OLHE QUE NÃO

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Archive for Fevereiro, 2012

LÁ, ONDE O SANGUE FECUNDOU A TERRA

Posted by J. Vasco em 21/02/2012

Há 79 anos, no dia 2 de Fevereiro, a batalha de Stalinegrado terminava com a vitória das tropas soviéticas. Foi o princípio do fim do nazi-fascismo.

CARTA A STALINGRADO

“Stalingrado…

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,

e o hálito selvagem da liberdade

dilata os seus peitos, Stalingrado,

seus peitos que estalam e caem,

enquanto outros, vingadores, se elevam.

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O MUNDO GRANDE DE RUI BAPTISTA

Posted by J. Vasco em 21/02/2012

Rui Baptista, assessor de comunicação do governo PSD/CDS, anda, com certeza, desocupado. Talvez dispensado pelo chefe, por estes dias, das funções de propagandista de turno (parece que o gozo do período de Carnaval é uma cena que, afinal, lhe assiste), dedica o tempo livre a vasculhar na rede o que dizem sobre ele. E eis que o «profissional de comunicação» à la João Duque, e com ele o governo, chegam ao Olhe Que Não.

Pela amostra, não terá apreciado muito ler as verdades que sobre ele aqui se disseram. E vai daí não teve melhor coisa para dizer do que esta: que eu vivo num «pequeno mundo». Não deixa de ser estranho que alguém que se considera acima do meu mundo, venha com insistência visitá-lo. E que, quem sabe?, o frequente com concupiscência.

O que interessa, porém, é outra coisa. O governo começa a sentir-se acossado, sabe que o protesto vai crescer. A luta contra o neoliberalismo vai ampliar-se e fortalecer-se. A burguesia e os seus representantes políticos não vão ter descanso. Por mais propaganda e «estratégias de comunicação» que arranjem. Por muito que intensifiquem o controlo, a ameaça e a repressão.

O mundo grande de Rui Baptista está bem ciente do que aí vem. A festa acabou. É isso que o deixa furioso.

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EDUARDO CHITAS – IN MEMORIAM

Posted by J. Vasco em 20/02/2012

Boulevard Romain Rolland, Montrouge, Paris

No próximo dia 17 de Março fará um ano que o nosso amigo e camarada Eduardo Chitas nos deixou.

Gostava de partilhar uma sua faceta menos conhecida, mas em relação à qual ele sentia gosto e orgulho. O Eduardo, como muitos outros da sua geração (recorde-se que ele nasceu em 1937), foi fortemente influenciado, na adolescência e depois na juventude, pela figura e pela obra de Romain Rolland. A leitura de um livro como Jean-Christophe, escrito entre 1904 e 1912, acompanhou-o, nos fascículos por que a obra ia sendo publicada, dos tempos do Alentejo até Coimbra, para onde se deslocou em 1957 a fim de cursar Filosofia na Faculdade de Letras.

O jovem leitor, personalidade em formação, sentia uma intensa necessidade de exprimir a admiração que nutria por Romain Rolland. Decide então escrever à viúva do autor da expressão «compagnons de route». Maria Kudasheva, velha bolchevique de origem aristocrática, figura mítica, participante directa na revolução de Outubro, dirige à época a Association Romain Rolland, espalhada por vários países da Europa embora sediada na Suíça, e responde ao Eduardo na volta do correio. Agradece-lhe as palavras e envia-lhe alguns artigos do marido.

Chega o ano de 1961. O Eduardo, recusando participar na guerra colonial, deixa Coimbra e a Faculdade de Letras e ruma até à Suíça. Estabelece-se em Genève, onde, no ano de 1963, termina a licenciatura em Filosofia e começa a dar aulas no liceu. Entretanto, terá oportunidade de calcorrear o país seguindo os percursos e as paragens de Hegel cerca de 150 anos antes. Ao que parece, o filósofo alemão não se sentiu especialmente entusiasmado com as abundantes paisagens naturais da Suíça. Talvez porque faleça à Natureza, no marco da sua doutrina, uma consciência que a si mesma se pense: ela é apenas em si, não chega nunca a ser para si. Em contrapartida, Hegel interessou-se vivamente pelas condições de vida dos camponeses, quis informar-se sobre elas, estudá-las, entabular relacionamentos.

Sobretudo, o Eduardo teve então hipótese de conhecer pessoalmente Maria Kudasheva, de privar com ela e de tornar-se o responsável na Suíça pela Association Romain Rolland. Tarefa que desempenhou com gosto até ao seu regresso a Portugal, na sequência do 25 de Abril.

O melhor de tudo, para mim, era beber aquele vinho de Cabeção, às terças-feiras à tarde, e ouvir o Eduardo contar estas histórias, dando pormenores vivos, fornecendo cores, cheiros e sons, vasculhando em papéis e depois mostrando-os. Sempre com alegria de viver. Sempre concitando o interesse e a cumplicidade do parceiro de conversa. Como se o Eduardo se espraiasse por um qualquer Boulevard Romain Rolland.

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ESPELHO MEU

Posted by J. Vasco em 19/02/2012

Chama-se Rui Baptista. No post anterior podem vê-lo no staff do Coelho: é o seu assessor de imprensa.

Lembram-se dele? Jornalista do Público e ultimamente da RTP. Era daqueles que lá estão todos os dias (nas rádios, nas televisões, nos jornais), disfarçados de «comentadores» («isentos», «neutros», «imparciais», como eles adoram dizer), a garantir, a jurar e a trejurar ao povo que não tem outra saída que não seja consentir ser explorado e humilhado. Não houve uma mudança substancial no seu serviço, para falar claramente. As direcções dos grandes órgãos de comunicação, os conselhos de administração dos grandes grupos financeiros e as direcções do PS, PSD e CDS são partes do mesmo todo. Pode dizer-se, isso sim, que Rui Baptista apenas mudou de posto. A tentativa de comprar as almas e as consciências dos trabalhadores continua por outros meios.

Quando perceber, em todo o caso, que a sua missão está votada ao fracasso e se olhar a seguir ao espelho, o que verá então Rui Baptista?

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O FMI NÃO MANDA AQUI

Posted by J. Vasco em 19/02/2012

Passos Coelho em Gouveia - NUNO ANDRE FERREIRA/LUSA

O betinho do Coelho, paladino da extorsão da mais-valia, apostado em infernizar a vida de milhões de trabalhadores para garantir o sagrado lucro do patronato, foi recebido com vaias em Gouveia, que volta às suas fortes tradições de luta dos anos 30 e 40 do século passado. «O FMI não manda aqui», gritaram os manifestantes, compostos por trabalhadores e sindicalistas da Citroën de Mangualde, membros das comissões de utentes contra o pagamento das portagens e massas populares atingidas pelas políticas neoliberais.

É preciso receber esta gente desta forma, onde quer que vá. Não lhes dar um minuto de descanso, sequer. É preciso fortalecer os protestos e ampliá-los. A luta vai continuar e vai crescer.

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UM SÁBIO JURISTA DA CONTRA-REVOLUÇÃO

Posted by J. Vasco em 19/02/2012

«Freitas do Amaral faz uma confissão esclarecedora: que, na hora H [do golpe spinolista de 28 de Setembro de 1974], foi ele quem redigiu o projecto de declaração de estado de sítio no distrito de Lisboa, tal como, na preparação do golpe Palma Carlos, fora ele com Veiga Simão quem elaborara o projecto de «Programa do Governo Provisório», que deveria ser imposto por Spínola ao novo Governo Provisório a formar após a vitória do golpe.

«Uma vez mais, no 28 de Setembro, Spínola teve em Freitas do Amaral qualificado e dedicado colaborador.

«Vejam-se estes sábios juristas da contra-revolução. A sabedoria com que invocam «o direito» e a «lei» para justificar a ilegalidade e o abuso do poder.

«Confissão feita. Registe-se.».

Álvaro Cunhal, A verdade e a mentira na revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), p. 163.

É preciso ter memória. De delfim de Marcelo Caetano a sábio jurista da contra-revolução, Freitas do Amaral outra coisa não fez da sua vida que dar expressão político-institucional aos interesses do grande capital português. Conspirou com Sá-Carneiro, Soares e Spínola, disputou a organização do partido fascista com o PPD nos dias seguintes à revolução, sonhou com a ilegalização do PCP e da CGTP até 1986, quando concorreu às eleições presidenciais com uma base de apoio saudosa do 24 de Abril. Hoje, institucionalizada a contra-revolução, passeia-se pelos seus três partidos e procura uma coordenação ideológica para eles. Que é o mesmo que dizer: serve os mesmos interesses em condições históricas novas.

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MITOS

Posted by J. Vasco em 19/02/2012

Os ideólogos do regime, em Portugal, precisam de quase nada para serem considerados «grandes pensadores», «analistas profundos», «académicos de alto rigor intelectual e honestidade profissional a toda a prova».

