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DO USO PRÓPRIO DA RAZÃO

Posted by J. Vasco em 20/09/2010

«A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtarir-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame».

(Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 5)

Dizia Hegel que, sem Espinosa, não havia filosofia.

Podemos também dizer que, sem Kant (1724-1804), não pode haver filosofia.

Kant é o grande filósofo da revolução francesa. No seu cantinho de Königsberg, acompanhava os acontecimentos gauleses com entusiasmo, pois identificava no sucesso da grande revolução burguesa do século XVIII o progresso da humanidade, o progresso da razão.

Vejam o excerto citado. Como é fácil, hoje, dizer que tudo se deve submeter à crítica, como é ocioso afirmar que é a razão – e não qualquer poder externo a ela (o governante, o cura, o síndico) – que deve comandar o viver humano e enformar as relações comunitárias. Se hoje é assim – na altura não o era: que é isso, senhor filósofo, de querer transformar o mundo e a vida a partir de um fundamento racional? Há, a demonstrar o contrário, todo o peso da tradição já provada pela experiência, que tão boas mostras de dar conta do recado tem dado…

Kant é hoje «ensinado» (tanto no ensino secundário, como nas universidades), expurgado da corrente viva do seu pensamento. Apresentam-no como se de uma morta e apodrecida terceira via, entre o «empirismo» e o «racionalismo», se tratasse. Embotam-lhe o gume crítico e o núcleo revolucionário.

Porém, o mais dramático, por parte desses «professores», é papaguearem frases grandíloquas sobre o uso próprio da razão, mas matarem à nascença, nos seus alunos, qualquer semente de espírito crítico que principie a assomar. Proclamam-se kantianos, mas praticam a idolatria.

Os argumentos e as opiniões valem pelo seu conteúdo, pelo bem fundado do seu teor, pela adequação que carreiam em relação à realidade objectiva – e nunca pelos pergaminhos, por mais imponentes que pareçam, de quem os manifesta e de quem as expende.  

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