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CRÓNICAS A METRO

Posted by Patrícia B. em 30/03/2010

Há já alguns dias me tem apetecido muito responder a dois artigos do jornal Metro publicados um no dia 18 de Março e outro no dia 25 do mesmo mês. Quem quer que se desloque no metro de Lisboa ou do Porto pode desfrutar semanalmente (pelo menos às quintas-feiras) de uma delícia metropolitana incomparável: as crónicas de um senhor chamado Luciano Amaral, e que segundo informação do mesmo jornal é professor da Universidade Nova de Lisboa. Destaco estes dois artigos por me parecerem demasiado maus para não serem referidos.

 Durante aqueles longos minutos das viagens subterrâneas no meio dos trambolhões e dos turbilhões, dos pi pi pi pi pi em que a gente apressada tenta ainda forçar as portas, e às vezes consegue e chega de língua de fora e sorriso de vitória nos lábios; em que outras mais azaradas chegam a dar murros no vidro da carruagem; entre olhares que se evitam, e o sono matinal que se tenta espantar… lá entra também o jornalinho franchising onde aparece o senhor LA. Às vezes pergunto-me porque é que continuo a ler os artiguinhos ora na página 8 ora na página 9, se bem já me avisaram que ler em movimento não faz bem à saúde ocular e pelo vistos também aborrece bastante o estômago.

Então no dia 18 li com espanto (apenas porque era o primeiro encontro com LA) que “Para as opiniões públicas ocidentais [quem são estas entidades?], sempre interessou mais demolir Bush do que acarinhar essa espécie rara que é uma democracia representativa no Médio Oriente.” E posto isto a conclusão é: vamos lá ter muito carinho pelo Iraque e por Bush, vá lá. Até já houve “duas eleições legislativas em sete anos”! Duas, ein! Duas! E parece até que o bom do George W  “Bush dizia em 2003 que queria ver, no prazo de cinco a dez anos, uma democracia funcional no Iraque que servisse de exemplo aos vizinhos. Passaram sete anos e já esteve mais longe. Ninguém cá fora agradecerá a Bush nem se esforçará muito para apoiar esse regime. Mas ele lá vai fazendo o seu caminho.” LA não está informado, LA não informa, LA acredita no Pai Natal, ups, numa “Democracia Iraquiana” desenhada e prevista por Bush.

“Iraq Democracy dropped from sky” nicholsoncartoons.com.au/cartoon_3378.html

O artigo do dia 25 é também bastante comovente pelos ensinamentos com que nos presenteia, começando logo pelo título, “Pobre Estado”, em que o adjectivo escolhido tem a magnífica capacidade de resumir a ideia-forte das linhas que se seguem. Não é que no meio de um autêntico desabafo se pode ler: “Confesso que nunca percebi como é que ajudar o capital financeiro com empréstimos e garantias estatais era combatê-lo. Mas enfim, eram outros tempos. É que agora é o pobre do Estado a precisar de assistência.” Depois da confissão segue-se outro desabafo em tom de comentário-político-em-bico-dos-pés: “Sempre me pareceu que a principal vítima da crise financeira não seria o fantasmagórico ‘neoliberalismo’ (que ninguém ainda explicou o que é) mas o Estado-Providência ocidental.” E agora o esclarecimento: “Foi o ‘capital financeiro’ [aqui LA ainda não tinha ido investigar os manuais de Economia, esperemos que hoje já saiba mais qualquer coisa] que permitiu a compra de casa própria para quase todos; […]que permitiu a compra de carro para o povo; foi ainda o capital financeiro quem pôs cartões de crédito no seu bolso.” Procurei, mas não dei por nada.

Indignei-me, fechei o jornal e graças ao neoliberalismo e ao amável capital financeiro eram já horas de abandonar o metro e de ir preencher o próximo recibo verde.

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