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Posts Tagged ‘Filosofia’

TOTALIDADE E CONTRADIÇÃO

Posted by J. Vasco em 01/06/2012

Imprescindível livro de José Barata-Moura sobre a dialéctica, saído há apenas dois meses. Trata-se da edição revista e aumentada da 1ª edição publicada em 1977.

Muito ao jeito de um idealismo subjectivo com sedimentado e longo curso, há quem reduza a dialéctica a um equipamento cognoscitivo de organização sofisticada do acontecer histórico e social. Uma concepção mais rica, mais concreta e mais dialéctica da própria dialéctica obriga no entanto a considerar o problema de um outro modo (materialista). Como nos mostra José Barata-Moura, a dialéctica é um processo real, um processo de compreensão e um processo de actuação. Sendo que não se trata aqui de compartimentos estanques que se relacionam externamente, mas de um totalidade concreta e contraditória que tem como condição e como campo de acolhimento a objectividade material.

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ENTREVISTA A EFTICHIOS BITSAKIS – SOBRE A DIALÉCTICA DA NATUREZA

Posted by qmiguel em 10/03/2012

Eftichios Bitsakis é professor de física teórica na Universidade de Atenas e ensina também filosofia na Universidade de Ioannina. É autor de várias obras científicas entre as quais: Física e Materialismo Dialéctico; Física e Materialismo; O novo Realismo Científico. Deixamos aqui uma curta entrevista em torno da dialéctica da natureza.

 P: O que significa para si a expressão “Dialéctica da Natureza”?

E.B.: Essa expressão implica desde logo uma certa concepção da natureza, cujas origens remontam às intuições dos filósofos Pré-Socráticos, e que foi elaborada por Hegel no quadro de um sistema idealista e posteriormente por Engels como parte constituinte da visão materialista e dialéctica do mundo. Segundo esta concepção a natureza é uma realidade objectiva que ainda para mais é “de si e por si” (o princípio de asseidade é fundamental para o materialismo). A matéria é ontológicamente una e, ao mesmo tempo, diversa nas suas formas: unidade na diversidade. A natureza constitui assim uma totalidade héterogénea e em devir. O movimento é um atributo imanente e inalienável da matéria e realiza-se graças às interacções físicas; graças ao jogo de oposições e de contradições que caracterizam as formas materiais (a oposição e a contradição não são categorias meramente epistémicas mas também ontológicas: referem-se ao ser e não apenas ao nosso conhecimento). Desta forma a natureza caracteriza-se por uma hierarquia de estruturas e de níveis que aparecem ao longo do tempo e que desaparecem tomando outras formas. A criação e a destruição das formas da matéria obedecem a um certo número de determinações. A mudança qualitativa realiza-se por meio de “saltos”, isto é, rupturas da continuidade, como negação da forma inicial e negação da negação. A cosmogénese dá-se no espaço e no tempo, que são formas de existência da matéria. Isto para expôr resumidamente alguns dos aspectos de uma concepção dialética da natureza.

P: Será que é possível falar da “dialéctica da natureza” em geral, ou será que devemos entender esta expressão somente no plural? Será que ainda podemos falar de “leis” da dialéctica naquilo que à física ou a cosmologia diz respeito?

E.B.: Existe hoje uma tendência, nalguns meios marxistas, para conceber apenas dialéticas “locais” ou “regionais” e rejeitar “A” dialética da natureza. As ciências da natureza de hoje surgem de relações dialéticas e por meio destas é possível elaborar dialéticas regionais. Vejamos:

1) A matéria apresenta-se hoje sob formas extremamente heterogéneas. No entanto existe uma unidade ontológica dessas formas, que se manifesta através de leis que são comuns para todas as formas  e níveis. Também ao nível microfísico existe uma transformação de diferentes partículas elementares em formas diferentes e opostas.

2) A matéria tem uma história. As formas actuais caracterizam um certo estado de evolução do cosmos. Para além disso, é quase certo que ainda hoje exista criação de matéria, que não é mais que a emergência de particulas do “fundo” (do nível sub-quântico).

3) O vazio de Demócrito não era mais que uma mera abstacção. Hoje em dia, considera-se o “vazio” como um oceano de formas da matéria que passam, mediante certas condições, do potencial ao actual.

