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O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA

Posted by J. Vasco em 23/06/2010

Com honrosas excepções, o leque de jornalistas desportivos que tem hoje assento de privilégio nos meios de comunicação nacionais destaca-se por um pouco recomendável conjunto de predicados: no plano linguístico, reserva ao português (falado e escrito) um trato de polé difícil de qualificar; no plano desportivo, consagra o mais rasteiro senso-comum como metodologia de «análise» dos jogos, e coroa a canalhice, o chico-espertismo e o desrespeito pelos adversários como modo adequado de estar no desporto; finalmente, no plano intelectivo e moral, exibe uma confrangedora boçalidade, uma ignorância a toda a prova e uma impertinência tolinha que quer fazer passar por magnífico desassombro.

Nas últimas semanas, assistimos à actuação polifónica desse coro boçal a propósito da selecção de futebol norte-coreana. Essa massa ignara de «jornalistas» – cujos horizontes mundanos não vão além da Academia de Alcochete e do Centro de Estágios do Seixal; para quem a história portuguesa se resume ao arco temporal que vai de Eusébio a Cristiano Ronaldo, passando por Figo; e para quem a história mundial se reduz a alguns campeonatos do mundo e a deduções futebolísticas de baixa extracção a partir das características etnográficas e antropológicas de cada povo – «explicou-nos» o que era a vida na Coreia do Norte, ou seja, invadiu-nos as casas com dichotes racistas e xenófobos (travestidos de piadolas espirituosas) dirigidos ao povo da Coreia do Norte. Recorrendo à humilhação, à ofensa e ao insulto – e apenas a isso -, espezinharam, através de um conjunto de jogadores de futebol, a dignidade de um povo inteiro, que é coisa que não tem preço e que não se transacciona na bolsa de valores. Riram alarvemente, esses valentões, do facto de os futebolistas norte-coreanos utilizarem ginásios públicos, em vez de recorrerem aos espaços privados, de luxo, disponibilizados pelos hóteis de sete estrelas que albergam várias selecções. Desmultiplicaram-se em apontamentos escarninhos, atingindo a dignidade, o esforço e a entrega dos jogadores de futebol norte-coreanos, sobre o desgosto que, com a sua actuação, estariam a provocar ao «querido líder». Troçaram desdenhosamente da vida de trabalho e de sacrifício de inúmeros cidadãos de um país que não suga nem rouba recursos a outros países, rematando as suas arengas com graçolas deste jaez: «o prémio para os jogadores da Coreia do Norte é terem direito a uma refeição e a não sofrerem maus-tratos».

O pasquim i chegou mesmo a este cúmulo:  «Os norte-coreanos, uma formação de homens esforçados e orientados por uma disciplina quase doentia (nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção), sentiram o peso da desvantagem e começaram a abrir brechas». «Nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção». Com efeito, ser honesto é um defeito tão grande, é um traço tão totalitário, não é?

Mas o mais delicioso, apesar de tudo, foram os comentários em torno do regresso a casa dos seleccionados norte-coreanos. O que não lhes aconteceria, em caso de maus resultados!

Ora, como podemos ver, por exemplo, aqui e aqui, depois da eliminação do campeonato do mundo sem ter ganho um único jogo, a selecção francesa foi mimosamente tratada pelos governantes e pelos jornalistas do seu país.  O tema foi ontem objecto de aceso debate no parlamento, meteu ministros ao barulho e o próprio Sarkozy já se pronunciou. E que disseram estas gentes, estes representantes da alta cultura? Defenderam a dignidade dos atletas, reconheceram o seu valor desportivo, falaram das derrotas como parte constitutiva dos jogos de futebol? Não. Disseram coisas elevadas como estas: os jogadores franceses são autênticos «zeros», a selecção gaulesa está empestada de «estrangeiros», a equipa francesa é uma «vergonha». Pedro Rosa Mendes, na crónica de hoje na Antena 1, dizia, ele que agora vive em Paris, que aquilo que foi dito ontem no parlamento francês sobre os jogadores franceses «era irreproduzível nestes microfones». Entretanto, os sectores mais chauvinistas e reaccionários da direita francesa exigem desde já uma depuração de «estrangeiros» na selecção, e apelam a uma recepção da equipa com «ovos e tomates, como antigamente».

Nada disto, como é óbvio, apoquenta a sensibilidade «democrática» dos nossos finos «comentadores» desportivos. Em tudo isto, eles deixam-se apenas levar pelo charme. Pelo charme discreto da burguesia. 

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