OLHE QUE NÃO

olhequenao.wordpress.com

Posts Tagged ‘Poesia’

LÁ, ONDE O SANGUE FECUNDOU A TERRA

Posted by J. Vasco em 21/02/2012

Há 79 anos, no dia 2 de Fevereiro, a batalha de Stalinegrado terminava com a vitória das tropas soviéticas. Foi o princípio do fim do nazi-fascismo.

CARTA A STALINGRADO

“Stalingrado…

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,

e o hálito selvagem da liberdade

dilata os seus peitos, Stalingrado,

seus peitos que estalam e caem,

enquanto outros, vingadores, se elevam.

Leia o resto deste artigo »

Anúncios

Posted in Carlos Drummond de Andrade | Com as etiquetas : , , , | Leave a Comment »

NO MEIO DO CAMINHO

Posted by J. Vasco em 31/10/2011

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei  que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

1928

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (31 de Outubro de 1902-17 de Agosto de 1987)

Posted in Carlos Drummond de Andrade | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

SERÃO BRAÇOS DE IRMÃOS

Posted by Patrícia B. em 01/05/2011

Deixa lá, companheira!

Que havemos de fazer?

Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.

Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.

Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés

e tu farás sarar as minhas mãos.

Para lá da última casa ainda há terra

e céu e água e luz…


Ainda há vida para lá.

               

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas

e a luxúria do oiro.

Ainda há vida para lá.

O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.

A nossa voz mais rica em cada instante.

O nosso querer mais certo em cada instante.

Ainda há vida para lá.

Sigamos nossa rota, companheira.

Enxugarei teu rosto com cuidado.

Tu farás o meu canto.

E para além das barreiras do tempo

milhões de homens nos esperam com os braços abertos,

que desde a primeira hora serão braços de irmãos.

Mário Dionísio(1916-1993), O homem sozinho na beira do cais

Posted in Mário Dionísio | Com as etiquetas : | 3 Comments »

NAUFRÁGIO

Posted by J. Vasco em 02/01/2011

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
 

«Canção», de Cecília Meireles. Clique aqui para “ouvir” o poema.

Posted in Amália, Cecília Meireles | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

QUE FAREI QUANDO TUDO ARDE?

Posted by J. Vasco em 24/09/2010

Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata treições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?

Francisco Sá de Miranda, 1481-1558, introdutor do soneto em Portugal

Posted in Sá de Miranda | Com as etiquetas : | 1 Comment »

ANALFABETISMOS, ANALFABETINHOS

Posted by * em 23/08/2010


O ANALFABETO POLÍTICO


O pior analfabeto

É o analfabeto político,

Ele não ouve, não fala,

Nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo da vida,

O preço do feijão, do peixe, da farinha,

Do aluguer, do sapato e do remédio

Dependem das decisões políticas.

O analfabeto político

É tão burro que se orgulha

E estufa o peito dizendo

Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,

da sua ignorância política

Nasce a prostituta, o menor abandonado,

E o pior de todos os bandidos,

Que é o político vigarista,

Pilantra, corrupto e lacaio

Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht


Posted in Bertold Brecht | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

GRANDE WORDSWORTH!

Posted by Jayanti Dutta em 20/08/2010

William Wordsworth

 

We Are Seven

.

-A Simple Child,

That lightly draws its breath,

And feels its life in every limb,

What should it know of death?

.

I met a little cottage Girl:

She was eight years old, she said;

Her hair was thick with many a curl

That clustered round her head.

.

She had a rustic, woodland air,

And she was wildly clad:

Her eyes were fair, and very fair;

–Her beauty made me glad.

.

“Sisters and brothers, little Maid,

How many may you be?”

“How many? Seven in all,” she said

And wondering looked at me.

.

“And where are they? I pray you tell.”

She answered, “Seven are we;

And two of us at Conway dwell,

And two are gone to sea.

.

“Two of us in the church-yard lie,

My sister and my brother;

And, in the church-yard cottage, I

Dwell near them with my mother.”

.

“You say that two at Conway dwell,

And two are gone to sea,

Yet ye are seven!–I pray you tell,

Sweet Maid, how this may be.”

.

