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Posts Tagged ‘Teatro’

QUEM FEZ ISTO?

Posted by J. Vasco em 27/03/2012

Vou fazer o papel de uma bêbada

Que vende os filhos

Em Paris, no tempo da Comuna.

Tenho apenas cinco réplicas.

E preciso de me deslocar, de subir a rua.

Caminharei como gente livre

Gente que só o álcool

Quis libertar e voltar-me-ei

Como o bêbado que receia

Ser perseguido. Voltar-me-ei

Para o público.

Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos

Que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis

Outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica

Como a melhor acusação

Contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não reflectisse maquilhar-me-ia simplesmente

Como uma velha beberrona

Doente e decadente. Mas vou entrar em cena

Como uma bela mulher que guarda a marca da destruição

Na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas

Outrora atraente e agora repelida

Para que ao vê-la cada um se interrogue: quem

Fez isto?

Monólogo de uma actriz enquanto se maquilha,

Bertolt Brecht (1937-1940), in Poemas, trad. Arnaldo Saraiva,

Campo das Letras, pp. 104 e 105.

(No dia mundial do teatro)

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MÁRIO ALBERTO (1925-2011)

Posted by J. Vasco em 07/10/2011

«Escrevi o texto que se segue em 29 de Dezembro de 2006, quando o Mário Alberto (ai como ele detestava que o soares também se chamasse mário alberto, com minúsculas, claro…), por razões físicas, se afastou do  convívio diário com amigos e meros conhecidos. Um comunicador como mais nenhum, contador de estórias exemplar, desbocado e violento quando necessário. Deixa a sua marca no teatro e nas artes plásticas. Um grande artista:

 

“Hoje, subi a minha Avenida da Liberdade. O meu passeio público sempre foi por ali: pela esquerda e a subir até ao Parque – Parque Mayer com teatros e coristas, com actores e com cantores, com floristas e matraquilhos, com tirinhos, com artistas e tintinhos.

Hoje, subi a minha Avenida e, vejam lá, não vi o Mário Alberto. Não sei por anda o Mário Alberto, nem o seu Parque – Parque Mayer, etc e muito tal.”»

 

 Sebastião Fagundes

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ANTES DO PEQUENO ALMOÇO

Posted by J. Vasco em 31/01/2011

Eugene O’Neill (1888-1953) é uma das minhas obsessões. A sua dramaturgia ocupa um lugar destacado no panteão dos grandes criadores de teatro. (Jack Nicholson, por curiosidade, dá vida a Eugene O’Neill, à sua personalidade crua e atormentada, no filme «Reds», de Warren Beaty).

O traço mais marcante das obras de O’Neill é o carácter cumulativo e gradual com que as grandes emoções e tensões humanas se vão instalando em espaços fechados e concentrados. A esse título, «Longa jornada para a noite», a minha peça favorita de O’Neill, é exemplar: no espaço de uma sala e no tempo de uma noite, todos os sentimentos contraditórios que envolvem uma família assomam e abrem-nos as portas para uma viagem sem retorno. É assim que o amor é o invólucro da crueza, da mesquinhez e da perfídia, e a perfídia, a mesquinhez e a crueza o invólucro do amor. Uma roda viva de golpes e contra-golpes.

Joaquim Benite resolveu encenar (ou melhor: voltar a encenar) «Antes do pequeno-almoço» e «Hugh», pequenas peças (pequenas, entenda-se, em duração), ambas de O’Neill. Depois de terem estado em casa, em Novembro e em Dezembro de 2010, fizeram uma curta viagem até à Amadora, onde puderam ser vistas de quinta a domingo passados. Pouco tempo para obras tão interessantes. Afinal, um óbvio sinal dos tempos.

«Hugh» decorre no ambiente da grande depressão de 1929 – e por ela se percebe de onde vem Arthur Miller e a sua «Morte de um caixeiro viajante». Mas o grande interesse é mesmo «Antes do pequeno-almoço», um condensado, ou um embrião, de «Longa jornada para a noite».

A acção decorre numa cozinha e o monólogo ficou entregue a Anabela Teixeira. Esteve bem, a actriz: trabalhou humildemente os matizes e os cambiantes da peça e principalmente nunca escorregou para o histrionismo, fatal em qualquer peça de O’Neill. Contida e inteligente, respeitou a dinâmica profunda da peça e deu corpo à visão processual de Eugene O’Neill: não há sentimentos e emoções caídos do céu – há um encadeado subtil e complexo de recordações e de acontecimentos que se vão, gradualmente, instalando e entretecendo.

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MESTRES NA CONTRACENA

Posted by J. Vasco em 19/03/2010

O Teatro dos Aloés tem em cena uma interessantíssima peça do italiano Spiro Scimone, intitulada O Saguão. Há nela uma estranha mistura entre o universo de Beckett e o humanismo de Chaplin. Os sentimentos mais profundos emergem das situações mais anódinas e desesperantes.

O Teatro dos Aloés já leva trinta anos de existência. Num quadro de franco desinvestimento na cultura, a sua gente persiste e insiste, a poder de amor, entrega e trabalho, em mostrar a sua arte às populações dos subúrbios lisboetas. Sem pedir nada em troca. Apenas pelo gosto de representar. E principalmente, como dizem nos seus textos, porque acreditam na utilidade do teatro enquanto espaço e tempo privilegiados de partilha de reflexões, questionamentos e sentimentos. O seu trabalho é altamente meritório, ainda que muitas vezes ignorado e insuficientemente apoiado.

E no caso particular de O Saguão, os dois actores (Luís Barros e João de Brito) que aí vêem numa fotografia de cena são de alto quilate. São mestres na contracena e na inter-relação. Dão às suas personagens uma dimensão humana comovente.

 

Exibições da peça:

17 a 28 de Março – Recreios da Amadora
9 e 10 de Abril – Teatro Garcia de Resende (Évora)
7 a 9 de Maio – Fórum Romeu Correia (Almada)
16 a 27 de Junho – Teatro Meridional (Lisboa)

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