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SOBRE O VELHO DO RESTELO

Posted by J. Vasco em 08/06/2010

A superficialidade reinante atribui à figura do Velho do Restelo, de ordinário, características que desfiguram por completo a mensagem e o núcleo de valores que Camões, através de tal personagem, condensou na sua criação literária. Por que motivo isto aconteceu? Eis um tema sobre o qual, um dia, pensei escrever. Mas para quê, se o Jorge Carvalheira já o fez, e com a elegância que se sabe? Aqui fica o seu textinho, precioso, retirado do Ladrar à Lua:

«É das figuras mais injuriadas e mais caluniadas do sótão da nossa história. E no entanto o poeta deixou dele uma visão positiva, sem auréolas pintadas nem coroas de louro falso.
Era um velho de
aspeito venerando, tinha um saber real só de experiências feito, e tirou do experto peito anátemas de bom-senso: contra a glória de mandar e a vã cobiça, contra a temeridade que põe em risco a vida, contra as falsas promessas que o povo néscio enganam, contra a vaidade que enleva a fantasia, contra a crueza e feridade a que puseram nome esforço e valentia.
Estas sentenças tais o velho honrado/vociferando estava… E ficou vociferando, e vocifera ainda, enquanto partem as naus da nossa praia das lágrimas.
Tresleram-no desde logo os poderosos do reino, que das misérias alheias sempre encheram a barriga. Crismaram-no de timorato e de cobarde. O néscio povo seguiu-lhes o exemplo, e agora já é tarde para mudar».

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