Freitas do Amaral, com insistência doentia, é tratado pela imprensa dominada por «senador».  Os aristocráticos sonhos molhados desta gente são acompanhados de titânicos esforços para construir uma imagem santa, beata e intocável de um dos mais destacados e tenazes representantes políticos da burguesia portuguesa. Interessa pouco o que Freitas do Amaral diz. Se ele diz, cancele-se o espírito crítico: ainda que em presença da maior banalidade do mundo, estamos, na verdade, é perante algo de inequivocamente «profundo», «sério» e «rigoroso». Mais do que discutir o teor das suas concepções e afirmações; mais do que confrontá-las com as contradições sociais em que se inscrevem; mais do que, no fundo, fazer uso da capacidade crítica – interessa sim, a propósito de tudo e de nada, dizer que ele tem dezenas de livros publicados, afirmar com convicção que o homem já leu tudo, e jurar a pés juntos que «o senador» estuda que se farta. Freitas do Amaral boceja – e aí está uma demonstração de rigor; pestaneja – e eis que a sua profundidade de análise se exibe; abana a cabeça – e vejam bem como se expressam nesse movimento as aturadas horas de leitura do professor emérito.

O fundador do CDS, no entanto, é perverso. Com pezinhos de lã, e singelamente, fez mais pela destruição eloquente do seu próprio mito do que mil tentativas (sempre abafadas) de demonstração de que o rei vai nu.

O seu recente «História do Pensamento Político Ocidental» é tomo de peso: 774 páginas, 1 kg e 100 g. Abrimos a página 461, na qual se vai falar de Lénine, e deparamo-nos com a informação de que uma das suas obras principais é «O Estado e a Revolução (ou As teses de Abril)» (sic!). Siderados? Claro! Mas deixamos passar o espanto, enchemo-nos de boa vontade, e pensamos: talvez tenha havido gralha… Continuamos. Passamos para a página 462, e o mesmo erro é reiterado por duas vezes ao correr da pena.

Resumindo. Para Freitas do Amaral, os textos de Lénine «Teses de Abril» (e não: As Teses de Abril, como escreve) e «O Estado e a Revolução» são uma e a mesma coisa. Ora, como qualquer pessoa com um mínimo de leituras sabe, as famosas «Teses de Abril» estão contidas num artigo de Lénine intitulado «Sobre as Tarefas do Proletariado na Presente Revolução». Foram escritas no comboio em que Lénine regressou a Petrogrado, lidas em duas reuniões de bolcheviques realizadas em Abril de 1917 e também nesse mês publicadas no Pravda. «O Estado e a Revolução», por sua vez,  é uma obra teórica de fundo, com outro fôlego e outra respiração, escrita em Agosto-Setembro de 1917 na clandestinidade e publicada em Novembro de 1917.

Note-se que nem sequer entrámos aqui numa avaliação do conteúdo e da estrutura da obra do «senador». Destacámos tão-somente aquilo que caracteriza, em termos minímos, a probidade e a honestidade de um autor: conhecer bem os textos daqueles que pretende criticar. Esse mínimo, manifestamente, não se verifica em Freitas do Amaral. O ataque às posições políticas dos seus adversários de classe é feito sem qualquer rigor científico e sem nenhuma preocupação de honestidade. O sistema não exige dele mais do que isso. Não é um grande mérito, apesar de tudo, para quem se intitula «pensador».

O rei continua, portanto, a andar em pêlo. Não nos alvorocemos, porém. Tudo está bem como está. O «senador» vai ser louvado pelo «rigor», pelo «desinteresse» e pela «profundidade». As suas louvaminhices ao capitalismo vão ser tidas como mostra de  flagrantes rasgos de genialidade. O livro, por fim, vai decerto integrar a lista de leituras obrigatórias dos cursos de Ciência Política, senão mesmo transformar-se na sebenta de muitas das cadeiras que os integram.

Se, inadvertidamente, o delfim de Marcelo Caetano derrubou o seu próprio mito, os cães de guarda do regime, denodadamente, tratarão de encetar a sua nova edificação.

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O EXEMPLO VALADARES

Posted by * em 13/02/2012

Lutar vale a pena!

Os trabalhadores da Cerâmica Valadares não tiveram medo de lutar e com isso conquistaram vitórias em toda a linha.

A nossa humilde homenagem a esses trabalhadores que mostraram que a luta é o que de mais digno os explorados podem fazer.