4) Segundo algumas teorias relativistas, existe uma unidade entre espaço, tempo e matéria. Neste caso, é a matéria, e o seu movimento, que determina a forma do espaço e o fluxo do tempo.

5) A cosmogénese não diz apenas respeito à historicidade das formas da matéria do nível microfísico e às formas do macrocosmo. Existe uma história da formação da terra, da aparição e evolução da vida, da antropogénese e da noogénese.

6) As formas de existência e a sua transformação obedecem a um certo número de tipos de determinação: mecânica, dinâmica, estatística quântica e estatística clássica.

Penso que por meio do estudo concreto destas áreas é possível elaborar dialécticas regionais concretas.

Aceitemos que estas dialécticas regionais são elaboradas através de uma valorização filosófica das leis das ciências naturais. Elas podem assim ser legítimas do ponto de vista epistemológico. Agora, será que podemos falar de “leis” no que diz respeito à natureza considerada como um todo?

Sartre, por exemplo, achava que podiamos falar de dialéctica da história, mas não de dialética da natureza, uma vez que a natureza, segundo ele, não constitui uma totalidade. Hoje em dia está provado que a natureza constitui uma totalidade, que inclui  diferença, oposição e contradição. A escola Althusseriana assumiu uma posição reservada, pois para esta uma dialéctica da natureza poderia significar uma nova ontologia dogmática. Para Altusser a filosofia não tem história, as suas teses implicam uma espécie de eternidade. No entanto, as diferentes teses filosóficas não surgem arbitrariamente, mas antes em relação com a prática social e com as descobertas das ciência. Desta forma e apesar da existência de um certo número de questões eternas, as questões que a filosofia levanta têm uma história própria e o seu conteúdo altera-se com o curso do tempo, de tal forma que as aporias filosóficas vão sendo pouco a pouco esclarecidas. A filosofia não consiste num mero elaborar de teses, ela é o reflexo de uma concepção do mundo, e esta concepção nunca é arbitrária.

 Como é que confluem então a ciência e a filosofia? O desenvolvimento das ciências dá-se por meio de um duplo movimento: especialização e generalização. Os conceitos científicos aproximam-se das categorias filosóficas. Não é por acaso que os mesmos termos (matéria, espaço, tempo, interacção, causalidade, etc…) são utilizados tanto pelos cientistas como pelos filósofos. Estas palavras, a que no domínio das ciências poderiamos chamar conceitos quase filosóficos, exercem uma mediação entre as ciências e a filosofia. Assim as categorias e as teses da filosofia não são vazias e anti-históricas, mas plenas de conteúdo concreto. Consequentemente as “leis” da dialéctica da natureza não são leis em sentido estrito, mas proposições correctas, com sentido metafísico, que se acordam com as ciências. A dialéctica da natureza não é uma ontologia axiomática, mas uma concepção da natureza que se elabora através da generalização e superação dos conhecimentos das ciências da natureza.

P: A dialéctica da natureza foi desvalorizada pelo uso dogmático feito à época de Jdanov e Estaline. Será que podemos distinguir a dialéctica da natureza do uso dogmático que dela foi feito e relacioná-la com a evolução da ciência contemporânea?

E.B.: A dogmatização da dialéctica da natureza e em geral da filosofia marxista, pode ser explicada pelo desvio global da União Soviética. No “Socialismo de Estado” a dialéctica, por natureza crítica e revolucionária, adquiriu uma forma simplificada e apologética. Hoje, as ciências contemporâneas abrem novas prespectivas para uma dialética da natureza já livre do dogmatismo. Engels dizia que à medida em que se dão grandes revoluções científicas, o materialismo dialético (e a dialética da natureza em particular) deve mudar de forma. Ora não se trata aqui de mudar de forma. As categorias dialécticas e mesmo todo o edifício da dialéctica da natureza devem ser novamente elaboradas, dando valor filosófico ao material concreto das ciências da natureza. Como diria Hegel: a filosofia é hostil ao abstracto e deve levar sempre ao concreto. O último capítulo do meu livro trata das novas prespectivas da dialéctica da natureza.

P: Existe o perigo de uma nova ontologização da dialéctica?

E.B.: As palavras não nos devem fazer medo. Uma teoria do ser, ou melhor, uma ontologia anti-dogmática, é hoje possível. Esta teoria do ser refere-se ao ser por meio do nosso conhecimento deste. É evidente que ela fala do ser por meio do nosso conhecimento da natureza. Uma das condições para evitar desvios indesejáveis é pensar a dialéctica que se encontra no materialismo.

