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«O SÉCULO PASSADO»

Posted by J. Vasco em 11/03/2010

Em 2004, por alturas das comemorações dos 30 anos da revolução de Abril, o inenarrável Durão Barroso disse que o país estava de tanga porque a revolução portuguesa tinha vindo interromper e destruir o crescimento económico dos chamados «anos dourados» do capitalismo. O ambiente social e político já tinha recuado de tal forma em 2004, que estas posições começaram enfim a ver a luz do dia e a ganhar direito de cidade no seio dos próprios órgãos saídos da revolução.

Seis anos passados, Fernando Pinto, director executivo (CEO, no linguajar yuppie) da TAP Portugal, veio a terreiro largar esta pérola: «eu considero que greves é algo do século passado».

Tem o homem razão.

Com efeito, foi no século XX que, nos países capitalistas, através de lutas duríssimas, os trabalhadores conquistaram o direito à greve. Foi no século XX que, nos países capitalistas, com a pressão da revolução social e através de muitas greves, os trabalhadores conquistaram vários direitos sociais: as oito horas de trabalho, as férias pagas, a segurança social, a consagração das funções sociais do estado, o próprio sufrágio universal (o princípio uma pessoa-um voto). (É de crer que nem o mais raivoso anti-comunista esteja disposto a abdicar, para si, destas aquisições históricas do movimento operário). Foi ainda no século XX que o pressuposto básico da greve, o movimento organizado dos trabalhadores, se fortaleceu, consolidou e avançou, tendo chegado ao ponto de levar a cabo uma revolução social que não só efectivou e consagrou direitos, como iniciou a tarefa de erguer um novo modo de produzir e reproduzir o viver comunitário: o socialismo. Tudo isto influenciou decisivamente o surgimento e o desenvolvimento das lutas de libertação dos povos colonizados (Ásia, África, América Latina). Tudo isto foi no século XX, o tal «século passado» de que fala o sr. CEO com um misto de desprezo e de nervoso miudinho.

Percebe-se que assim seja. Fernando Pinto (e Ricardo Salgado, e Belmiro, e Jerónimo Martins, e Américo Amorim, e os representantes políticos dos seus interesses: PS, PSD e CDS-PP) quer voltar aos séculos anteriores ao «século passado». Nos seus sonhos, ele imagina e projecta uma sociedade pré-século XX: uma sociedade com trabalho escravo, sem horários, sem direito à greve, sem organização dos trabalhadores, sem sindicatos, sem a ameaça da sempre presente revolução social, sem o perigo do socialismo. Ele queixa-se do século XX, não em nome do século XXI, não em nome do futuro – mas antes em nome do passado, em nome dos séculos XIX, XVIII, XVII , XVI.

Não terá sorte. Por muito grande, intensa e violenta que seja – e é-o, de facto – a ofensiva social, económica e política da burguesia; por muito que o ambiente político envolvente seja – e é-o, com efeito – propício ao florescer e desabrochar das posições mais retrógradas e reaccionárias – a verdade é que não nos quebrarão a espinha.

Na luta do, e no, presente, o passado é parte e momento da luta.  

Pela nossa parte, ergueremos sempre bem alto a bandeira do «século passado».

Não porque tenhamos em vista um idílico regresso ao passado. Mas porque foi no século XX que se iniciou a luta decisiva, implacável, pelo futuro. Que outros continuaram. Que nós continuaremos. Que outros continuarão.

A despeito da vontadinha do sr. CEO. 

 

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