Then did the little Maid reply,

“Seven boys and girls are we;

Two of us in the church-yard lie,

Beneath the church-yard tree.”

.

“You run above, my little Maid,

Your limbs they are alive;

If two are in the church-yard laid,

Then ye are only five.”

.

“Their graves are green, they may be seen,”

The little Maid replied,

“Twelve steps or more from my mother’s door,

And they are side by side.

.

“My stockings there I often knit,

My kerchief there I hem;

And there upon the ground I sit,

And sing a song to them.

.

“And often after sun-set, Sir,

When it is light and fair,

I take my little porringer,

And eat my supper there.

.

“The first that died was sister Jane;

In bed she moaning lay,

Till God released her of her pain;

And then she went away.

.

“So in the church-yard she was laid;

And, when the grass was dry,

Together round her grave we played,

My brother John and I.

.

“And when the ground was white with snow,

And I could run and slide,

My brother John was forced to go,

And he lies by her side.”

.

“How many are you, then,” said I,

“If they two are in heaven?”

Quick was the little Maid’s reply,

“O Master! we are seven.”

.

“But they are dead; those two are dead!

Their spirits are in heaven!”

‘Twas throwing words away; for still

The little Maid would have her will,

And said, “Nay, we are seven!”

 

Posted in Wordsworth | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

RESPIRAR

Posted by J. Vasco em 25/06/2010

Neste fim-de-semana andarei por aqui:

Antes que seja Agosto. Antes que não se possa respirar. Antes que estas terras de maravilha se transmutem em Allgarve, essa mercadoria transaccionável, esse mero valor de troca, embrulhado num tacanho e parolo papel de marketing.

Por motivos óbvios, não revelarei o nome deste paraíso. Direi apenas – e já é muito – que fica situado no barlavento algarvio. Direi tão-só – e isso é tudo – que a ele se aplicam estes versos de Sophia:

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Posted in Sophia de Mello Breyner | Com as etiquetas : | 1 Comment »

OS ERROS E OS DIAS

Posted by J. Vasco em 25/06/2010

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa a que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

Luís de Camões

Posted in Camões | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

NÃO ME PEÇAM RAZÕES

Posted by * em 24/06/2010

Luís Cília canta José Saramago:

Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou tenho quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, nascem todas

Da mansa hipocrisia que aprendemos.

.

Não me peçam razões por que se entenda

A força da maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.

.

Não me peçam razões, ou sombra delas,

Deste gosto de amar e destruir:

Nos excessos do ser é que amanhece

A cor da Primavera que há-de vir.

.

Canção criada a partir do poema de José Saramago

“Não me peçam razões”, in “Os Poemas Possíveis”

.

.

Posted in Saramago | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

CINCO ANOS PASSADOS SOBRE A MORTE DE QUEM DEU NOME A ESTE BLOG (I)

Posted by J. Vasco em 13/06/2010

  

«Por muito escândalo que as posições do nosso partido continuem a provocar nas boas almas que gostariam de ter a certeza da eternidade do capitalismo, nós continuamos a afirmar, convictos, que a luta dos trabalhadores e dos povos continua a desenvolver-se e conduzirá o mundo a retomar o curso de grandes transformações revolucionárias que no essencial são a marca do século XX na história. Por muito escândalo que a nossa afirmação provoque nessas boas almas, continuamos a afirmar, convictos, que por muitas voltas que o mundo dê será o socialismo e o comunismo, e não o capitalismo, o futuro da humanidade».

 (ÁLVARO CUNHAL, 10 de Novembro de 1913-13 de Junho de 2005)

 

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE 

rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.
 
 
 

 

Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política
 
 
 

 

Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
 
 
 

 

Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas
 
 
 

 

o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais foi apanhado

 
 
 

 

Manuel Gusmão

   

(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)

 

poema retirado do Cravo de Abril

Posted in Álvaro Cunhal, Manuel Gusmão | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

SEMÂNTICA ELECTRÓNICA

Posted by J. Vasco em 11/06/2010

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim — o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
— Mas — diz-me a ordenança —
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens…
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

                          

 Vitorino Nemésio

Posted in Vitorino Nemésio | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

ODA A LA EDAD

Posted by J. Vasco em 01/06/2010

Yo no creo en la edad.

