OLHE QUE NÃO

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IAKOV FOMITCH ASKIN

Posted by J. Vasco em 30/10/2011

O que mais impressiona nos chamados meios «cultos» é a sobranceira ignorância com que falam da história soviética, em geral. Em relação à cultura e à produção científica, em particular, o caso torna-se ainda mais gritante. Não certamente devido à barreira linguística e à falta de traduções portuguesas de obras soviéticas de peso (apesar de tudo, um problema real), mas sobretudo pelo preconceito rasteiro que povoa a mentalidade desse meio. Proclamam a validade do espírito crítico e praticam o mais destemperado obscurantismo.

Já aqui se falou de Ilyenkov. E de Vazyulin. Hoje far-se-á referência a Iakov Fomitch Askin (1926-1997), filósofo soviético com uma vasta e profundíssima obra. Grande parte do seu trabalho foi dedicada ao problema do tempo, estruturado sempre em diálogo com o avanço das ciências particulares da natureza. De assinalável interesse e relevância reveste-se a interpretação materialista da teoria da relatividade de Einstein que é avançada neste precioso livro. O tempo não é um receptáculo absoluto subsistente para lá da matéria.  Ele é uma forma da matéria, forma que expressa o seu devir a um tempo uno e múltiplo.

«A essência do tempo não se encontra determinada por nenhuma forma concreta de movimento, mas antes pelo que é inerente ao movimento da matéria no seu conjunto: o processo de transformação, de devir» (p. 149).

Esta edição uruguaia de 1968, com tradução directa do russo de Augusto Vidal Roget, é excelente. Ignorar, hoje, os contributos da filosofia soviética não a belisca minimamente. Só desprestigia os ignorantes.

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5 Respostas to “IAKOV FOMITCH ASKIN”

  1. qmiguel said

    Ó João temos de ver essa edição uruguaia mais ao pormenor então, abraço.

  2. Concordo com o teu post, como é óbvio, especialmente sobre a questão da indiferença e do desprezo ignorante por autores soviéticos e comunistas. Contudo, acho que enfatizas demasiado a importância da filosofia. Não que ela não seja necessária, bem pelo contrário. Mas a nossa malta anda sempre à volta do mesmo: teoria do conhecimento, ascensão do abstracto ao concreto (e vice-versa), ontologia, etc etc. Nada contra, mas se não se incorpora isso ou se se não escrevem coisas sobre a situação do capitalismo das últimas décadas esteriliza-se a própria dialéctica marxista. Mesmo sobre a importantíssima experiência soviética se lê mais depressa livros de filosofia do que estudos económicos soviéticos acerca, por exemplo, da construção económica do socialismo… Apesar de muita propaganda e vulgata, ainda chegaram cá muitos livros interessantes sobre a economia e sobre o processo de transição para o socialismo. Mesmo de autores não-soviéticos existem análises feitas a partir de dados soviéticos e que não queremos saber disso para nada (Dobb, Bettelheim, etc. etc. etc.). Qualquer dia os pobres Lénine e Stáline serão mais filósofos do que construtores do socialismo…

    Repito, não estou, de modo nenhum, a desconsiderar o estudo filosófico, mas a perspectiva marxista deve ser a de se integrar a dialéctica materialista no corpo de trabalhos sobre as tendências fundamentais do capitalismo, como um pressuposto, necessariamente apre(e)ndido numa fase anterior e aprendido de um modo rigoroso. Voltando aos exemplos históricos, a partir de 1845 a dialéctica surge como elemento pressuposto na obra do Marx e não sempre como algo explícito. Evidentemente, nada disso obstou a que ele tivesse escrito páginas importantíssimas sobre o assunto (prefácio ao Capital, Introdução dos Grundrisse, etc.), algo demonstrativo que continuou sempre a afinar o materialismo dialéctico, mas a proporção de trabalho directamente filosófico no conjunto da sua obra passou a ser muito reduzida. Impressiona o facto de haver uma maior preocupação, em mtos marxistas actuais, para, por exemplo, discutir a lógica interna de O Capital quando bastaria ler as notas do Lénine, o próprio Ilyenkov e um livro mto bom do Bertell Ollman sobre o assunto (“The dance of dialectics”). Estes escritos arrumaram a questão definitivamente, pelo menos nas questões fundamentais. Andar em busca de pormenores ou meramente repetir o que já está mais do que estabelecido só interessa se for com propósitos pedagógicos. Do ponto de vista científico, a dialéctica materialista é uma conquista humana e científica insuperável e sempre à espera de ser incorporada na economia, na sociologia, na historiografia. Até porque os capitalistas e seus ideólogos mais qualificados (para gerir e reproduzir o sistema claro está) preocupam-se imensamente com os Manuscritos Económico-Filosóficos do Marx ou com os manuais de dialéctica materialista. Isso dos capítulos do Livro III d’O Capital sobre o capital financeiro ou sobre a lei tendencial da queda da taxa de lucro (onde só por acaso têm surgido coisas sobre o assunto no Financial Times e na Harvard Business Review, mas só por acaso) não lhes interessa para nada… Ah e os gajos em Fort Bragg estudam a fundo “A Dialéctica da Natureza” do Engels. Os escritos militares dele, do Giap, do Che, etc. são considerados exóticos…

