OLHE QUE NÃO

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ERA BOM QUE TROCÁSSEMOS UMAS IDEIAS SOBRE O ASSUNTO

Posted by J. Vasco em 29/06/2011

O João Valente Aguiar desafia-me a responder a um inquérito literário, que circula por vários blogues. Aqui vão as minhas respostas:

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
 

Os romances que mais amo não necessitam de releitura: as suas marcas são inapagáveis, andam comigo, são parte de mim. Não obstante, já dei comigo a pegar várias vezes, por puro gozo, num capítulo para mim marcante de algumas dessas obras. Assim de repente, lembro-me de já ter lido vezes sem conta o capítulo da primeira noite de amor da Maria Sara com o Raimundo Benvindo Silva, da História do Cerco de Lisboa, do José Saramago. O livro tem um marcador no início desse capítulo e o pasmo com que o leio renova-se de cada vez. É incrível o domínio dos tempos, o ritmo da cena, o andamento dos sentimentos. Parece uma sonata. Cheguei a fazer o mesmo com o Evangelho Segundo Jesus Cristo. Reli algumas vezes a conversa entre Jesus, Deus e o Diabo a bordo de uma barcaça. Dizer que é genial parece-me pouco.

Com a poesia a releitura é mais frequente. É uma necessidade, já que a minha memória não funciona em verso. O Camões é muito cá de casa, assim como o Manuel Bandeira, o Sebastião Alba, a Sophia ou o Neruda. Reli várias vezes o libreto da ópera Os Dias Levantados, do Manuel Gusmão.

Já com a filosofia, a releitura, o andar à volta, o trabalho prolongado dos textos é o pão nosso de cada dia. Propriamente não se trata aqui de releitura, mas de uma leitura que nunca acaba e a que sempre se retorna. Uma releitura sistemática, de fio a pavio, fi-la no entanto com Materialismo e Empiriocriticismo, do Lénine. Também a faço com a obra do José Barata-Moura.

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
 

Já me aconteceu duas vezes com o Ulisses, do James Joyce. Ele senta-se na sanita, abre o jornal para começar a ler, eu fecho o livro – e depois, porquê não sei, não chego a retomar a leitura. A odisseia de Leopold Blum, que dura um dia, resume-se para mim a uma ida à casa de banho. Sou um radicalizador da obra, no fundo. Também me aconteceu cinco ou seis vezes com as Migrações do Fogo, do Manuel Gusmão. Não me sinto à altura do petisco. Levo umas boas duas horas para terminar cada poema. Ainda não passei do quarto. Finalmente, há dois anos que estou para terminar o último terço do muito interessante romance O Remorso de Baltazar Serapião, do valter hugo mãe. Coisas que se foram metendo pelo meio impediram-me, contra vontade, de o fazer até agora. Obviamente, nada disto é definitivo. É apenas uma fase transitória até à leitura das obras.

 3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele? 

 Mais correcto seria perguntar: que livros nos acompanham de tal modo ao longo da vida que a sua leitura, estudo e interpretação nunca se dão por concluídos, constituindo-se sempre como fontes de renovadas reflexões?

Aí teria de referir alguns colossos como: República (Platão), Metafísica (Aristóteles), Crítica da Razão Pura (Kant), Ciência da Lógica (Hegel), O Capital (Marx), Ser e Tempo (Heidegger), as obras de Lénine, Dom Quixote (Cervantes), as obras dramáticas de Shakespeare. Entre outros…

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
 

Nunca li o opus maius do Herman Melville, o Moby Dick. Espero tratar disso dentro em breve. Nunca li A Cidade de Deus, do Aurélio Agostinho (não digo santo, sou ateu). Espero tratar disso um dia. Nunca li o que estou agora a ler – é por isso que estou a ler. Não digo já o que é, caso contrário a pergunta 9. ficava antecipadamente respondida.

 5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

 De todos os livros que li retenho várias cenas, não necessariamente as finais. As finais não são obrigatoriamente as “melhores”, nem tampouco as mais fortes, intensas ou vivas. Há livros que me transformaram e cuja cena final não tenho presente. Outros há, ainda dos que me transformaram, cuja cena final está bem viva. Há outros, finalmente, que no geral nada me disseram, mas que têm uma cena final de que me lembro bem.

Vamos então a cenas finais (das que me lembro neste momento), abstraindo destas subtilezas.

