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O POEMA DO TEMPO

Posted by J. Vasco em 27/07/2011

Este fotograma pertence a «Ruínas», um filme de 2009. Só mesmo Manuel Mozos o podia ter realizado. Mozos trabalha no Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), organismo da Cinemateca Portuguesa. No ANIM, lida com arquivos, com filmes desaparecidos da circulação comercial, com imagens revolutas, e fundamentalmente estuda essas imagens, trabalha-as com amor de poeta (de realizador) e com rigor de arquivista. Em 1999, realizou uma pequena maravilha apenas com sequências e cenas de filmes cortadas pela censura durante o fascismo. Intitulou-a, modestamente, «Censura: alguns cortes». Modestamente – porque o que poderia surgir, a um olhar descuidado, como uma colagem arbitrária de imagens soltas, assoma antes como um rico e complexo objecto, possuidor de valor estético, de estrutura e de ritmo internos, através do qual podemos ter acesso a alguns aspectos ideológicos do Portugal beato, fascista e salazarento.

Em «Ruínas» há como que uma continuidade, noutros moldes, desta constelação de preocupações. Mozos estudou história e filosofia, e parece habitar nele uma concepção clara de que o processo histórico é uno, integrando nele, transformadamente, momentos do passado. Quando toda a gente – principalmente no mundo das artes – se esfalfa por exibir o que anuncia aos quatro ventos como sendo «o novo» (e cujos resultados são inversamente proporcionais ao esfalfamento empenhado), eis que Manuel Mozos, sem estardalhaços, surge com este «Ruínas» e nos deixa sem palavras.  

«Ruínas» trabalha com o «arquivo» disponível no real. Nele, temos espaços em ruínas (do restaurante panorâmico de Monsanto ao sanatório das Penhas da Saúde, passando, por exemplo, pelo Pomarão, pela Cova do Vapor ou pelo Barreiro), espaços pelos quais passamos, com os quais convivemos, mas que pertencem verdadeiramente a outro tempo. Estão cá e não estão cá. Já não estão cá, mas ainda cá estão. Como pensar esta relação, como filmá-la e dá-la a ver esteticamente? O dispositivo encontrado por Manuel Mozos é deveras interessante. As imagens das ruínas desses espaços são contrapontuadas com o som do tempo em que eles eram vividos no presente. Cartas de gente que habitava esses edifícios, relatórios médicos de tuberculosos, canções de mineiros, entre outras coisas, fazem do som não uma redundância que ilustra e confirma a imagem, mas um elemento que abre o horizonte da dialéctica entre passado e presente. Na sua modéstia e aparente simplicidade, o poema «Ruínas» é grande e roça o genial.   

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