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BEM VINDOS AO PASSADO

Posted by * em 12/02/2012

Não são só trabalhadores portugueses a sair de Portugal. Há muitos milhares de turistas estrangeiros que já decidiram, depois de saberem das portagens, dos pagamentos nos museus ao domingo, do preço da gasolina no país, etc: é a última vez que vêm a Portugal!

É o resultado da mesquinhez e da ganância: perde o turismo muitos milhões.

Este governo arrisca-se, na sua ânsia de fazer recuar Portugal muitas décadas, a fazer, em alguns aspectos, o país recuar vários séculos. Enquanto isso, a igreja agradece: ela gosta mesmo é do feudalismo.

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TERREIRO DO PAÇO, TERREIRO DO POVO (II)

Posted by J. Vasco em 10/02/2012

É JÁ AMANHÃ: MANIFESTAÇÃO NACIONAL, 15H, NO TERREIRO DO POVO

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O SOBRINHO DA TIA

Posted by * em 09/02/2012

Assim que o american boy ofendeu os trabalhadores portugueses chamando-os de “piegas”, apareceu logo uma estranha e ridícula forma de protesto: alguns ofendidos não acharam melhor forma de protestar do que… chamarem-se a si próprios de…”piegas“! Dizem que é ironia, que é “protesto” e coisa e tal. Mas uma coisa é certa: não é um “protesto” que prime pela inteligência. Pelo contrário, apenas repete e implicitamente corrobora o que o american boy disse. O tal menino-velho-de-cabeça, o tal que gostava de professores maus, pode até dizer, com sarcasmo: – olha, eles confirmam o que lhes chamei.

Já se torna uma moda assustadora essa a de, os que protestam, chamarem-se a si próprios ora de piegas, ora de palermas, ora de parvos, de perguntar coisas idiotas como “- estás a ver escrito estúpido na minha testa?”, “- achas que sou parvo?” e coisas desse tipo. Talvez já esteja na hora de, em vez de insinuar que quem ofende os trabalhadores tem razão, olharmos bem nos olhos de todos os american boys e dizermos: – PIEGAS É A TUA TIA, PARASITA!

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O ESTATUTO DO IDEAL

Posted by J. Vasco em 09/02/2012

Já aqui, várias vezes, dissemos: a filosofia soviética é uma mina de preciosidades à espera de um trabalho de pesquisa sério, paciente e sistemático. Por aqui vamos apenas dando conta, sem regularidade, de algumas pérolas que nos surgem pelo caminho.

É claro que a boçalidade reinante apresenta a produção filosófica soviética, mesmo sem com ela ter o mais pálido contacto, como escalracho a clamar por remoção preventiva. E a seguir oferece dela um quadro pálido, cinzento, monocolor. A diversidade é, porém, a verdadeira marca de água dos autores soviéticos. Diversidade que assume algumas vezes os contornos da oposição e da contradição – e isto se nos reportarmos somente ao campo do marxismo, que é o que aqui nos interessa.

Confrontar a obra de David Dubrovsky com a de Evald Ilyenkov é deveras estimulante. Detêm-se ambos sobre o estatuto do ideal, mas a partir de posições bem distintas. Ilyenkov vê o ideal como algo que extravasa o conteúdo subjectivo da consciência, posição que, no quadro do seu pensamento, pretende evitar uma limitação kantiana. Ilyenkov considera que a realidade humano-social é a razão realizada, objectivada, e portanto o ideal tem uma feição objectiva. Dubrovsky, não negando a estrutura social, inter-subjectiva, do ideal (bem pelo contrário), considera-o no entanto, essencialmente, uma realidade interna, subjectiva, considera-o enquanto reflexo mental de múltiplas determinações da realidade e do organismo humano.

Há quem considere tudo isto desinteressante, demasiado árido, longe dos problemas mais candentes. No entanto, talvez não seja totalmente descabido tomar em mãos uma análise mais cuidada destes problemas. Por um lado, para dar conta das raízes sociais, complexamente mediadas, que se expressavam nestas diferentes posições filosóficas. Por outro lado, porque a partir delas, como num leque que se abre, surgem temas tão fundamentais como, por exemplo, a teoria do reflexo, o estatuto do valor, ou o fundamento da transformação social e política.