P: Quais são então as descobertas ciêntíficas contemporâneas que podem ser interpretadas a partir de categorias dialécticas?

E.B.: As ciências “filosóficas” por excelência são a física, a astrofísica, a cosmologia, a biologia e a psicologia. Também a matemática se pode ligar à dialéctica, ainda que de uma forma um tanto quanto indirecta. Interpretar dialécticamente não significa procurar aquilo que se deseja, nem ter concepções de base preestabelecidas, mas sim interpretar o material científico e compreender as relações dialécticas que aí se encontram implicadas, e, se quisermos, num movimento ao contrário, “interpretar” a ciência. A filosofia não pode exercer uma função normativa em relação às ciências. A sua função deve ser epistémológica: análise, critérios, compreensão das relações e tendências em questão, assinalar os objectivos e os métodos.

P: Existe uma tendência para “recitar” a filosofia de Marx e de Lénine, alguns guardando o materialismo e rejeitando a dialéctica, outros procedendo em sentido inverso… Na sua opinião o que é que se perde quando se perde a referência ao materialismo dialéctico?

E.B.: Como disse ainda há pouco: pensar a dialéctica que está no materialismo. Marx era claro no que respeita à unidade indissolúvel da dialéctica e do materialismo. Engels também. Quando a Lénine, apesar de existirem diferênças no que diz respeito aos problemas e ao estilo, ele continua e desenvolve as concepções de Marx e Engels. Há uma unidade imanente destes três autores clássicos da filosofia marxista. O materialismo sem a dialéctica é um materialismo vulgar, a dialéctica sem o materialismo é uma dialéctica oca, e em ultima análise impossível.

 

(Entrevista publicada originalmente na revista Etincelles nº8 em 2003, traduzida do francês) 

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A HISTÓRIA E A DIALÉCTICA

Posted by qmiguel em 01/03/2012

«A história pode ser examinada sob dois aspectos. Podemos dividi-la em história da natureza e história dos homens. No entanto, não podemos separar estes dois aspectos; enquanto existirem homens a sua história e a história da natureza condicionar-se-ão reciprocamente.» Marx e Engels, Ideologia Alemã-passagem rasurada

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O ESTATUTO DO IDEAL

Posted by J. Vasco em 09/02/2012

Já aqui, várias vezes, dissemos: a filosofia soviética é uma mina de preciosidades à espera de um trabalho de pesquisa sério, paciente e sistemático. Por aqui vamos apenas dando conta, sem regularidade, de algumas pérolas que nos surgem pelo caminho.

É claro que a boçalidade reinante apresenta a produção filosófica soviética, mesmo sem com ela ter o mais pálido contacto, como escalracho a clamar por remoção preventiva. E a seguir oferece dela um quadro pálido, cinzento, monocolor. A diversidade é, porém, a verdadeira marca de água dos autores soviéticos. Diversidade que assume algumas vezes os contornos da oposição e da contradição – e isto se nos reportarmos somente ao campo do marxismo, que é o que aqui nos interessa.

Confrontar a obra de David Dubrovsky com a de Evald Ilyenkov é deveras estimulante. Detêm-se ambos sobre o estatuto do ideal, mas a partir de posições bem distintas. Ilyenkov vê o ideal como algo que extravasa o conteúdo subjectivo da consciência, posição que, no quadro do seu pensamento, pretende evitar uma limitação kantiana. Ilyenkov considera que a realidade humano-social é a razão realizada, objectivada, e portanto o ideal tem uma feição objectiva. Dubrovsky, não negando a estrutura social, inter-subjectiva, do ideal (bem pelo contrário), considera-o no entanto, essencialmente, uma realidade interna, subjectiva, considera-o enquanto reflexo mental de múltiplas determinações da realidade e do organismo humano.

Há quem considere tudo isto desinteressante, demasiado árido, longe dos problemas mais candentes. No entanto, talvez não seja totalmente descabido tomar em mãos uma análise mais cuidada destes problemas. Por um lado, para dar conta das raízes sociais, complexamente mediadas, que se expressavam nestas diferentes posições filosóficas. Por outro lado, porque a partir delas, como num leque que se abre, surgem temas tão fundamentais como, por exemplo, a teoria do reflexo, o estatuto do valor, ou o fundamento da transformação social e política.

