OLHE QUE NÃO

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OS NOSSOS CAMARADAS DE LUTA NÃO MERECEM TAL AFRONTA

Posted by J. Vasco em 22/12/2011

 

 «Ex.mo Senhor

Reitor da Universidade do Mindelo

 

Antes do motivo que me obriga a dirigir-me a V. Ex.ª, permita-me uma breve apresentação: licenciei-me pela Universidade do Porto e como muitos universitários de minha geração, dedicámos muito da nossa juventude à luta clandestina contra a ditadura fascista instaurada durante quase cinco décadas e pela libertação do povo português e dos povos das colónias, que nesses anos 60 já tinham pegado em armas.

Militante pelo ideário da independência das chamadas províncias ultramarinas, e vítima também da guerra colonial, como muitos portugueses (o meu marido, oficial do quadro permanente, a cumprir a 3ª comissão em África), fui professora no liceu do Mindelo no ano lectivo de 1972-73.

Recordarei sempre o que para mim foi de gratificante esse ano lectivo, o que dei e recebi desses jovens do Mindelo, uma experiência que ao longo dos anos tive provas não ter sido esquecida.

Recordarei sempre aquele dia de Janeiro de 1973 em que todos, professora e alunos, nos recolhemos em homenagem a Amílcar Cabral assassinado, dia em que, em respeito pela consternação geral e, arriscando como o fizera sempre a repressão da polícia política, decidi não dar aula.

Também não esquecerei os colegas como Baltasar Lopes, que comungavam comigo os mesmos ideais.

No ano seguinte,1974, chegou para todos a liberdade.

O meu marido, militar do Movimento das Forças Armadas (para quem Luís Morais compôs uma morna), foi no Mindelo que participou activamente nessa nossa e vossa libertação.

Sempre até à sua morte falou com emoção da grande manifestação popular que percorreu a cidade aquando do regresso ao Mindelo dos presos políticos libertados do Tarrafal.

Talvez V. Ex.ª se lembre desse dia, ou alguém, talvez um professor lhe tenha referido que no quartel colonial um grupo de jovens oficiais homenageou, em continência, a passagem desses heróis vossos conterrâneos. O meu marido era um deles e foi em nome dessas memórias que depois da revolução de Abril pertenceu aos corpos directivos da Associação de Amizade Portugal – Cabo Verde.

É também em nome dessas memórias e em respeito pelos combatentes Cabo Verdianos, então libertos de um campo de concentração, que hoje, 37 anos passados, me dirijo a V. Ex.ª

Acabo de ler na imprensa de Lisboa (jornal “Público” de 12/12/2011) que o ex-ministro do governo fascista do ditador Salazar, que em 1961 como ministro do ultramar mandou reabrir o campo de concentração do Tarrafal para internar os patriotas nacionalistas africanos, irá ser homenageado na casa de V. Ex.ª – a Universidade – que é também a casa de todos os Cabo Verdianos.

É a V. Ex.ª, como Reitor, que dirijo o meu veemente protesto pela decisão da Universidade do Mindelo de conceder o grau de Doutor Honoris Causa ao ex-ministro Adriano Moreira cujo nome ficará para sempre ligado ao tristemente célebre  “campo da morte”.

O perdão é possível mas o esquecimento não pode apagar o passado e não se compadece com actos de branqueamento da história dos povos.

Os nossos camaradas de luta não merecem tal afronta».

 

 Lisboa, 15 de Dezembro de 2011

 

Maria Amélia Nápoles Guerra

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