 

Aceder aqui a The Problem of the Ideal

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TERREIRO DO PAÇO, TERREIRO DO POVO

Posted by J. Vasco em 08/02/2012

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LEITURAS MATINAIS

Posted by ines f. em 07/02/2012

Não é que não esteja habituada às maravilhas que semanalmente me reserva a leitura do Humanité. Mas, ainda assim, não pude evitar a surpresa ao deparar-me, esta manhã, com um artigo intitulado «La République communiste de Badiou». Aparentemente, Alain Badiou fez uma nova tradução da República de Platão. Não. Afinal é uma adaptação. Uma tradução-adaptação da República de Platão, revista à luz do século XXI, uma interpretação que releva, nas palavras do próprio, de uma fidelidade superior à obra, fidelidade que se caracterisa superiormente pelo desprezo absoluto pelo texto e contexto de uma obra que se pretende (citando agora o autor da recensão) inserir no contexto filosófico do nosso tempo. Desde logo, o esforço parece-me supérfluo – não vejo em que medida é que um dos textos fundadores da filosofia possa alguma vez ter estado des-inserido do nosso contexto. Mas enfim, continuemos, que a empresa é de monta. Assim, sempre na esperança da dita inserção, Badiou decidiu substituir os conceitos de Platão pelos seus próprios : a receita é garantida, sobretudo quando os seus próprios são aqueles que melhor se integram no discurso filosófico da moda. Ora, nem mais : a Alma passa a ser o Sujeito, Deus, o Grande Outro (…) , a Ideia do Bem…a Verdade. E assim, como por magia, a «a ascensção da alma para o Bem» torna-se «a integração do Sujeito numa Verdade». Como se a perspectiva histórica não estivesse já pelas ruas da amargura, os alunos de Badiou podem agora ler a República, sem terem de sair, por um minuto que seja, do aparelho conceptual a que estão habituados, confirmação suprema do seu eterno presente e das suas místicas certezas pós-fenomenológicas. Regojizo-me com o facto de que, pelo menos por agora, os desejos do jornalista não sejam exauridos e a dita obra não seja integrada nos programas do Secundário. Mas melhores momentos se seguem : a modernização conceptual revela-se insuficiente , é necessário proceder à modernização propriamente lexical : teremos então o prazer de encontrar belas expressões como «bagnole» ou «le mec Thésée» (algo que em português se poderia traduzir como «chaço» e «o puto Teseu», respectivamente). Temos Sócrates a citar Estaline, Freud e Mallarmé. Temos a alegoria da caverna computodorizada. Temos até uma mulher como personagem principal (Adimanto torna-se Amantha). Um mimo para a ideologia burguesa pós-moderna de Saint-Germain-des-Près, certamente escandalizada com a ausência de paridade do corpus platónico. No fim disto, não sei o que é mais grave : se o entusiasmo demonstrado nas páginas do Humanité por este momento de profundo desprezo pela História, se a absoluto desinteresse intelectual e cultural de uma tarefa que se propõe actualizar o que nunca deixou de ser actual (na medida em que é parte de uma cultura e momento do seu desenvolvimento), veiculando assim uma noção de actualidade ao nível da MTV, se o facto de Alain Badiou, (auto)-proclamada figura de destaque da esquerda da esquerda francesa, achar que basta mudar uns conceitos para que a filosofia de Platão se torne expressão de um qualquer pensamento marxista, neste caso, o seu.

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MARX EM MAIO

Posted by * em 06/02/2012

CONGRESSO INTERNACIONAL MARX EM MAIO

3, 4 e 5  de Maio de 2012

FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA

(ANFITEATRO 1)

ENTRADA LIVRE

 

Nos próximos dias 3, 4 e 5 de Maio de 2012, realizar-se-á, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o Congresso Internacional Marx em Maio, perspectivas para o séc.XXI, organizado pelo Grupo de Estudos Marxistas (GEM). Congresso multidisciplinar, incluindo participantes das áreas da Filosofia, da História e da Economia, mas também das Ciências naturais, das Artes plásticas, da Política e do mundo sindical, o seu fio condutor será a actualidade e fertilidade do pensamento marxista enquanto instrumento fundamental de análise crítica. Num contexto de crise generalizada, pautada pela desconsideração do papel da racionalidade, da teoria e da cultura como elementos fundamentais de transformação, individual e colectiva, o Congresso Marx em Maio procurará contribuir para o aprofundamento de problemáticas centrais dos nossos dias e para o estímulo de um pensamento  científico guiado por uma racionalidade crítica e dialéctica.

A lista dos participantes, assim como o título das comunicações estão disponíveis em: http://marxemmaio.wordpress.com

Para mais informações, contactar : grupodeestudosmarxistas@gmail.com

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