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Archive for the ‘Sá-Carneiro’ Category

ELE PERCEBIA

Posted by J. Vasco em 13/07/2011

«Acabar com as lutas prisionais era um grande objectivo do fascismo. Era uma questão que dava sempre que falar e eles andavam doidos com o facto de o Avante! trazer todas as lutas que se passavam em Peniche e Caxias. Foi para tentar acabar com as lutas prisionais que foram a Peniche alguns dos deputados chamados «liberais». Em Peniche fomos chamados, em separado, para falar com eles, o Blanqui e eu.

Estive quatro ou cinco horas a falar com o Sá-Carneiro. Ele não era parvo. Era mesmo um tipo fino. Mas era um fascista. Simplesmente, era um fascista que achava que os métodos do salazarismo e do caetanismo estavam ultrapassados. No que respeitava à questão dos presos políticos, ele estava de acordo que nós estivéssemos presos, o que achava era que devíamos estar presos noutras condições, que dessem ao fascismo uma face menos hedionda. Durante a conversa, cada vez que eu lhe punha a questão da libertação dos presos políticos, ele perguntava: «O senhor quer sair para a rua para quê? Para continuar a lutar ou para fazer a sua vida?» Eu tinha já orientação do Partido para responder: «Quero ir tratar da minha vida.» E ele voltava à carga: «Mas, uma vez em liberdade, o que é que o senhor vai fazer?» E eu, nada. Desviava a conversa. Enfim, ele era mais inteligente que os outros fascistas e sabia que o regime não se poderia aguentar com a mesma face que tinha tido até então. Ele percebia que mudar a face do fascismo era uma coisa essencial para garantir a continuidade do regime e evitar a revolta.»

Joaquim Pires Jorge, Com uma imensa alegria – Notas autobiográficas, pp. 87-88

 

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O «FRANCISCO»

Posted by J. Vasco em 20/12/2010

Há duas semanas, o corropio em torno de Sá-Carneiro montou arraiais nos média nacionais. A burguesia portuguesa, ávida de um salvador sebastiânico de recorte autoritário, convocou os seus escribas e ofereceu-nos dúzias de hagiografias políticas do «Francisco», esse eminente membro da muito «azul» linhagem Lumbrales. Maria João Avillez, como de costume, destacou-se na tarefa, que, de resto, executou com gosto e com galhardia.

Antes de desmontarmos uma das principais mentiras que a senhora tentou, pela enésima vez, pôr a circular, recordemos estas palavras de Freitas do Amaral que aqui trouxemos no dia 10 de Março de 2010:

«(…)Isto levou-nos, aliás, a rejeitar a integração em bloco do aparelho local da ANP no nosso partido, que nos foi oferecida por alguns dos seus ex-dirigentes nacionais (através de listas com nomes, moradas, telefones e tudo) – o que representou da nossa parte um belo acto de coerência e idealismo, mas que não foi recompensado pelos deuses: esse aparelho acabou por se passar quase todo para o PPD, que não teve dúvida em o aceitar, depois de riscados alguns nomes mais conhecidos, com o que ganhou definitivamente a primazia sobre nós em implantação local.»

Pela boca de quem sabe, temos a prova cabal (se quiséssemos abstrair dos próprios acontecimentos de 74-75) de que os segmentos mais fanatizados do fascismo português se congregaram no PPD de Sá-Carneiro e aí lutaram, no quadro da situação democrática alcançada com o 25 de Abril, contra o novo regime. Luta, aliás, que, entre todo o tipo de conspirações e de contactos com o estrangeiro, incluiu bombismo, terrorismo, homicídios, etc.

Sá-Carneiro, por mais «alas liberais» que lhe queiram arranjar, era membro da Assembleia Nacional fascista. Era eleito pelas listas do partido fascista. O seu fito era salvar a burguesia portuguesa do calvário de uma revolução, e por isso, dentro das baias do regime, procurava uma saída airosa junto dos jovens lobos tecnocratas. Tudo isto – é sempre bom sublinhar e repetir -, no quadro do próprio regime fascista.

Agora, a grande tese que Avillez quer traficar: Sá-Carneiro queria acabar com o Conselho da Revolução e afastar os militares da vida política, ou seja, «entregá-la ao poder civil». O desejo de Sá-Carneiro extinguir o Conselho da Revolução é-nos servido pela jornalista in abstractum, como se fosse uma incondicionada posição de princípio que não guardasse qualquer ligação concreta com o contexto político da época e com a respectiva correlação de forças político-militar. Mas ainda que não atendêssemos a essa colocação adequada do problema, refutaríamos a mentira de Avillez (a de que Sá-Carneiro queria afastar os militares da «política») dizendo o seguinte:

Sá Carneiro conspirou desde a primeira hora contra a revolução portuguesa com um militar de recorte fascista e prussiano, Spínola; foi com um militar, Spínola, que procurou ilegalizar o PCP e que participou no golpe Palma Carlos; foi com um militar, Spínola, que preparou a mascarada da «Maioria Silenciosa» e do 28 de Setembro, que tinha como objectivo, justamente, atribuir plenos poderes ao mesmo Spínola e referendar uma constituição que não abarcasse o partido comunista; foi com militares, entre os quais Spínola, que animou vários bandos contra-revolucionários; foi com militares que deu o seu contributo para o 25 de Novembro e que pediu, consequentemente, o afastamento do PCP e dos comunistas em directo na televisão; finalmente, foi um militar reaccionaríssimo, Soares Carneiro (vejam aí em baixo o autocolante da campanha), que Sá-Carneiro decidiu apoiar nas presidenciais de 1980, dizem as más línguas que para subverter a constituição e referendar uma nova. Más línguas, claro…

  

Pois é, Maria João, a história que nos pretende vender pode ser interessante. Tem é um pequeno problema: é falsa de ponta a ponta.

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O GRANDE LEGADO DE SÁ-CARNEIRO

Posted by J. Vasco em 10/03/2010

Quando dois bandidos ajustam contas, dão-nos a conhecer coisas interessantes:

«(…)Isto levou-nos, aliás, a rejeitar a integração em bloco do aparelho local da ANP no nosso partido, que nos foi oferecida por alguns dos seus ex-dirigentes nacionais (através de listas com nomes, moradas, telefones e tudo) – o que representou da nossa parte um belo acto de coerência e idealismo, mas que não foi recompensado pelos deuses: esse aparelho acabou por se passar quase todo para o PPD, que não teve dúvida em o aceitar, depois de riscados alguns nomes mais conhecidos, com o que ganhou definitivamente a primazia sobre nós em implantação local.»

(Freitas do Amaral, O antigo regime e a revolução – memórias políticas (1941-1975), Bertrand, p.185)

O sentimento de revanchismo e de ódio contra o regime constitucional português saído da revolução de Abril nunca abandonou esta gente, por mais verniz «democrático» com que se tentem cobrir para adocicar as suas posições políticas. 

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