    Em suma, a dialéctica materialista é um método e uma ontologia mas que deve estar presente implicitamente na nossa análise (e consequente transformação) do capitalismo. Não tanto para andar sempre à volta do mesmo… Se o Marx tivesse essa postura ainda hoje estaria para escrever O Capital e não teria passado de um filósofo… Coisa que ele deixou de ser aina mais jovem do que qualquer um de nós para passar a ser um cientista social na verdadeira acepção da palavra: simultaneamente filósofo, historiador, economista, cientista político e sociólogo.

    Já me alonguei demasiado. Agora vou pegar na tese de doutoramento do Marx sobre o Epicuro e o Demócrito e estudá-la a fundo. Dizem que a chave da superação do capitalismo anda por lá… O Capital e o Manifesto foram devaneios da idade adulta como é notório…

    • J. Vasco said

      João,

      não vejo incompatibilidades onde tu as vês. Penso que os problemas estão associados e interligados. A maneira de pores a maturação do pensamento de Marx é mais tributária do Althusser e das correntes que criticas do que possas pensar…
      Não considero, para além disso, que haja questões definitivamente arrumadas na lógica do Capital, como tu pareces dizer. Por exemplo, a obra importantíssima do Ilyenkov não esgota de maneira nenhuma o assunto. O Ilyenkov dá exemplos de aplicação da dialéctica no Capital, mas não segue a própria lógica do Capital. (Dentro em breve, terás uma edição portuguesa do livro, onde verás melhor o que te digo…). O Lénine, obviamente um construtor do socialismo (mas também um filósofo, sim, olha aqui: https://olhequenao.wordpress.com/2010/10/13/lenine-e-a-filosofia/ ), dizia que não se compreendia o primeiro capítulo do Capital sem se estudar a fundo e compreender adequadamente a Ciência da Lógica, do Hegel. Dizia que, nesse sentido, não tinha havido até à altura um único verdadeiro marxista. Já viste: um construtor do socialismo a perder tempo com a filosofia, com «questões definitivamente arrumadas no seu aspecto fundamental»? Um construtor do socialismo que lia e estudava filosofia no auge das lutas mais encarniçadas? Que deixou um importantíssimo livro de filosofia, «Materialismo e Empiriocriticismo»? Um louco este Lénine… E olha que não me parece mesmo nada que ele visse a filosofia como uma mera aquisição propedêutica de uns quantos instrumentos «definitivamente arrumados» a aplicar depois a qualquer objecto que nos apareça à frente. Via-a mais como uma actividade teórica constante de apropriação do real.

      Um abraço.

      PS – boa leitura a fundo da tese de doutoramento do Marx.

      • O Lénine fez precisamente o que eu disse que devia ser feito: aplicar, sublinho aplicar, a dialéctica materialista aos novos fenómenos científicos que surgiram, e não andar sempre à volta do mesmo… E com objectivos pedagógicos para dentro do Partido Bolchevique onde mtos intelectuais não percebiam patavina de dialéctica materialista…

        abraço

    • J. Vasco said

      É verdade, de resto, que certa «marxologia ocidental» padece dos problemas que apontas. Mas, como dizia o outro, é bom não confundir o Manuel Germano com o género humano.

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