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Archive for the ‘Eugene O’Neill’ Category

ANTES DO PEQUENO ALMOÇO

Posted by J. Vasco em 31/01/2011

Eugene O’Neill (1888-1953) é uma das minhas obsessões. A sua dramaturgia ocupa um lugar destacado no panteão dos grandes criadores de teatro. (Jack Nicholson, por curiosidade, dá vida a Eugene O’Neill, à sua personalidade crua e atormentada, no filme «Reds», de Warren Beaty).

O traço mais marcante das obras de O’Neill é o carácter cumulativo e gradual com que as grandes emoções e tensões humanas se vão instalando em espaços fechados e concentrados. A esse título, «Longa jornada para a noite», a minha peça favorita de O’Neill, é exemplar: no espaço de uma sala e no tempo de uma noite, todos os sentimentos contraditórios que envolvem uma família assomam e abrem-nos as portas para uma viagem sem retorno. É assim que o amor é o invólucro da crueza, da mesquinhez e da perfídia, e a perfídia, a mesquinhez e a crueza o invólucro do amor. Uma roda viva de golpes e contra-golpes.

Joaquim Benite resolveu encenar (ou melhor: voltar a encenar) «Antes do pequeno-almoço» e «Hugh», pequenas peças (pequenas, entenda-se, em duração), ambas de O’Neill. Depois de terem estado em casa, em Novembro e em Dezembro de 2010, fizeram uma curta viagem até à Amadora, onde puderam ser vistas de quinta a domingo passados. Pouco tempo para obras tão interessantes. Afinal, um óbvio sinal dos tempos.

«Hugh» decorre no ambiente da grande depressão de 1929 – e por ela se percebe de onde vem Arthur Miller e a sua «Morte de um caixeiro viajante». Mas o grande interesse é mesmo «Antes do pequeno-almoço», um condensado, ou um embrião, de «Longa jornada para a noite».

A acção decorre numa cozinha e o monólogo ficou entregue a Anabela Teixeira. Esteve bem, a actriz: trabalhou humildemente os matizes e os cambiantes da peça e principalmente nunca escorregou para o histrionismo, fatal em qualquer peça de O’Neill. Contida e inteligente, respeitou a dinâmica profunda da peça e deu corpo à visão processual de Eugene O’Neill: não há sentimentos e emoções caídos do céu – há um encadeado subtil e complexo de recordações e de acontecimentos que se vão, gradualmente, instalando e entretecendo.

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