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“É TÃO BONITO O DISCURSO DO PATRÃO”… OU… “10 MANEIRAS SIMPLES DE MOSTRAR SUBSERVIÊNCIA”… OU… “CÁBULA DO LAMBE-BOTAS”

Posted by * em 08/07/2011

Aqui vão dez pérolas do discurso do patrão para os candidatos a lambe-botas poderem mostrar a sua deferência em relação aos exploradores. É só decorá-las e repeti-las, de diversas maneiras, em toda e qualquer ocasião. Ao repeti-las, fazer um ar grave (como a que faz um António Barreto qualquer ao dizer as suas parvoíces) que é por estas terras, como todos sabem, uma certificação da elevada qualidade de qualquer bacorada proferida.

Cábulas para ser um lambe-botas eficiente:

1)      O lambe-botas deve criticar os trabalhadores por tudo e por nada, apontando-os como os culpados pelos problemas do país (“são preguiçosos”, “não querem trabalhar”, “querem viver acima das suas possibilidades”, etc.);

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2)      O lambe-botas deve criticar os sindicatos (“esses mandriões”, “esses aproveitadores”, etc.). Isto é importante, pois convém atacar este instrumento da luta dos trabalhadores, instrumento que fez com que hoje os trabalhadores, por exemplo, já não trabalhem 14 ou mais horas por dia e tenham direitos dos quais nem os lambe-botas estão pessoalmente dispostos a abdicar;

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3)      O lambe-botas deve dizer que os partidos e os partidos “são todos iguais”, dando a entender que quem luta pela escravidão é igual a quem luta contra a escravidão;

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4)      O lambe-botas deve aproveitar qualquer oportunidade para criticar o 25 de Abril, esta malvada data, que nas palavras de uma tal (certamente também malvada) Sophia seria, vejam só,  o “dia inicial inteiro e limpo/Onde emergimos da noite e do silêncio/E livres habitamos a substância do tempo”;

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5)      O lambe-botas deve elogiar, por tudo e por nada, os opinion makers oficiais, idolatrar a sua “genialidade” e exagerar as pequenas diferenças entre os diversos gémeos que aparecem nos meios de comunicação a defender a exploração (o lambe-botas deve fingir, mesmo que não seja fácil, que não nota que comem todos da mesma panelinha e que, na verdade, até são gente com um nível de análise rasteirinho como a relva).

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6)      O lambe-botas deve queixar-se de que “temos licenciados a mais”, de que “isto é um país de doutores”. Esta é uma muito boa maneira de atacar a cultura numa época e num mundo em que o conhecimento é crucial. Particularmente interessante o facto de ser uma ideia falsa e estúpida (e, portanto, isenta da cultura que diz haver em excesso) defendida num país com uma das mais baixas percentagem de licenciados da Europa, um país que apenas está a meio caminho de deixar a situação verdadeiramente vergonhosa em que se encontrava há poucas décadas atrás, em termos de habilitações da sua população. A questão das habilitações e da empregabilidade é uma questão de paradigma: se houver um médico para mil doentes e outro médico desempregado, só “há médicos a mais” se as inteligências raras pensarem que há que baixar as habilitações em vez de alterar a empregabilidade (dando, por exemplo, quinhentos pacientes a cada médico). Não sei de outro país que se queixe de “ter licenciados a mais” (aliás, esta cruzada contra a cultura torna Portugal alvo da risota de outros povos);

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7)      O lambe-botas não deve perder oportunidade de dizer que a saída da crise está no aumento da produtividade, obnubilando a existência das classes, da exploração, etc.;

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8)      Em consonância com o ponto anterior, o lambe-botas deve defender que o desenvolvimento do país depende fundamentalmente do aumento da exportação de mercadorias (quando já há alguns séculos se verifica que os países imperialistas se desenvolvem através da exportação de capital e não de mercadorias, coisa muito diferente);

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9)      O lambe-botas deve queixar-se constantemente de que o Estado é pesado, grande, controla tudo e todos e deve defender uma maior autonomia da “Sociedade Civil” (o lambe-botas deve, caso não se lembre facilmente desta expressão, escrevê-la um papel, já que a referência à “Sociedade Civil”dá um ar chique à indignação). Esta queixa acerca do peso do Estado é uma pérola: a) permite dar a impressão de espírito crítico; b)contribui para a defesa dos interesses do capital e das negociatas das privatizações; c) serve para atacar o Estado Social, os direitos conquistados pelos trabalhadores e defender o sacrossanto poder do(s) mercado(s). Ao usar este discurso, o lambe-botas deve tentar evitar reconhecer que foi exactamente a falta de controlo do(s) mercado(s) que agravou a actual crise do capitalismo (embora a inevitabilidade de crises seja inerente ao próprio sistema capitalista);

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10)  O lambe-botas deve defender a caridadezinha como meio de lidar com o problema da pobreza. Esta também é muito boa: a) permite dar uma ideia de que se é muito bonzinho; b) ajuda a reforçar a ideia de que os pobrezinhos são intrinsecamente inferiores aos demais seres humanos, devem ser vistos mais como objectos da acção alheia do que sujeitos da própria história; c) permite fazer com que, predominantemente, sejam os pobres a ajudar os pobres, libertando os exploradores da chatice de se preocuparem com essa questão (deixando-os com mais tempo para questões mais importantes, como a de continuarem a sua rapina); d) dá um bom lucro a Jumbos e Continentes e outras empresas que parasitam na boa vontade dos ingénuos; e) ajuda os padrecos e a igreja; f) reforça a ideologia da direita mais reaccionária; g) permite substituir a luta pelo fim da pobreza pela ideia de que sempre haverá pobres com quem se poderá eternamente praticar a caridade e ganhar a recompensa celestial merecida; h) permite atacar o Estado e o serviço público, substituindo a noção de direito social conquistado pela noção de benevolente (mas não garantida) condescendência em relação aos coitadinhos. Em relação à ajuda do Estado, o lambe-botas deve mudar de discurso imediatamente e tratar os mesmos pobrezinhos que queria caridadezinhar por “preguiçosos”, “aproveitadores do dinheiro dos nossos impostos”, etc.

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