Todos los viejos
llevan
en los ojos
un niño,
y los niños
a veces
nos observan
como ancianos profundos.

Mediremos
la vida
por metros o kilómetros
o meses?
Tanto desde que naces?
Cuanto
debes andar
hasta que
como todos
en vez de caminarla por encima
descansemos, debajo de la tierra?

Al hombre, a la mujer
que consumaron
acciones, bondad, fuerza,
cólera, amor, ternura,
a los que verdaderamente
vivos
florecieron
y en su naturaleza maduraron,
no acerquemos nosotros
la medida
del tiempo
que tal vez
es otra cosa, un manto
mineral, un ave
planetaria, una flor,
otra cosa tal vez,
pero no una medida.

Tiempo, metal
o pájaro, flor
de largo pecíolo,
extiéndete
a lo largo
de los hombres,
florécelos
y lávalos
con
agua
abierta
o con sol escondido.
Te proclamo
camino
y no mortaja,
escala
pura
con peldaños
de aire,
traje sinceramente
renovado
por longitudinales
primaveras.

Ahora,
tiempo, te enrollo,
te deposito en mi
caja silvestre
y me voy a pescar
con tu hilo largo
los peces de la aurora!

 

Pablo Neruda

 

Posted in Barata-Moura, Pablo Neruda | Com as etiquetas : | 1 Comment »

PABLO & MARTÍ

Posted by * em 13/05/2010

.

Yo soy un hombre sincero
de donde crece la palma
y antes de morirme quiero
echar mis versos del alma.

.

Yo vengo de todas partes
y hacia todas partes voy,
arte soy entre las artes
y en los montes, monte soy.

.

.

Oculto en mi pecho bravo
la pena que me lo hiere:
el hijo de un pueblo esclavo
vive por él, calla y muere.

.

Yo he visto al águila herida
volar al azul sereno
y morir en su guarid
a
la víbora del veneno.

.

Temblé una vez, en la reja,
a la puerta de la viña
cuando la bárbara abeja
picó en la frente a mi niña.

.

Gocé una vez, de tal suerte
que gocé cual nunca, cuando
la sentencia de mi muerte
leyó el alcaide llorando.

Mírame, madre, y por tu amor no llores,

si esclavo de mi edad y mis doctrinas

tu mártir corazón llené de espinas,

piensa que nacen entre espinas flores.

Un verso forjé
donde crece la luz.
¡Y América y el hombre digno sea!

Pablo Milanés canta José Martí

Posted in Pablo Milanés canta José Martí | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

3 DE MAIO DE 1808. FOI HÁ 202 ANOS

Posted by J. Vasco em 06/05/2010

Francisco Goya, El Tres de Mayo de 1808, 1814

 

CARTA A MEUS FILHOS

Sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, 1959

Posted in Goya, Jorge de Sena | Com as etiquetas : , | 5 Comments »

VENID A VER!

Posted by * em 02/05/2010

Por que razão não escrever só posts bonitinhos a falar da boa vidinha e de calma e paz Zen e amizade e flores e coisa e tal? Por que não falar de um Portugal positivo, da alegria de viver e das muitas receitas dos livrinhos de auto-ajuda? Leia o resto deste artigo »

Posted in Pablo Neruda | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

ACORDAI!

Posted by J. Vasco em 22/04/2010

Acordai, de Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira. Aqui, versão do Grupo Coral de São Domingos, numa produção de Samuel para o Cine-Teatro Curvo Semedo, em Montemor-o-Novo, por ocasião das comemorações do 25 de Abril do ano passado.

O 25 de Abril está à porta. Para milhões de pessoas, foi uma época de despertar e de acordar para a vida social e política, imprimindo rápidas e profundas transformações na sociedade portuguesa. Acordar, acordar sempre!

 

Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
 

 

 

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
 

 

 

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Posted in José Gomes Ferreira, Lopes-Graça | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

PESSOA & BELCHIOR

Posted by * em 17/04/2010

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!


Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

(do Poema “O Quinto Império”, de Fernando Pessoa)


Posted in Pessoa & Belchior | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

UM RIO DE SANGUE

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

PORT WINE

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

 

Joaquim Namorado, in A Poesia Necessária

 

Posted in Joaquim Namorado | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

«AMANHÃS QUE CANTAM»??!!

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

A expressão «os amanhãs que cantam» é, de forma useira e vezeira, utilizada pelos snobs do costume para apoucar uma suposta visão messiânica da história que os revolucionários, em geral, sustentariam e que os neo-realistas, em particular, reservariam, como correlato estético, para o campo da arte. Mais uma vez, o preconceito e a mesquinhez dão as mãos, servindo de solo para as mais desbragadas catilinárias.

A visão da história dos mais altos representantes teóricos do movimento neo-realista português era tudo menos simplista, tosca ou mecanicista. Era, pelo contrário, bem dialéctica, rica e anti-messiânica. E não só estava pensada, como adquiriu mesmo, algumas vezes, a forma e o conteúdo estéticos. «Amanhãs que cantam»? Olhem que não…

 

COMPLICAÇÃO

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

Posted in Mário Dionísio | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

SEMPRE NA VÉSPERA DE EU CHEGAR

Posted by J. Vasco em 12/03/2010

De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

 

Maria do Rosário Pedreira, sem título, in Nenhum Nome Depois

Posted in Maria do Rosário Pedreira | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

TODO UM PROGRAMA (PARA A ARTE… E PARA A VIDA)

Posted by J. Vasco em 08/03/2010

ARTE POÉTICA

 A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

Posted in Mário Dionísio | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

O FUNCIONÁRIO CANSADO

Posted by J. Vasco em 03/03/2010

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

e as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo uma noite só comprida

num quarto só

 

António Ramos Rosa, in “Viagem através duma nebulosa”, 1960

Posted in António Ramos Rosa | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

MADRUGADA

Posted by * em 26/02/2010

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

 

(Sophia Mello Breyner Andresen)

Posted in Sophia de Mello Breyner | Com as etiquetas : | Leave a Comment »

TAMBÉM DENTRO DE NÓS

Posted by * em 21/02/2010

DO POVO BUSCAMOS A FORÇA

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.

(Agostinho Neto)

MUSSUNDA AMIGO

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos

em que íamos

comprar mangas

e lastimar o destino

das mulheres da Funda

dos nossos cantos de lamento

dos nossos desesperos

e das nuvens dos nossos olhos

Lembras-te?

Para aqui estou eu

Mussunda amigo

A vida a ti a devo

à mesma dedicação ao mesmo amor

com que me salvaste do abraço

da jibóia

à tua força

que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo

a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes

compreendes a minha angústia?

(Agostinho Neto)



Posted in Agostinho Neto | Com as etiquetas : | 4 Comments »

THOSE WINTER SUNDAYS (ROBERT HAYDEN)

Posted by * em 19/02/2010

THOSE WINTER SUNDAYS

Sundays too my father got up early

And put his clothes on in the blueblack cold,

then with cracked hands that ached

from labor in the weekday weather made

banked fires blaze. No one ever thanked him.

I’d wake and hear the cold splintering, breaking.

When the rooms were warm, he’d call,

and slowly I would rise and dress,

fearing the chronic angers of that house,

Speaking indifferently to him,

who had driven out the cold

and polished my good shoes as well.

What did I know, what did I know

of love’s austere and lonely offices?

Robert Hayden


AQUELES DOMINGOS DE INVERNO

Mesmo aos domingos o meu pai levantava-se cedo

e vestia a roupa sob o frio negrazulado,

depois, com as mãos gretadas, doridas

do trabalho da semana fria, acendia

a lareira. Nunca ninguém lhe agradeceu.

Eu acordava e ouvia o frio crepitar, a quebrar-se.

Com as salas já aquecidas, ele chamava-me,

e lentamente eu levantava-me e vestia-me,

receoso das crónicas iras daquela casa,

Falava indiferentemente com ele,

que tinha afastado o frio

e também engraxado os meus melhores sapatos.

Que sabia eu, que sabia eu

dos austeros e solitários ritos do amor?

Robert Hayden


Posted in Hayden | Com as etiquetas : | Leave a Comment »