OLHE QUE NÃO

olhequenao.wordpress.com

NÃO DEIXEMOS QUE AS “MAIS-VALIAS” ESCONDAM A MAIS-VALIA

Posted by * em 23/01/2012

A burguesia pode ter ilusões. Mas quando quem pretende superar a ordem burguesa também vive das e nas ilusões burguesas, a coisa torna-se mais preocupante.

Na compreensão da natureza da actual crise, muita gente de esquerda continua presa ao paradigma metafísico de absolutização da esfera de circulação do capital em detrimento da esfera da produção.  Esta posição unilateral manifesta-se no entendimento da crise como algo que ficaria a dever-se exclusivamente à crescente independência do capital financeiro em relação ao capital produtivo. É verdade que este processo de separação ocorre. Aliás, esta é uma característica do imperialismo já referida por Lenin: “É próprio do capitalismo em geral separar a propriedade do capital da sua aplicação à produção, separar o capital-dinheiro do industrial ou produtivo, separar o rentier, que vive apenas dos rendimentos provenientes do capital-dinheiro, do empresário e de todas as pessoas que participam diretamente na gestão do capital. O imperialismo, ou domínio do capital financeiro, é o capitalismo no seu grau superior, em que essa separação adquire proporções imensas. O predomínio do capital financeiro sobre todas as demais formas do capital implica o predomínio do rentier e da oligarquia financeira, a situação destacada de uns quantos Estados de “poder” financeiro em relação a todos os restantes.” (V. I. Lenin, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, cap III, O Capital Financeiro e a Oligarquia Financeira).

Porém, Lenin nunca entendeu metafisicamente (ou seja, não-dialecticamente) esta separação como se ela fosse uma separação absoluta entre a esfera da circulação e a esfera produtiva. O capital financeiro é capital e não apenas especulação e jogos no vazio da não-produção. E como capital, o sangue que lhe corre nas veias deve ser sugado, em última instância, à força de trabalho e é em busca desse sangue que o capital se move, mesmo sendo ele capital financeiro, mesmo que se mova em busca desse sangue através de uma infinidade de mediações; o lucro pode surgir na bolsa ou em juros bancários, ou em investimentos, etc., mas a sua verdadeira origem é a mais-valia produzida pela força de trabalho. Não ver isto é permitir que as assim chamadas “mais-valias” mistifiquem, encubram e justifiquem a mais-valia. Há que reparar, no entanto, que enquanto muitos olham para os lucros como se estes surgissem exclusivamente do jogo especulativo, os próprios capitalistas, através das alterações às leis laborais, através da “flexibilização” do mercado laboral (por onde andam agora as melífluas mentiras burguesas acerca da flexisegurança?), através das deslocalizações, através dos ataques às conquistas dos trabalhadores, através da “privataria”, através das guerras económicas e de muitas outras maneiras vão revelando (em parte sem eles próprios perceberem) o que está verdadeiramente em causa e manifestando que a apropriação de mais-valia e a crise estão intrinsecamente ligadas: a crise pode aparecer como descontrolo de ganhos bolsistas, pode estourar em bolhas do mais diverso tipo, pode aparecer por via de obscuras transacções e guerras financeiras, mas não é esse caldo que a prepara, não é dessa esfera que ela vem. Ela vem da exploração do trabalhador e da forma necessariamente descontrolada em que esta obrigatoriamente ocorre, vem do modo como se processa a apropriação da mais-valia num regime caracterizado pela cada vez mais intensa contradição entre produção social e apropriação privada.

Ganhos bolsistas sem produção e sem apropriação da mais-valia não seriam nada, seriam gravatas de náufrago numa ilha deserta. A riqueza produzida pelos trabalhadores é o que está em causa, mesmo quando a especulação e as tramóias financeiras fazem crer que numa independência total do mundo financeiro em relação à produção. Muitas pessoas de esquerda ao limitarem a crítica ao capitalismo à simples crítica a uma das suas manifestações, seja ela o neo-liberalismo ou o funcionamento da banca e dos “mercados”, comungam de muitas ilusões burguesas. Podem até pensar que criticam o capitalismo mas a verdade é que nem sequer saíram do paradigma mental mistificador inerente ao capitalismo. O problema é que para criticar realmente o capitalismo há que compreender o que ele é e nem tudo o que se apresenta como conhecido é compreendido, como já dizia o velho Hegel. Muitos pensam que o problema está numa desregulação, no egoísmo e na ganância. E realmente há desregulação, egoísmo e ganância, o que parece confirmar de modo absoluto esta visão. Apesar disso, o verdadeiro problema está em razões objectivas muito mais substanciais, razões que têm a ver com o modo concreto pelo qual o capital se reproduz (razões que por sua vez acirram, naturalmente, entre outras coisas, a desregulação, o egoísmo e a ganância).

Anúncios

Uma resposta to “NÃO DEIXEMOS QUE AS “MAIS-VALIAS” ESCONDAM A MAIS-VALIA”

  1. castendo said

    Boa malha!!!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: