pelo império português. (Será que podes começar a tratar da empresa, Jorge?)

Até sempre, senhor Almirante!

ADENDA: Tal como nos é dito pelo autor,  este livro é dedicado a um milhão de portugueses: soldados, capitães, um general e um almirante. O general deixou-nos há cinco anos, o almirante partiu agora.

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AS AVES LEVANTAM CONTRA O VENTO

Posted by J. Vasco em 08/03/2010

Um grande livro, publicado em 2008.

Sobre ele não se escreveu uma linha. Não para vergonha do autor, que é um escritor de mão cheia, mas antes do jornalismo cultural que temos, ocupado apenas com três coisas: garantir a saúde financeira dos grandes figurões mediáticos e das suas casas editoriais, legitimar a hegemonia do best-seller de comer e deitar fora, e promover medíocres escribas que nos querem vender como escritores criativos das novas gerações. Pelo meio, perde-se a oportunidade de analisar e de divulgar escritores que, pelo seu trabalho sério, criativo e original, merecem ser destacados. Jorge Carvalheira, com 60 e alguns anos, é um deles. O paciente e aturado trabalho de oficina; o conhecimento profundíssimo da literatura e da língua portuguesas de que dá mostras; a mestria técnica – fazem de As aves levantam contra o vento um dos grandes romances da literatura portuguesa dos últimos cinco anos.

O tema do romance é, porventura, inédito na ficção portuguesa – e pode explicar a raiz do silêncio à sua volta. Um militar que se exila na sequência do 25 de Novembro é coisa que, no mundo publicístico português, existe apenas, se não estou a ver mal, enquanto relato documental (lembro-me, nomeadamente, de Varela Gomes). Trata-se, porém, de um 25 de Novembro que tem história, que não se esgota em si, que tem passado (de séculos) e que tem consequências futuras. Acaba, por isso, por ser uma reflexão sobre a modernidade portuguesa, em geral, tendo como pressuposto inicial o 25 de Novembro.

Perante o romance, ficamos siderados, rendidos. Os traços essenciais da obra anterior de Jorge Carvalheira (O Mensário do corvo, ed. Quasi, e alguns contos na colectânea em dois volumes Memórias da guerra colonial, ed. Andrómeda) confirmam-se plenamente aqui, mas agora de uma forma mais sublimada, mais madura, mais certa de si. A influência e a apropriação criativa de Saramago são extremamente fortes, marcantes, estruturantes. O que melhor resulta nesse processo é que Jorge Carvalheira não pega numa forma pronta e acabada a aplicar mecanicamente ao objecto que trata. Não. Deixa que a lógica específica do tema sobre que se debruça determine as influências que vivem intensamente em si, situação que humaniza as persongens, os seus caracteres e as suas acções.

A influência de Saramago levada a este nível é coisa nunca vista. É relativamente vulgar encontrar uma linhagem faulkneriana: Rulfo e Vargas Llosa, nas Américas, Lobo Antunes e Marsé, na Europa. Uma sub-linhagem pode também ser encontrada, por exemplo, a partir de Lobo Antunes: Peixotos, Guedes de Carvalhos, etc. (qualquer português aspirante a escriba, em geral). Percebe-se: é uma escrita muito emotiva, cujas poética e musicalidade são particularmente belas e viciantes. Mas enquanto Lobo Antunes, por exemplo, não imita Faulkner – já que não autonomiza a forma, mas antes trabalha a realidade espacio-temporal portuguesa através da influência de Faulkner -, os Peixotos e os Carvalhos caem no exerciociozinho de estilo vazio, ou seja, imitam somente a forma (rebaixam-na a um jogo fútil e inconsequente), marimbam-se para tempo e espaço, para essa chatice da determinação histórica de uma situação.

Em relação a Saramago, não se encontra tal linhagem de seguidores. Porque a escrita não é de adesão tão imediata, é mais mediada, mais dobrada, porque o narrador apresenta um estatuto complexíssimo: conta-nos a história, conduz-nos, literalmente, aos espaços físicos e psicológicos, anuncia os procedimentos formais e estilísticos a que vai recorrer, varia as escalas e os pontos de vista, por vezes desaparece e não anuncia, por vezes desaparece e anuncia, etc, etc, etc. É uma escrita que exerce a sua influência, portanto, ainda mais do que na linhagem faulkneriana, através desta originalidade e genialidade formal. O perigo, por conseguinte, para o seu seguidor é precisamente o de cair nesta apropriação meramente estilística, oca, formal. E talvez devido a essa dificuldade não haja verdadeiros seguidores de Saramago. Até 2008. Até a As aves levantam contra o vento. A apropriação é aí verdadeira, é profunda, é filtrada e trabalhada pela densidade e espessura da personalidade e da vida do autor – a apropriação é revolucionária.

Outro aspecto interessante (e mais particular, no âmbito dessa influência geral) são as homenagens subliminares prestadas por Jorge Carvalheira ao seu mestre, quando ecoa, em breves passagens, obras ou asserções de Saramago. Para o atestar basta referir no romance a presença fortíssima, tutelar, de Memorial do Convento.

Disse ao início que o 25 de Novembro era visto neste romance no seu devir histórico e não como um momento isolado, abstracto. Ora, tudo isso é suportado, de maneira muito interessante, pela utilização de flash-backs, não tanto como procedimento metodológico de construção narrativa e dramática, mas mais como, digamos, idiossincrasia, visão e sentimento do mundo. Trata-se de uma eclosão triunfante do passado no campo do presente, de uma afecção da história geral e individual pelo passado. Em Jorge Carvalheira, note-se, é esta uma ligação orgânica, a de passado e presente, muito estreita e forte. Orgânica, no plano mais abstracto da inter-relação das duas categorias. E orgânica no plano da inter-relação entre história geral e história individual. 

Uma última referência, entre muitas outras possíveis. Continua a encantar-me, em Jorge Carvalheira, o conhecimento e o domínio da língua portuguesa que demonstra – tanto das suas expressões e ditos populares, como dos seus termos mais eruditos. Um verdadeiro escritor nunca pode dispensar esta dimensão: é o seu material de trabalho, é a sua ferramenta, é o ar que respira e de que se alimenta.

 

Olhe que não tem ligação (cf: LINKS) ao blog de Jorge Carvalheira, Ladrar à lua

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