 

Aceder aqui a The Problem of the Ideal

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LÉNINE E A FILOSOFIA

Posted by J. Vasco em 15/11/2011

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IAKOV FOMITCH ASKIN

Posted by J. Vasco em 30/10/2011

O que mais impressiona nos chamados meios «cultos» é a sobranceira ignorância com que falam da história soviética, em geral. Em relação à cultura e à produção científica, em particular, o caso torna-se ainda mais gritante. Não certamente devido à barreira linguística e à falta de traduções portuguesas de obras soviéticas de peso (apesar de tudo, um problema real), mas sobretudo pelo preconceito rasteiro que povoa a mentalidade desse meio. Proclamam a validade do espírito crítico e praticam o mais destemperado obscurantismo.

Já aqui se falou de Ilyenkov. E de Vazyulin. Hoje far-se-á referência a Iakov Fomitch Askin (1926-1997), filósofo soviético com uma vasta e profundíssima obra. Grande parte do seu trabalho foi dedicada ao problema do tempo, estruturado sempre em diálogo com o avanço das ciências particulares da natureza. De assinalável interesse e relevância reveste-se a interpretação materialista da teoria da relatividade de Einstein que é avançada neste precioso livro. O tempo não é um receptáculo absoluto subsistente para lá da matéria.  Ele é uma forma da matéria, forma que expressa o seu devir a um tempo uno e múltiplo.

«A essência do tempo não se encontra determinada por nenhuma forma concreta de movimento, mas antes pelo que é inerente ao movimento da matéria no seu conjunto: o processo de transformação, de devir» (p. 149).

Esta edição uruguaia de 1968, com tradução directa do russo de Augusto Vidal Roget, é excelente. Ignorar, hoje, os contributos da filosofia soviética não a belisca minimamente. Só desprestigia os ignorantes.

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RELATOS DE UMA DEMOCRACIA PLURAL

Posted by qmiguel em 16/10/2011

Vivendo faz já alguns anos na ilustre capital francesa, impôs-se-me como uma inevitabilidade prática adquirir um exemplar francês de algumas obras de Karl Marx (Sagrada Família, Ideologia Alemã entre outras) . Conhecendo a ofensiva ideológica corrente no mercado de edição (algo não exclusivo das terras gaulesas) não me ocorreu no entanto  que um autor como Marx pudesse também ser alvo de uma ostensiva hostilização editorial, como a minha experiência comprovou.

Parti então à procura, verificando primeiro nas livrarias mais centrais, depois então nas maiores e finalmente em qualquer livraria que encontrasse. A minha longa procura permitiu-me ter uma visão mais lúcida sobre a divulgação da obra de Karl Marx. Encontramos portanto (quando encontramos algo…) o Manifesto do Partido Comunista, alguns volumes do Capital, e as obras dedicadas especificamente à situação francesa (Guerra Civil em França, 18 Brumário….), assim como edições duvidosas (estilo brochuras) de recolhas de textos parciais, a que os editores muitas vezes dão títulos de gosto e tecnicidade duvidosas. Esta colheita impõe-se como regra livraria após livraria e mistura-se com uma quantidade de bibliografia secundária duvidosa (por vezes abundante), a título de exemplo, numa das maiores e mais concorridas livrarias do centro é possível encontrar uma edição em vários CDs\DVDs de um conjunto de lições sobre Marx da autoria de Luc Ferry (cujos dotes de especialista na questão são no mínimo duvidosos, isto sem querer entrar em processos de intenção) , uma edição do Capital em BD (…), mas nem sinal de qualquer obra do pensador alemão de cunho “mais” filosófico.

Finalmente aconselhei-me com quem conheçe realmente o meio editorial francês e se interessa por estes assuntos. Disseram-me que é difícil encontrar tais livros, mas lá me indicaram uma livraria especializada na questão (uma “sobrevivente”).  Chegado à tal livraria, e verificando que era realmente “especializada”, a resposta que obtive foi algo do género: “há anos que não o vejo” (em relação à Ideologia Alemã), e um “tive-o realmente há cerca de um ano, mas foi-se rapidamente” (em relação à Sagrada Família), entre outras desilusões. Quanto às prespectivas futuras da minha demanda, não me sossegou minimamente.

