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O ESTATUTO DO IDEAL

Posted by J. Vasco em 09/02/2012

Já aqui, várias vezes, dissemos: a filosofia soviética é uma mina de preciosidades à espera de um trabalho de pesquisa sério, paciente e sistemático. Por aqui vamos apenas dando conta, sem regularidade, de algumas pérolas que nos surgem pelo caminho.

É claro que a boçalidade reinante apresenta a produção filosófica soviética, mesmo sem com ela ter o mais pálido contacto, como escalracho a clamar por remoção preventiva. E a seguir oferece dela um quadro pálido, cinzento, monocolor. A diversidade é, porém, a verdadeira marca de água dos autores soviéticos. Diversidade que assume algumas vezes os contornos da oposição e da contradição – e isto se nos reportarmos somente ao campo do marxismo, que é o que aqui nos interessa.

Confrontar a obra de David Dubrovsky com a de Evald Ilyenkov é deveras estimulante. Detêm-se ambos sobre o estatuto do ideal, mas a partir de posições bem distintas. Ilyenkov vê o ideal como algo que extravasa o conteúdo subjectivo da consciência, posição que, no quadro do seu pensamento, pretende evitar uma limitação kantiana. Ilyenkov considera que a realidade humano-social é a razão realizada, objectivada, e portanto o ideal tem uma feição objectiva. Dubrovsky, não negando a estrutura social, inter-subjectiva, do ideal (bem pelo contrário), considera-o no entanto, essencialmente, uma realidade interna, subjectiva, considera-o enquanto reflexo mental de múltiplas determinações da realidade e do organismo humano.

Há quem considere tudo isto desinteressante, demasiado árido, longe dos problemas mais candentes. No entanto, talvez não seja totalmente descabido tomar em mãos uma análise mais cuidada destes problemas. Por um lado, para dar conta das raízes sociais, complexamente mediadas, que se expressavam nestas diferentes posições filosóficas. Por outro lado, porque a partir delas, como num leque que se abre, surgem temas tão fundamentais como, por exemplo, a teoria do reflexo, o estatuto do valor, ou o fundamento da transformação social e política.

 

Aceder aqui a The Problem of the Ideal

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2 Respostas to “O ESTATUTO DO IDEAL”

  1. «nestas diferentes posições filosóficas. Por outro lado, porque a partir delas, como num leque que se abre, surgem temas tão fundamentais como, por exemplo, a teoria do reflexo, o estatuto do valor, ou o fundamento da transformação social e política»
    Então a mais-valia deriva da filosofia João? E o capitalismo tb? Andas rendido ao idealismo pelos vistos 🙂

    Agora a sério.
    Repito mais uma vez. Basta uma pessoa ler o teu ensaio mto interessante, rigoroso e altamente pedagógico sobre a teoria de conhecimento do Marx. Quem apreender a dialéctica materialista como a expões ali é suficiente. Um aprofundamento pode ser feito com mais um ou dois livros do Barata-Moura sobre o assunto. A partir dessa compreensão (e que tu a tens, como é óbvio, de outra forma não terias escrito o ensaio que referi acima) há que passar para a utilização da dialéctica para se compreender (para posteriormente superar revolucionariamente) o capitalismo nas suas milhentas de facetas. Alguém que tem uma compreensão elevadíssima da dialéctica materialista como tu tens é uma pura perda de tempo andares a ver o que dezenas de autores dizem sobre o estatuto do ideal, do material, etc. Os soviéticos dedicaram-se, e bem, a esses exercícios pq já estavam no socialismo (ou a caminho) o que não é o nosso caso. A dialéctica existe para ser aplicada, não para ficar-se sempre agarrado aos detalhes que não beliscam em absolutamente nada os seus pilares.

    Entretanto, deixamos o combate ideológico e teórico real ao inimigo…

    • J. Vasco said

      A tua ironia está finíssima. A mais-valia e o capitalismo derivarem da filosofia?! Não, como é óbvio .. eu tento chamar a atenção é para o enraizamento social das várias posições filosóficas, coisa que um materialismo consequente não pode deixar de fazer.
      Mais uma vez te digo que não te posso acompanhar na fractura que estabeleces entre combate político e pesquisa teórica de questões fundamentais. Uma coisa liga-se à outra, obviamente por intermédio de inúmeras mediações.

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