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Archive for the ‘Tim Burton’ Category

SWEENEY TODD – AQUILO QUE O PASSADO PODE

Posted by J. Vasco em 06/03/2010

 «Eis-me nas planícies da minha memória, nos antros e cavernas inumeráveis e inumeravelmente cheios das espécies de inumeráveis coisas (…)».

Santo Agostinho, Confissões

 

Em tempos de Alice no País das Maravilhas, recordemos a última obra-prima de Burton: Sweeney Todd

Imagine o leitor que acaba de ligar a televisão. Fez, agora mesmo, um zapping distraído e indolente por vários canais generalistas e temáticos. Veja então, leitor, se não é isto verdade: assistiu, por certo, a um endeusamento (mais ou menos difuso, mais ou menos declarado, mas sempre presente) do «directo», da «actualidade», do «momento», da «ordem do dia». Repare que o problema para que chamo a atenção não se prende de nenhuma maneira com o dever, constitutivo de um meio de comunicação como a televisão, de fornecer um quadro da actualidade; também não reside numa inconfessada vontade de virar costas ao mundo em que vivemos, para passar à contemplação de uma mistificada imagem de um passado idealizado, que se constituiria como o depositário de todas as respostas aos problemas com que, quotidianamente, nos confrontamos. Nada disso – e bem pelo contrário. O que acontece é que essa visão do mundo (essa ideologia) televisiva, a que chamaria «presentismo», dominante tanto na informação, como na ficção e no entretenimento, porque apresenta a realidade como uma sucessão de presentes imediatos independentes uns dos outros, porque entende o passado como algo que inapelavelmente passou, porque absolutiza o «momento» e fragmenta o processo histórico – acaba, a meu ver, por não auscultar adequadamente a própria complexidade do presente, que aparentemente se propõe reflectir. E é por isso que, a cada passo, somos confrontados com o cansativo jargão do «novo», do «directo», do «em cima do acontecimento», erigidos, por si e em si mesmos, abstraídos de qualquer conteúdo, enquadramento ou perspectivação histórica, em valores absolutos do panorama televisivo. O que empobrece significativamente a compreensão do presente, no que toca à informação, e das relações e sentimentos humanos, no que respeita à ficção.

Onde entra então, a propósito deste tema do real enquanto unidade de passado, presente e futuro, o musical Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street, filme de Tim Burton que precede Alice no País das Maravilhas, sexto em que dirige Johnny Depp. Passado numa Londres vitoriana que traz à memória os ambientes dickensianos de Oliver Twist, onde a corrupção, o luxo e o arbítrio dos poderosos se opõem, como um abismo, à miséria e à fome das classes trabalhadoras, que tem este filme, em que a vingança, o amor, a violência e o sangue estão latentes desde o início, a ver com a questão do passado e do presente?

Muito, tem tudo a ver. Diria mesmo que o objecto central de Sweeney Todd é precisamente uma reflexão em torno do papel e do estatuto do passado. É um filme sobre o passado e a sua força, o modo como actua no presente e nos posiciona face ao futuro, ou seja, sobre um passado que verdadeiramente não passou, nem ontológica, nem psicologicamente (que vê Todd – Johnny Depp em magnífico trabalho – quando olha o fio cortante das suas navalhas do passado, se não o passado que carrega em si e que se reflecte, vindo de dentro, nos seus olhos?). E é por isso que o coloco ao lado de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, de O Salão de Música, de Satyajit Ray, de Barreira Invisível, de Terence Mallick, de Vertigo, de Alfred Hitchcock, de Era Uma Vez na América, de Sérgio Leone, e de Os Guarda-Chuvas de Cherbourg, de Jacques Demy. Todos eles sobre o passado. Todos eles, embora somente o último, como Sweeney Todd, um musical, filmes onde a música desempenha um papel fulcral na convocação do que passou mas está presente.

Tim Burton acaba por depurar, em Sweeney Todd, todo um conjunto de problemas que sempre o inquietou e entusiasmou e que já é detectável em filmes anteriores (o passado, neste caso enquanto infância, em Charlie e a Fábrica do Chocolate; o fracasso e a angústia, que obrigam a viver e a reviver o passado, em Ed Wood e em Eduardo Mãos-de-Tesoura, os três interpretados também por Depp).

Apenas duas notas mais, entre muitas possíveis, sobre a genialidade de Burton.

A primeira para relevar a espessura e a dimensão psicológica da Senhora Lovett (excelente Helena Bonham Carter). É a única personagem que, no meio de passados tão pesados e tão duros (que tenta destruir e que por isso a destroem), por amor a Todd, deseja um futuro, tenta projectá-lo e construí-lo. Se toda essa riqueza já se encontra na peça que Sondheim escreveu para a Broadway, penso que o filme de Burton explora de maneira mais fina a personalidade da Senhora Lovett. É o caso, por exemplo, da magistral utilização de um flash-forward, na óptica volitiva da Senhora Lovett, único vislumbre de futuro que temos no filme, por oposição aos vários flash-backs operados a partir do ponto de vista de Todd.

A segunda para assinalar o inconfundível touch de Burton, quando no último plano do filme, com um simples movimento de câmara, com uma mise-en-scene extremamente rica em sugestão visual e carregada de significado simbólico, com uma composição simultaneamente barroca e despojada, acaba por ecoar, no meio do mais trágico destino, a figura da Pietá, de Miguel Ângelo. Afinal, como parece dizer Tim Burton, eis o que o passado pode.    

                           

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