Creio que a descrito espelha bem  a tragicidade da situação do mercado editorial, que não creio ser pior em França do que em muitos dos países vizinhos. Creio ser preocupante a inexistência material de tais obras. Já me tinha apercebido da gravidade da situação quando procurei outros autores marxistas, ditos menores. O que sucede é uma absoluta e silênciosa ocultação de obras de tal cariz. Muitas vezes editoras outrora mais progressistas guardam os direitos de tradução de certos autores recusando-se a reeditá-los ou a deixar que se reedite. Passo aqui em puro testemunho o vivido de uma situação problemática e  de consequências provavelmente graves.

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SOBRE AS MISÉRIAS DA MICROFÍSICA DO PODER

Posted by J. Vasco em 12/10/2011

 

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DA DIALÉCTICA (II)

Posted by J. Vasco em 29/05/2011

«Uniões: inteiros e não-inteiros, convergência e divergência, acordo e desacordo de vozes, enfim, de todas as coisas um e de um todas as coisas».

Heraclito, Fragmento B 10

Imagem: Dupla Espiral de Mandelbrot 

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ANÍBAL PONCE

Posted by J. Vasco em 02/05/2011

O argentino Aníbal Ponce viveu apenas 39 anos. A sua obra teórica, porém, nomeadamente os seus estudos sobre história da educação, até hoje inigualados, atravessarão os tempos.

Ponce, Aníbal – Educación y lucha de clases [1934]

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DA DIALÉCTICA

Posted by J. Vasco em 12/02/2011

«Este cosmo, o mesmo para todas as coisas, nenhum dos deuses nem dos homens o fez, mas foi sempre e é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se segundo medidas e apagando-se segundo medidas.»

Heraclito, Fragmento B 30

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A CRÍTICA DA LEITURA PSICO-PATOLOGIZANTE DAS CRISES HISTÓRICAS É UMA DAS GRANDES TAREFAS DO COMBATE PELA RAZÃO

Posted by J. Vasco em 02/01/2011

Vídeo AQUI.

O filósofo italiano Domenico Losurdo é uma personagem fascinante. Cordato e afável no trato, é autor de uma obra teórica impressionante – pela quantidade e, fundamentalmente, pela enorme qualidade. À erudição, à profundidade e à agudeza crítica, alia Domenico Losurdo uma muita sadia coragem intelectual e política e uma não menos importante capacidade de intervenção regular no espaço público dos continentes europeu e americano. Nos tempos que vivemos, estávamos precisados de muitos Losurdos…

Um dos combates pela razão, hoje em dia, passa por denunciar o baixo expediente a que se entregaram as classes dominantes desde a grande revolução francesa de 1789: taxar de «sandice», «loucura», «demonismo», os grandes movimentos históricos de emancipação da humanidade.

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DO ABSTRACTO E DO CONCRETO

Posted by J. Vasco em 05/12/2010

«O concreto é concreto, porque é a reunião de muitas determinações, portanto, é unidade do diverso. No pensar, aparece, pois, como processo da reunião, como resultado, não como ponto de partida, apesar de ele ser o ponto de partida real e, portanto, também o ponto de partida da intuição e da representação. O método de subir do abstracto ao concreto é, para o pensar, apenas a maneira de se apropriar do concreto, de o reproduzir como um concreto espiritual. De modo nenhum é, porém, o processo de génese do próprio concreto.».

Karl Marx, Grundrisse, Capítulo 1, 1857

NOTA: mesmo entre aqueles que se consideram marxistas, subsiste por vezes a ideia de que o concreto se reduz ao corpóreo, ao imediato, ao positivo e ao discreto. Este erro não deixa de trazer sérias e desastrosas consequências, quer a nível teórico, quer em relação à prática. O concreto é o multiplamente determinado, é um sistema de relações (intrínsecas e extrínsecas) – e é tudo isso processual e historicamente, ou seja, em devir. O abstracto é o separado, o isolado (relativamente) de uma totalidade. O abstracto é um momento da reconstituição concreta (espiritual) do concreto (material). Eis um dos aspectos da dialéctica do abstracto e do concreto, que Marx tão profundamente pensou.  

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SOBRE O GRANDE IDEALISMO ALEMÃO

Posted by J. Vasco em 23/10/2010

Foi dado à estampa, há cerca de um ano, este interessantíssimo estudo do académico grego Nectarios Limnatis, radicado nos EUA, sobre o idealismo alemão.

