Filho, não confies nos exploradores e nas suas velhas artimanhas:
– Não confies em quem negar a possibilidade do conhecimento, negar a capacidade que o ser humano tem de conhecer a realidade;
– Não confies em quem defender que nunca se pode saber a diferença entre o verdadeiro e falso;
– Não confies em quem disser que não se pode ter certeza de nada;
– Não confies em quem disser que não se pode saber nada do futuro e que apenas podemos aceitar (de modo submisso) “o que o futuro nos reserva”;
– Não confies em quem disser que não se pode nem se deve querer mudar o mundo, em quem disser que temos de aceitar as injustiças “porque o mundo é assim”. O mundo tem mudado porque houve gente que não seguiu essas “recomendações” reacionárias;
– Não confies em quem disser que devemos viver apenas o presente (não confies nos que repetem, de modo egoísta e pouco inteligente, “carpe diem“. Na verdade, o ser humano é capaz de mais, ele tem a capacidade de viver simultaneamente o passado, presente e futuro, ele vive a linha do tempo como um todo);
– Não confies em quem disser que a realidade é a interpretação que fazemos dela (eles querem que abdiquemos de conhecer e transformar a realidade objetiva);
– Não confies em quem falar abstratamente (em “autonomia” em geral, em “liberdade” em geral, em “poder” em geral, em “partidos” em geral, em “políticos” em geral, etc), em quem, por exemplo, disser apenas “eu sou a favor da liberdade” (sem especificar de que liberdade está a falar, liberdade de quem, quando e onde, liberdade para fazer o quê);
– Não confies nos betinhos, tias, “reis”, “rainhas”, “príncipes”, “princesas” e outros parasitas sociais;
– Não confies em quem disser “carreira” quando falar do seu percurso profissional ou académico. Desconfia de gente que fala de “ter sucesso na vida”, que usa expressões como “eu mandei fazer aquilo”, etc. O uso da linguagem revela muito da personalidade das pessoas;
– Desconfia das pessoas que mudam de tratamento quando falam com determinado tipo de pessoas. Desconfia, por exemplo, das pessoas que tratam os funcionários de empresas ou os empregados dos cafés por “tu” e as pessoas que consideram iguais ou superiores a elas por “você”;
– Não confies em quem se rir dos pobres e explorados, em quem fizer piadas acerca da pobreza e do que é ser pobre;
– Não confies em quem gostar muito de usar ouro e outras demonstrações de ostentação social;
– Não confies nos que asseguram “sentir muita pena” dos pobres mas apoiam quem os explora;
– Não confies nos que te quiserem fazer crer que só serás boa pessoa se acreditares no sobrenatural e no obscurantismo religioso;
– Não confies nos que te quiserem convencer de que para “teres sentimentos” tens de abdicar da razão, em quem quiser contrapor a emoção à inteligência, o “coração” à razão;
– Não confies em quem criticar os sindicatos, eles são um instrumento imprescindível dos trabalhadores contra a exploração;
– Não confies em quem disser que os políticos são “todos iguais”. Só a direita diz isso;
– Não confies em quem criticar os partidos progressistas, com o argumento de que os partidos também seriam supostamente “todos iguais”;
– Não confies nas pessoas que dizem ser “apolíticas”. Se a pessoa não for indiferente às injustiças e à exploração, nunca poderá dizer-se “apolítica”. Só se dizem “apolíticas” as pessoas que concordam e apoiam a exploração e os exploradores;
– Não confies em quem disser que deves ser “imparcial” em relação às injustiças. Deves ser justo e verdadeiro, não imparcial (a suposta imparcialidade é apenas parcialidade camuflada e hipócrita);
– Não confies em quem disser que já não há direita e esquerda (quem diz isso é, invariavelmente, de direita);
– Não confies em quem disser que o mundo mudou tanto que agora já não se pode falar em trabalhadores e burguesia, em classes sociais;
– Não confies em quem chama de “classe social” a todo e qualquer grupo social (eles querem semear a confusão);
– Não confies em quem disser que o mundo mudou tanto que agora já não se pode falar em trabalho e não-trabalho, em exploração, etc.
Não confies neles, filho.
Não confies nos exploradores e nas suas velhas artimanhas.











