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DO PODER DA RAZÃO À RAZÃO DO PODER

Posted by J. Vasco em 09/07/2011

Para além da trama que apresentam, os policiais (seja sob a forma de romance ou de série televisiva) retratam sempre, através dos seus códigos de género, a sociedade da qual são produto. Ao mesmo tempo que reflectem tendências, valores, tipos, camadas e funções sociais (tudo isto envolvido numa dinâmica global de fundo), não deixam de propor e de avançar com ideais sociais reguladores a realizar no futuro. Nessa articulação lábil, os bons policiais são, a um tempo, um diagnóstico da sociedade e uma proposta para o seu funcionamento ulterior. Ernest Mandel, por exemplo, tem um interessantíssimo estudo sobre o assunto no seu livro Cadáveres Esquisitos, uma circunstanciada análise sociológica do romance policial, leitura a que se dedicava com gosto e afinco. (Leiam, vale muito a pena).

Na dinâmica histórica do policial, Mandel demonstra que um conjunto de romances policiais americanos dos anos 60 do século passado são um libelo acusatório contra o sistema vigente. Se estabelecermos uma rápida comparação com séries como o CSI e afins verificamos que a mudança é de 180º: tais séries servem apenas para justificar o estado de coisas existente, para fazerem a sua apologia e para atribuirem à maldade ou à loucura (individuais, incontroláveis e inexplicáveis) o móbil da criminalidade social.

Mas há outro aspecto interessante. Quem, como eu, acompanhou há mais de vinte anos as séries televisivas (excelentes, de resto) Crime, disse ela e Perry Mason, tem bem presente o traço marcante que as estruturava: o poder da razão. Jessica Fletcher e Perry Mason actuavam por meio da inteligência, do raciocínio (umas vezes dedutivo, outras indutivo), da razão activa. A investigação – ziguezagueante, dialéctica – caminhava para um quadro de totalidade por força da racionalidade humana. Nós, espectadores, éramos partícipes da sua construção; ela não estava dada à partida. A afirmação desta racionalidade activa e dialéctica era de tal ordem que tanto Fletcher como Mason nem sequer eram jovens, muito menos portadores de físicos irrepreensivelmente musculados e sem adiposidades.

Jessica Fletcher, escritora, investigava fora do âmbito policial, retratado impiedosamente como incapaz, boçal e ineficaz. Por vezes, era mesmo tida pela polícia como suspeita. Perry Mason, advogado, resolvia todos os casos na barra do tribunal, onde imperava o poder da argumentação, a validade lógica e a destreza de raciocínio. As imagens eram fornecidas pelas palavras. A verdade não vinha já cozinhada pela polícia: era o advogado que a ia desvelando. Crime, disse ela e Perry Mason eram panegíricos da racionalidade. No plano social, distanciavam-se, à sua maneira, dos poderes instituídos e propunham, no mínimo, um olhar céptico sobre as polícias.

Que diferença em relação ao CSI e afins! Nestes impera o músculo, a juventude pela juventude, o estilo vazio e a irrazão. A polícia é todo-poderosa, o ministério público e os tribunais são um empecilho e um atraso de vida, o laboratório apetrechado da melhor tecnologia resolve tudo (o real fica reduzido aos fragmento isolados que são dados no laboratório). Estas séries são um mero elogio da polícia e do FBI enquanto estruturas necessárias ao bom funcionamento da sociedade burguesa. São a sua justificação. E são o reflexo do irracionalismo promovido pelo neoliberalismo.

Despir o homem de racionalidade crítica, torná-lo um mero consumidor – eis o programa teórico e ideológico do neoliberalismo pós-amodernado. Nos policiais, esse programa manifesta-se na passagem do poder da razão à justificação da razão do poder.

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