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MITOS

Posted by J. Vasco em 19/02/2012

Os ideólogos do regime, em Portugal, precisam de quase nada para serem considerados «grandes pensadores», «analistas profundos», «académicos de alto rigor intelectual e honestidade profissional a toda a prova».

Freitas do Amaral, com insistência doentia, é tratado pela imprensa dominada por «senador».  Os aristocráticos sonhos molhados desta gente são acompanhados de titânicos esforços para construir uma imagem santa, beata e intocável de um dos mais destacados e tenazes representantes políticos da burguesia portuguesa. Interessa pouco o que Freitas do Amaral diz. Se ele diz, cancele-se o espírito crítico: ainda que em presença da maior banalidade do mundo, estamos, na verdade, é perante algo de inequivocamente «profundo», «sério» e «rigoroso». Mais do que discutir o teor das suas concepções e afirmações; mais do que confrontá-las com as contradições sociais em que se inscrevem; mais do que, no fundo, fazer uso da capacidade crítica – interessa sim, a propósito de tudo e de nada, dizer que ele tem dezenas de livros publicados, afirmar com convicção que o homem já leu tudo, e jurar a pés juntos que «o senador» estuda que se farta. Freitas do Amaral boceja – e aí está uma demonstração de rigor; pestaneja – e eis que a sua profundidade de análise se exibe; abana a cabeça – e vejam bem como se expressam nesse movimento as aturadas horas de leitura do professor emérito.

O fundador do CDS, no entanto, é perverso. Com pezinhos de lã, e singelamente, fez mais pela destruição eloquente do seu próprio mito do que mil tentativas (sempre abafadas) de demonstração de que o rei vai nu.

O seu recente «História do Pensamento Político Ocidental» é tomo de peso: 774 páginas, 1 kg e 100 g. Abrimos a página 461, na qual se vai falar de Lénine, e deparamo-nos com a informação de que uma das suas obras principais é «O Estado e a Revolução (ou As teses de Abril)» (sic!). Siderados? Claro! Mas deixamos passar o espanto, enchemo-nos de boa vontade, e pensamos: talvez tenha havido gralha… Continuamos. Passamos para a página 462, e o mesmo erro é reiterado por duas vezes ao correr da pena.

Resumindo. Para Freitas do Amaral, os textos de Lénine «Teses de Abril» (e não: As Teses de Abril, como escreve) e «O Estado e a Revolução» são uma e a mesma coisa. Ora, como qualquer pessoa com um mínimo de leituras sabe, as famosas «Teses de Abril» estão contidas num artigo de Lénine intitulado «Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução». Foram escritas no comboio em que Lénine regressou a Petrogrado, lidas em duas reuniões de bolcheviques realizadas em Abril de 1917 e também nesse mês publicadas no Pravda. «O Estado e a Revolução», por sua vez,  é uma obra teórica de fundo, com outro fôlego e outra respiração, escrita em Agosto-Setembro de 1917 na clandestinidade e publicada em Novembro de 1917.

Note-se que nem sequer entrámos aqui numa avaliação do conteúdo e da estrutura da obra do «senador». Destacámos tão-somente aquilo que caracteriza, em termos minímos, a probidade e a honestidade de um autor: conhecer bem os textos daqueles que pretende criticar. Esse mínimo, manifestamente, não se verifica em Freitas do Amaral. O ataque às posições políticas dos seus adversários de classe é feito sem qualquer rigor científico e sem nenhuma preocupação de honestidade. O sistema não exige dele mais do que isso. Não é um grande mérito, apesar de tudo, para quem se intitula «pensador».

O rei continua, portanto, a andar em pêlo. Não nos alvorocemos, porém. Tudo está bem como está. O «senador» vai ser louvado pelo «rigor», pelo «desinteresse» e pela «profundidade». As suas louvaminhices ao capitalismo vão ser tidas como mostra de  flagrantes rasgos de genialidade. O livro, por fim, vai decerto integrar a lista de leituras obrigatórias dos cursos de Ciência Política, senão mesmo transformar-se na sebenta de muitas das cadeiras que os integram.

Se, inadvertidamente, o delfim de Marcelo Caetano derrubou o seu próprio mito, os cães de guarda do regime, denodadamente, tratarão de encetar a sua nova edificação.

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