O livro intitula-se «German Idealism And The Problem Of Knowledge», e acompanha, do ponto de vista lógico e no plano histórico, a passagem do idealismo subjectivo de Kant ao idealismo objectivo de Hegel.

Nectarios Limnatis oferece-nos uma bem fundamentada análise, quase sempre elaborada em filigrana, das filosofias de Kant, de Fichte, de Schelling e de Hegel. Tem o enorme mérito de mostrar os vínculos necessários (não-arbitrários) que as relacionam, que as estruturam e que possibilitam o desenvolvimento e a transformação de umas nas outras, ou melhor: a transformação do idealismo kantiano no idealismo de Hegel.

O caminho não estava fatalmente determinado à partida. Mas o pôr em marcha certos aspectos da doutrina de Kant, não poderia, nem no plano lógico nem no plano histórico, ter outro desfecho que o sistema hegeliano. Hegel levou o idealismo ao seu limite máximo, nele integrando como seu momento dialéctico a própria objectividade material.

Clique aqui para ter acesso ao livro.

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LÉNINE E A FILOSOFIA

Posted by J. Vasco em 13/10/2010

José Barata-Moura lançou, há um mês, mais um grande livro de filosofia a juntar à sua vasta obra. Intitula-se «Sobre Lénine e a filosofia. A reivindicação de uma ontologia materialista dialéctica com projecto», e é, depois do anterior, de que aqui demos notícia, o segundo a ser dado à estampa este ano.

O trabalho de auscultação da relação de Lénine com a filosofia é realizado, por Barata-Moura, em filigrana. O cotejo crítico, que atravessa o livro de fio a pavio, entre «Materialismo e Empiriocriticismo», de 1908, e os conspectos, constantes dos «Cadernos Filosóficos», sobre a filosofia de Hegel, que remontam a 1914, desmontam uma ideia que faz carreira entre grande parte da marxologia ocidental, segundo a qual haveria dois Lénines: o desconhecedor da dialéctica, tosco «materialista», na primeira obra; e o renegado do «materialismo», já conhecedor da dialéctica por intermédio da «descoberta» de Hegel, nos «Cadernos Filosóficos». Na verdade, como no-lo mostra Barata-Moura, o que há é um solo comum entre os dois momentos, a partir do qual as preocupações e núcleos temáticos do primeiro vão, em processo, recebendo aprofundamentos e desenvolvimentos.

Outro aspecto interessante a destacar no livro é o tema da prática. Se em Lénine ele aparece decisivamente tratado, no plano da teoria do conhecimento, enquanto critério da verdade (muito embora não esgote esse critério), deve salientar-se que há também uma abordagem da prática em Lénine, não menos capital, enquanto agente material da transformação material da realidade (seja no plano do trabalho, da aplicação técnica da ciência, ou da luta política).

Uma chamada de atenção parece-me merecer ainda a diferença de tratamento que, para Lénine, deve ser estabelecida entre a luta política, no plano estratégico e táctico, e a luta filosófica. Não que uma não interfira na outra. Mas até que ponto a relação entre uma e outra é complexamente mediada, mostra-nos a especificidade da abordagem que cada uma recebe por parte de Lénine. É assim que um menchevique como Plekhánov está mais próximo do materialismo marxista do que um bolchevique como Lunatchárski. José Barata-Moura, com minúcia, conduz-nos por estes intrincados meandros. 

Finalmente, a questão central que dá ritmo e teor determinado ao livro: a perspectiva ontológica. José Barata-Moura, como é seu timbre, não abdica de a convocar. Ainda que Lénine não tenha dado ao problema um tratamento isolado, circunscrito e autónomo, a verdade é que a perspectiva sobre o estatuto do ser, a demanda sobre aquilo que é, comandam e determinam toda a abordagem leniniana. Sem ontologia, sem compreensão de aquilo que é, não se chega sequer a perceber de forma adequada a economia, a política, a transformação,  a revolução. Lénine sabia-o – e, por isso mesmo, a persepctiva ontológica perpassa e inunda toda a sua obra. Lénine sabia-o – e, por isso mesmo, o estudo da filosofia foi sempre uma preocupação constante ao longo da sua vida.

