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Archive for the ‘Eugène Green’ Category

DO SUBLIME

Posted by J. Vasco em 15/05/2010

Lamento della Ninfa, de Claudio Monteverdi, cena do filme Le Pont des Arts, de Eugène Green

 

Ontem, na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, entre as 22h00 e as 00h06, aconteceu uma epifania.

Foi exibido o filme Le Pont des Arts, de 2004, inédito comercialmente em Portugal, do realizador Eugène Green, que agora tem em cartaz, nas salas nacionais, a película A Religiosa Portuguesa. (O meu muito obrigado à pessoa que me deu a conhecer este filme e este realizador, que a partir de agora entram no meu panteão cinematográfico.)

Green nasceu em 1947 nos EUA, país que renegou. Chama-lhe «La Barbarie», e costumava dizer que «na Barbarie nem sequer existia uma língua».

O tipo de cinema que interessa a Green explorar e fazer não tem, de facto, cabimento em terras do tio Sam, seja em Hollywood ou em Nova Iorque, duas realidades cinematográficas, como é sabido, sumamente distintas. (Note-se que quem escreve estas linhas é um confessado admirador do grande cinema clássico americano, de Griffith a Malick, passando por Ford, Ray, Hawks, Kazan, e pela dourada geração de 70-80: Coppola, Leone, Scorsese, Cimino. Grande cinema clássico que, por outro lado, também trucidou génios como Orson Welles, sem grande espaço para explorar caminhos novos que eram os seus).

Eugène Green é um exímio cineasta, de um rigor formal e estilístico sem mácula. O seu barroco é muito peculiar: não tem, aparentemente, dobras, curvas e contra-curvas, foguetório visual algum. Ele está lá, o barroco, mas através da austeridade e da contenção. E é nelas que reside todo o clima encantatório que atravessa, pontua e ritma Le Pont des Arts. E é nelas, e através delas, que repousa toda a grandeza do barroco do filme, grandeza, aliás, comum a todo o barroco – que não é oco, ao contrário do que alguns tontos pensam e dizem, que não é maneirismo supletivo acrescentado de fora a um tema já dado, contrariamente ao que alguns obtusos sustentam, mas que é um complexo e riquíssimo sistema de significados não redundantes, constituído por inúmeras camadas de sentido que se articulam, condicionam e inter-penetram, e que são indispensáveis para se apreender o todo.

Para Green o amor só é possível na comunhão espiritual, no além do quotidiano mundano, na ponte que liga a vida e a morte (como nos mostra o filme: a Pont des Arts, metáfora da própria arte). É uma tese que não acompanho.

Mas a mestria com que isto nos é dito e contado; a beleza literária (não realista, no caso) que enforma os diálogos das personagens; a mise-en-scéne magistral que as envolve e que com elas dialoga; a atmosfera de «onirismo realista», ou de «realismo onírico», se quisermos, proporcionada pela fotografia e pela densidade psicológica das personagens – fazem de Le Pont des Arts um grandíssimo, um genial, filme, de onde não estão ausentes a irrisão, a mordacidade, a crítica e a ironia.

Fala bem Luís Miguel Oliveira, no texto que acompanha o filme, quando diz que «os últimos vinte minutos de Le Pont des Arts, com a deriva nocturna de Pascal, o encontro “fantasmático” com Sarah, o canto da mulher curda, os planos diurnos do Sena, em dénouement e em dissolução – os últimos vinte minutos de Le Pont des Arts, dizíamos, são do que de mais encantatório se viu no cinema de anos recentes.».

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