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Archive for the ‘Alain Badiou’ Category

LEITURAS MATINAIS

Posted by ines f. em 07/02/2012

Não é que não esteja habituada às maravilhas que semanalmente me reserva a leitura do Humanité. Mas, ainda assim, não pude evitar a surpresa ao deparar-me, esta manhã, com um artigo intitulado «La République communiste de Badiou». Aparentemente, Alain Badiou fez uma nova tradução da República de Platão. Não. Afinal é uma adaptação. Uma tradução-adaptação da República de Platão, revista à luz do século XXI, uma interpretação que releva, nas palavras do próprio, de uma fidelidade superior à obra, fidelidade que se caracterisa superiormente pelo desprezo absoluto pelo texto e contexto de uma obra que se pretende (citando agora o autor da recensão) inserir no contexto filosófico do nosso tempo. Desde logo, o esforço parece-me supérfluo – não vejo em que medida é que um dos textos fundadores da filosofia possa alguma vez ter estado des-inserido do nosso contexto. Mas enfim, continuemos, que a empresa é de monta. Assim, sempre na esperança da dita inserção, Badiou decidiu substituir os conceitos de Platão pelos seus próprios : a receita é garantida, sobretudo quando os seus próprios são aqueles que melhor se integram no discurso filosófico da moda. Ora, nem mais : a Alma passa a ser o Sujeito, Deus, o Grande Outro (…) , a Ideia do Bem…a Verdade. E assim, como por magia, a «a ascensção da alma para o Bem» torna-se «a integração do Sujeito numa Verdade». Como se a perspectiva histórica não estivesse já pelas ruas da amargura, os alunos de Badiou podem agora ler a República, sem terem de sair, por um minuto que seja, do aparelho conceptual a que estão habituados, confirmação suprema do seu eterno presente e das suas místicas certezas pós-fenomenológicas. Regojizo-me com o facto de que, pelo menos por agora, os desejos do jornalista não sejam exauridos e a dita obra não seja integrada nos programas do Secundário. Mas melhores momentos se seguem : a modernização conceptual revela-se insuficiente , é necessário proceder à modernização propriamente lexical : teremos então o prazer de encontrar belas expressões como «bagnole» ou «le mec Thésée» (algo que em português se poderia traduzir como «chaço» e «o puto Teseu», respectivamente). Temos Sócrates a citar Estaline, Freud e Mallarmé. Temos a alegoria da caverna computodorizada. Temos até uma mulher como personagem principal (Adimanto torna-se Amantha). Um mimo para a ideologia burguesa pós-moderna de Saint-Germain-des-Près, certamente escandalizada com a ausência de paridade do corpus platónico. No fim disto, não sei o que é mais grave : se o entusiasmo demonstrado nas páginas do Humanité por este momento de profundo desprezo pela História, se a absoluto desinteresse intelectual e cultural de uma tarefa que se propõe actualizar o que nunca deixou de ser actual (na medida em que é parte de uma cultura e momento do seu desenvolvimento), veiculando assim uma noção de actualidade ao nível da MTV, se o facto de Alain Badiou, (auto)-proclamada figura de destaque da esquerda da esquerda francesa, achar que basta mudar uns conceitos para que a filosofia de Platão se torne expressão de um qualquer pensamento marxista, neste caso, o seu.

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Posted in *, Alain Badiou, Filosofia, l'Humanité, Marxismo, Pós-modernismo, Platão | Leave a Comment »