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VASCO PULIDO VALENTE: ASSINADO E REGISTADO NO LIVRO DE ACTAS

Posted by J. Vasco em 05/10/2010

Importa, em todos os fenómenos da vida social, perceber a partir de que ponto de vista se exerce a crítica. É o que permite apurar o teor e os objectivos determinados dessa crítica.

É possível criticar Kant, por exemplo, tanto de um ponto de vista materialista, como de um ponto de vista idealista. No primeiro caso, reconhece-se-lhe o mérito de conferir um estatuto de independência ôntica à realidade objectiva, apontando-lhe porém a debilidade de a considerar incógnita e incognoscível. No segundo, o idealismo mais consequente e mais radical aponta-lhe sobretudo a inaceitável concessão ao materialismo que representa o reconhecimento da objectividade material da coisa em si.

Também é possível criticar o capitalismo – recorrendo a outro exemplo -, tanto do ponto de vista aristocrático, monárquico, feudalizante, tardo-romântico, quanto a partir de posições progressistas, proletárias, socialistas, comunistas.

Detenhamo-nos agora no caso da república portuguesa, uma das primeiras da Europa.

O movimento operário critica-a não por ser república, mas pelo seu conteúdo burguês, limitado, amputado, por ser uma república burguesa, estruturada portanto para, dentro de uma moldura republicana, garantir a vigência da exploração capitalista.  Criticando-a de um ponto de vista de classe, simultaneamente transporta e carreia, através dessa crítica, o ponto de vista mais universalista de todos: o da humanidade social.

Em relação ao campo reaccionário (dos monárquicos, aos fascistas, passando por toda a gama diversa de direitistas com que a história nos foi presenteando), a crítica é dirigida não ao carácter burguês, mas ao próprio republicanismo da república, republicanismo tendencialmente universalista. Os reaccionários não podem conceber, sequer, que o fundamento da soberania resida no povo, que os cargos públicos sejam electivos e os seus titulares amovíveis, que não haja privilégios de casta, que os cidadãos sejam iguais em direitos e perante a  lei. Contudo, o que os desgosta mais na república portuguesa é a chamada questão social, a emergência, ainda que dentro de limites bem apertados e de conteúdo político muito débil, do movimento autónomo dos trabalhadores.

É neste quadro que surge e se constrói a interpretação fascista da república portuguesa. O seu objectivo era, a um tempo, legitimar, no plano ideológico, a construção do estado fascista, e, no plano prático, reprimir, e se possível liquidar, o movimento operário organizado, com vistas a afastar o perigo da revolução social e a proporcionar à burguesia, de uma forma mais estável e fortalecida, a extracção e a apropriação de mais-valia. E é assim que os fascistas, irmanados com os monárquicos, criam uma imagem da república como estado «jacobino», como reino da «violência» e do «arbítrio», como «caos social e político» onde impera a «perseguição», a «vigilância», a «intolerância» e a «fúria». Não era preciso pôr cobro a «isto», a este ambiente de «psicose social»?

Vasco Pulido Valente não é grande historiador, como se sabe: escreve um arremedo de livritos, rabisca umas croniquetas, e bolça, de ordinário, o seu profundo ódio anti-comunista. Mas Vasco Pulido Valente sabe que textos invoca, o que significam e que funções sociais e políticas concitam. E por isso não é inocente a convocação da figura de Salazar a que procede na sua diatribe contra a república portuguesa, publicada no Público do último sábado, dia 2 de Outubro. Para que fique registado no livro de actas, com a sua assinatura indelével, transcrevamos as exactas palavras de Vasco Pulido Valente: «Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.».

A visão de Salazar e dos fascistas sobre a república – eis o melhor de que é capaz Vasco Pulido Valente. 

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NÃO CANSE O PENSAMENTO DE GUIAR-ME, DONDE NUNCA DE LÁ POSSA TORNAR-ME

Posted by J. Vasco em 22/09/2010

Evald Vasilyevich Ilyenkov (1924-1979)

«Entendo o pensar como a componente ideial da actividade real das pessoas em sociedade transformando simultaneamente, pelo seu trabalho, a natureza e a própria sociedade». (Lógica Dialéctica, Introdução)

Evald Ilyenkov é um dos grandes filósofos do século XX.

