OLHE QUE NÃO

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MUITO ANTES DE SUBIR AO CHIADO

Posted by J. Vasco em 24/03/2012

Os principais meios de comunicação social, mesmo contra a sua vontade, não puderam deixar de difundir a repugnante carga policial fascista do Chiado. Mas esforçaram-se, do mesmo passo, por circunscrever o dia de greve geral (e a brutal repressão que sobre ele recaiu) à manada de robocops que investiu Chiado acima, atingindo tudo o que mexesse. A pequena burguesia intelectualizada suspirou, lamentou os acontecimentos e a seguir indignou-se. Afinal de contas, isto é uma perturbação da «democracia». É preciso corrigir os «excessos» e regressar à «ordem natural das coisas», a ordem que sobre nós reina: os trabalhadores que vendam a sua força de trabalho e os capitalistas que se apropriem da mais-valia sob a forma de lucro.

E no entanto, lá onde a exploração pulsa na sua face mais crua, lá onde o afrontamento entre exploradores e explorados se dá corpo a corpo, lá onde a coragem e a solidariedade não são palavras ocas mas forças sociais em acção, imperou no dia 22 de Março a violência mais brutal, mais impiedosa e não menos sistemática. Longe dos holofotes e fora da consideração da opinião «bem pensante», os piquetes de greve, de Norte a Sul do país, provaram mais uma vez o inconfundível sabor do estado de excepção.

As forças policiais actuaram na luta de classes como aquilo que são: um braço armado da burguesia. Violando a lei da greve, impediram que os piquetes contactassem os trabalhadores e carregaram sobre eles sempre que um amarelo decidia furar a greve. Em cada caso, actuaram abertamente segundo os interesses das administrações das empresas. (Cada trabalhador e sindicalista que integra um piquete de greve tem uma noção mil vezes mais nítida do carácter do Estado como aparelho de repressão de uma classe sobre outras do que o mais distinto dos professores universitários que enche centos de páginas com ficções acerca do Estado enquanto «organizador do bem comum»).

No piquete de greve da Vimeca, em Queluz de Baixo, um dos polícias, quando confrontado com a violação da lei a que estava a proceder, saiu-se com uma tirada que veríamos ser politicamente racionalizada pelo deputado fascista João Almeida, do CDS, na Assembleia da República: estava ali a proteger a «liberdade de quem queria trabalhar». Ao início da madrugada, um polícia da mesma força que actuou na Vimeca dirigiu-se a duas jovens do piquete de greve, para começo de conversa, prometendo-lhes umas bastonadas lá para o meio da noite. O mesmo polícia, em tom de ódio, disse que as pessoas que compunham o piquete não estavam a fazer mais do que «figurinhas». O ódio e a provocação sucediam-se. O oficial que dirigia as forças policiais fez-se acompanhar de um pingalim que brandia de cada vez que tartamudeava as orientações dos capatazes da administração da empresa. Os mesmos capatazes da administração, de resto, que tinham o seu piquete anti-greve montado à entrada das instalações e que o utilizavam como arma de condicionamento dos trabalhadores com o apoio da polícia.

A força policial, em conluio com os patrões da Vimeca, instalou-se no local muito antes da chegada do piquete, com o objectivo de impedir a sua formação. Transportaram grades para os portões e queriam colocar as pessoas atrás delas. A resistência do piquete travou esse objectivo. O cordão policial, finalmente, passou a noite a investir sobre o piquete de greve.

É este o regime em que vivemos. Foi assim, mais uma vez, de Norte a Sul.

Milhares de homens e mulheres lutam com coragem, determinação e inteligência. Não merecem as preocupações do filisteu «bem pensante» nem a atenção dos meios de comunicação, ainda que sejam eles quem mais sofre na pele a violência burguesa. Mas estão lá. Sempre. E dão a conhecer aos trabalhadores toda a sua força, quando se juntam e organizam. Dão corpo à luta mais bela de todas: a luta pela emancipação humana, pelo fim da exploração capitalista. Porque sabem que o fascismo é uma toupeira que sobe à superfície, enfrentam-no no local mesmo em que a essência do capitalismo se determina. Enfrentam-no, com todos os custos que isso acarreta, cá em baixo, muito antes de ele subir ao Chiado.

Central da Vimeca, Queluz de Baixo, 22 de Março de 2012

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