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SOFRIMENTO(S)

Posted by * em 13/03/2010

Há uma ideia generalizada de que o sofrimento dos que se dedicam a determinadas causas seria prova suficiente da justeza moral da própria causa. Uma outra vertente desta mesma ideia identifica o sofrimento com a sabedoria: o sofrimento reflectiria sabedoria ou conduziria à mesma.

Esta ideia, de origem mística, funciona como um mecanismo de defesa que pretende compensar o sofrimento com uma vantagem de ordem moral ou gnosiológica. O sofrimento do mártir purificá-lo-ia e fá-lo-ia alcançar os cumes da sabedoria, com putativos bónus numa outra vida, seja em termos de proximidade ao senhor, seja em quantidade de virgens. O sofrimento faria ainda com que o sofredor entrasse em comunhão com todos os sofredores do mundo, o seu sofrimento exprimiria todo sofrimento do mundo. Cada sofrimento em particular irmanaria, assim, todos os sofredores e a causa do sofredor exprimiria a própria causa humanista do fim do sofrimento humano. Mas esta relação não é verdadeira! O simples facto de haver sofredores em ambos os lados da barricada, indica que a avaliação da justeza, justiça e sabedoria dos combatentes deve seguir outros critérios.

Podemos respeitar muito o sofrimento, mas não é verdade que a justeza das causas e a sabedoria dos mártires possa ser provada com o próprio sofrimento. O calvário por que passaram, ao longo da história, cristãos, judeus, minorias de todos os tipos, não fazem com que sejam automaticamente verdadeiras e justas a causas que possam defender; os anos de sofrimento dos lutadores comunistas contra a exploração não podem ser apresentados como a prova, per se, da justeza dos seus ideais; os pretéritos anos de luta clandestina e de cadeia de alguns renovadores comunistas (por mais que respeitemos esse sofrimento) não fizeram necessariamente destes mais sábios e mais justos (na sua maioria são até muito pouco inteligentes); o martírio de combatentes anti-comunistas não lhes dá autoridade moral para falar de justiça social nem reflecte um conhecimento superior do rumo da história. O sofrimento não reflecte  necessariamente  nem sabedoria nem rectidão. As greves de fome de opositores pró-capitalistas cubanos não faz com que eles deixem de ser defensores da exploração do homem pelo homem. Há sofredores que sofrem por ideais verdadeiramente humanos, há os que sofrem em defesa da exploração, há sofredores sábios e há sofredores pouco inteligentes, há sofredores bem  intencionados e há sofredores mal intencionados, há sofrimento inútil, reaccionário ou pernicioso e há sofrimento por causas elevadas. Há muitos tipos de sofrimento.

A ideia de que o sofrimento deve obrigar os demais, como contrapartida, ao reconhecimento da sabedoria, da inteligência, da  justeza da causa é uma posição que, longe de respeitar o próprio sofrimento enquanto sofrimento, apenas o vê como moeda de troca para obter um outro bem. O sofredor achar-se-ia no direito a usar o próprio sofrimento para comprar o que por vezes não tem: inteligência, sabedoria, pureza de ideais.  O sofredor, enquanto sofredor, é apenas…sofredor. Merece a nossa comiseração e ajuda no sentido de assistência para a diminuição possível do sofrimento. Mas ajudar não é apoiar. Só a avaliação integral e aprofundada de todas as implicações da causa a que se dedica a pessoa em concreto pode revelar outras qualidades da sua intervenção social e a dimensão moral do próprio sofrimento.

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