Personagem trágica (suicidou-se), de recorte entre o brechtiano e o shakespeariano, elevou e desenvolveu o pensamento marxista soviético a partir da herança hegeliana, nomeadamente a partir do seu núcleo racional: a dialéctica. No seu trabalho teórico em território marxista, notam-se também fortes ressonâncias de Espinosa, por quem Ilyenkov, de resto, nutria uma especial admiração.

A sua vasta obra (consultar aqui alguns dos títulos disponíveis em inglês) começou a ser conhecida no ocidente, nomeadamente em Inglaterra e em França, a partir de meados dos anos 80 do século passado. Já é tempo de ser traduzida para português. Os seus estudos sobre a consciência, sobre o problema do ideial e da ideia, sobre a lógica de «O Capital» – são inestimáveis para quem não desiste de pensar as realidades em movimento, num horizonte de transformação.

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DO USO PRÓPRIO DA RAZÃO

Posted by J. Vasco em 20/09/2010

«A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtarir-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame».

(Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 5)

Dizia Hegel que, sem Espinosa, não havia filosofia.

Podemos também dizer que, sem Kant (1724-1804), não pode haver filosofia.

Kant é o grande filósofo da revolução francesa. No seu cantinho de Königsberg, acompanhava os acontecimentos gauleses com entusiasmo, pois identificava no sucesso da grande revolução burguesa do século XVIII o progresso da humanidade, o progresso da razão.

Vejam o excerto citado. Como é fácil, hoje, dizer que tudo se deve submeter à crítica, como é ocioso afirmar que é a razão – e não qualquer poder externo a ela (o governante, o cura, o síndico) – que deve comandar o viver humano e enformar as relações comunitárias. Se hoje é assim – na altura não o era: que é isso, senhor filósofo, de querer transformar o mundo e a vida a partir de um fundamento racional? Há, a demonstrar o contrário, todo o peso da tradição já provada pela experiência, que tão boas mostras de dar conta do recado tem dado…

Kant é hoje «ensinado» (tanto no ensino secundário, como nas universidades), expurgado da corrente viva do seu pensamento. Apresentam-no como se de uma morta e apodrecida terceira via, entre o «empirismo» e o «racionalismo», se tratasse. Embotam-lhe o gume crítico e o núcleo revolucionário.

Porém, o mais dramático, por parte desses «professores», é papaguearem frases grandíloquas sobre o uso próprio da razão, mas matarem à nascença, nos seus alunos, qualquer semente de espírito crítico que principie a assomar. Proclamam-se kantianos, mas praticam a idolatria.

Os argumentos e as opiniões valem pelo seu conteúdo, pelo bem fundado do seu teor, pela adequação que carreiam em relação à realidade objectiva – e nunca pelos pergaminhos, por mais imponentes que pareçam, de quem os manifesta e de quem as expende.  

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HEGEL E A ONTOLOGIA

Posted by J. Vasco em 08/06/2010

    

Para o grande público, José Barata-Moura é sobretudo um grande autor e intérprete de canções infantis que atravessam gerações, um cantor de intervenção, ou ainda o ex-reitor da Universidade de Lisboa.

Menos conhecida desse grande público é a sua continuada, profunda, finíssima e a vários títulos fecunda reflexão filosófica. Ora, sem nenhum grão de exagero e sem nenhum tipo de favor, deve dizer-se que José Barata-Moura é o maior filósofo português, sendo simultaneamente um pensador de craveira mundial.

A sua obra alargou-se agora um pouco mais. Há cerca de um mês foi dada à estampa esta pérola em forma de livrinho: «Estudos sobre a ontologia de Hegel – Ser, Verdade, Contradição»

Por partir de supostos trans-hegelianos, o livro permite, a um tempo, uma penetração enriquecida na dinâmica da filosofia de Hegel e uma recuperação materialista do núcleo racional (a dialéctica) do seu pensamento. Na linha geral que atravessa a obra, há toda uma preocupação por parte de José Barata-Moura de destacar em Hegel a ocupação com «aquilo que é», afinal com aquilo mesmo de que a ontologia trata.

Logo na Introdução, diz-nos José Barata-Moura ao que vem:

«[…] Cada capítulo deste livro forma por si uma unidade. No entanto, as temáticas que se entrecruzam permitem, porventura, divisar, no seu conjunto, uma tentativa de penetração no que se me afiguram ser traços marcantes da ontologia de Hegel – isto é, do respondimento que ele pensa para a pergunta fundadora: que é «aquilo que é»? […]»

Boa leitura.

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