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EDUARDO CHITAS – IN MEMORIAM

Posted by J. Vasco em 20/02/2012

Boulevard Romain Rolland, Montrouge, Paris

No próximo dia 17 de Março fará um ano que o nosso amigo e camarada Eduardo Chitas nos deixou.

Gostava de partilhar uma sua faceta menos conhecida, mas em relação à qual ele sentia gosto e orgulho. O Eduardo, como muitos outros da sua geração (recorde-se que ele nasceu em 1937), foi fortemente influenciado, na adolescência e depois na juventude, pela figura e pela obra de Romain Rolland. A leitura de um livro como Jean-Christophe, escrito entre 1904 e 1912, acompanhou-o, nos fascículos por que a obra ia sendo publicada, dos tempos do Alentejo até Coimbra, para onde se deslocou em 1957 a fim de cursar Filosofia na Faculdade de Letras.

O jovem leitor, personalidade em formação, sentia uma intensa necessidade de exprimir a admiração que nutria por Romain Rolland. Decide então escrever à viúva do autor da expressão «compagnons de route». Maria Kudasheva, velha bolchevique de origem aristocrática, figura mítica, participante directa na revolução de Outubro, dirige à época a Association Romain Rolland, espalhada por vários países da Europa embora sediada na Suíça, e responde ao Eduardo na volta do correio. Agradece-lhe as palavras e envia-lhe alguns artigos do marido.

Chega o ano de 1961. O Eduardo, recusando participar na guerra colonial, deixa Coimbra e a Faculdade de Letras e ruma até à Suíça. Estabelece-se em Genève, onde, no ano de 1963, termina a licenciatura em Filosofia e começa a dar aulas no liceu. Entretanto, terá oportunidade de calcorrear o país seguindo os percursos e as paragens de Hegel cerca de 150 anos antes. Ao que parece, o filósofo alemão não se sentiu especialmente entusiasmado com as abundantes paisagens naturais da Suíça. Talvez porque faleça à Natureza, no marco da sua doutrina, uma consciência que a si mesma se pense: ela é apenas em si, não chega nunca a ser para si. Em contrapartida, Hegel interessou-se vivamente pelas condições de vida dos camponeses, quis informar-se sobre elas, estudá-las, entabular relacionamentos.

Sobretudo, o Eduardo teve então hipótese de conhecer pessoalmente Maria Kudasheva, de privar com ela e de tornar-se o responsável na Suíça pela Association Romain Rolland. Tarefa que desempenhou com gosto até ao seu regresso a Portugal, na sequência do 25 de Abril.

O melhor de tudo, para mim, era beber aquele vinho de Cabeção, às terças-feiras à tarde, e ouvir o Eduardo contar estas histórias, dando pormenores vivos, fornecendo cores, cheiros e sons, vasculhando em papéis e depois mostrando-os. Sempre com alegria de viver. Sempre concitando o interesse e a cumplicidade do parceiro de conversa. Como se o Eduardo se espraiasse por um qualquer Boulevard Romain Rolland.

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Uma resposta to “EDUARDO CHITAS – IN MEMORIAM”

  1. Heloísa Chitas said

    boa tarde! quero felicitar a quem escreveu este pequeno texto relembrando Eduardo Chitas. Foi por acaso que aqui vim parar e de cá saio comovida. Um abraço

    Heloísa Chitas

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