OLHE QUE NÃO

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Archive for the ‘Mário Dionísio’ Category

SERÃO BRAÇOS DE IRMÃOS

Posted by Patrícia B. em 01/05/2011

Deixa lá, companheira!

Que havemos de fazer?

Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.

Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.

Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés

e tu farás sarar as minhas mãos.

Para lá da última casa ainda há terra

e céu e água e luz…


Ainda há vida para lá.

               

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas

e a luxúria do oiro.

Ainda há vida para lá.

O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.

A nossa voz mais rica em cada instante.

O nosso querer mais certo em cada instante.

Ainda há vida para lá.

Sigamos nossa rota, companheira.

Enxugarei teu rosto com cuidado.

Tu farás o meu canto.

E para além das barreiras do tempo

milhões de homens nos esperam com os braços abertos,

que desde a primeira hora serão braços de irmãos.

Mário Dionísio(1916-1993), O homem sozinho na beira do cais

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«AMANHÃS QUE CANTAM»??!!

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

A expressão «os amanhãs que cantam» é, de forma useira e vezeira, utilizada pelos snobs do costume para apoucar uma suposta visão messiânica da história que os revolucionários, em geral, sustentariam e que os neo-realistas, em particular, reservariam, como correlato estético, para o campo da arte. Mais uma vez, o preconceito e a mesquinhez dão as mãos, servindo de solo para as mais desbragadas catilinárias.

A visão da história dos mais altos representantes teóricos do movimento neo-realista português era tudo menos simplista, tosca ou mecanicista. Era, pelo contrário, bem dialéctica, rica e anti-messiânica. E não só estava pensada, como adquiriu mesmo, algumas vezes, a forma e o conteúdo estéticos. «Amanhãs que cantam»? Olhem que não…

 

COMPLICAÇÃO

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

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TODO UM PROGRAMA (PARA A ARTE… E PARA A VIDA)

Posted by J. Vasco em 08/03/2010

ARTE POÉTICA

 A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

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