A cena final de A Besta Humana, do Zola: uma carruagem de comboio desgovernada, a alta velocidade, cheia de soldados a brindar à vida; a cena final de O Crime do Padre Amaro, do Eça: a burguesia e a feudalidade lisboetas, no Largo Camões, a falar com escândalo e com pânico da experiência coeva da Comuna de Paris; a cena final de Cinco Dias, Cinco Noites, do Manuel Tiago: «Lambaça, Lambaça!». O André, na  jangada, em direcção à outra margem. O Lambaça, em passo estugado, de costas para ele, a afastar-se; a cena final do Amor de Perdição, do Camilo. Lembro-me sempre dela quando atravesso o Douro, no Porto; a cena final da Seara de Vento, do Manuel da Fonseca: não apenas as imagens – também os sons: o vento, os pés, a tensão, «os gemidos das bocas»; a cena final de Queremos Tudo, do Nanni Balestrini: visto de um telhado de um prédio, por entre o fumo dos combates, o nascer do sol, um enorme sol vermelho, durante o confronto operário com a polícia; a cena final de Timbuktu, a solitária morte na auto-estrada, do Paul Auster; a cena final, belíssima, de Mayombe, do Pepetela: «MPLA avança». A morte de Sem Medo, as folhas verdes das árvores e as flores de mafumeira a caírem sobre a sua campa; a cena final de Levantado do Chão, do Saramago: as gerações de mortos levantam-se do chão e caminham ao lado dos vivos; a cena final (será mesmo a final?) da Explicação dos Pássaros, do Lobo Antunes: o Rui, estendido nas margens da ria de Aveiro, morto, com gaivotas a sobrevoá-lo, aos círculos, grasnando.

 

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
 

Nunca me conseguiram convencer de que os livros aos quadradinhos não eram leitura a sério. Não têm conta os livros do Tio Patinhas que eu li. Nas férias de Verão havia versões «hiper» e «super» desses livros. Essa era a minha praia.

Mais tarde, passei para Os Cinco e Os Sete. Achava-os fraquitos comparados com Uma Aventura em… Li a colecção inteira, com sofreguidão, animado por ter um tio que era o ilustrador. Admirava o Chico e as suas proezas atléticas, e sonhava ter um cão como o Faial. Também me meti nas Viagens no Tempo. Mesmo com a máquina do tempo e com o Orlando, o velho cientista, não chegavam aos calcanhares das aventuras do Chico, do João, do Pedro e das gémeas.

Sou do tempo em que A Bola só saía às quintas (para apanhar as jornadas europeias) e aos sábados (para preparar o fim-de-semana desportivo). A Bola era a minha bíblia. Bebia cada palavra e ficava horas a contemplar as fotografias (seriam do Nuno Ferrari?) e a imaginar que jogava, defendido pelo Manuel Galrinho Bento, ao lado do Diamantino, e do Carlos Manuel, e do Shéu, e do Maniche, e do Pietra, e do Chalana. Em casa da minha tia, no Ribatejo, havia o jornal O Crime. Quando lá estava, nas férias, gostava de ler as coisas escabrosas que o pasquim “noticiava” e de relatar os pormenores sórdidos à minha avó.

Frequentei bastante o mundo dos Strumpfs. Depois descobri o Astérix (a paixão nunca acabou) e o Lucky-Luke. O Tintin nunca me disse nada. A seguir veio o La Chavalita (este reli dezenas de vezes), do meu tio, que anos mais tarde me havia de levar ao Corto Maltese, que ainda hoje admiro. Não me passou ao lado O Diário Secreto de Adrian Mole, da Sue Townsend.

Entre os 12 e os 15 anos, li Droga de Vida, de alguém que assinava Samuel (editado na Caminho), e Os Filhos da Droga, da Christianne F. Mas a leitura que me transformou profundamente foi feita um ano mais tarde: Papillon, do Henri Charrière. Li-o em três ou quatro dias, febrilmente, no recobro de uma amigdalite. Ainda hoje tenho o livro inteiro na cabeça, de tal forma me fascinou.

Até entrar para a Faculdade, aborreciam-me as exigências escolares e as leituras obrigatórias: só fiz as de Filosofia do 12º ano: Fédon (Platão), Carta Sobre a Tolerância (Locke) e Da Certeza (Wittgenstein). O Eça a sério, o Camões e o Gil Vicente iriam ficar para mais tarde, fora do contexto escolar. Entretanto, li uma biografia dos Doors, que levou sumiço, o Dia Mais Longo, do Cornelius Ryan, e dois livros que me marcaram bastante: Dez Dias Que Abalaram o Mundo, do John Reed, e As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do Marxismo, do Lénine.

 7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
 

Se calhar tenho uma costela jansenista, mas acho, por princípio, que uma leitura deve ser levada até ao fim. Considerar que o prazer imediato é o critério maior que preside à leitura é simplesmente estúpido. A ser assim, nunca poderíamos entrar no universo de novos escritores ou apreender ideias que não são acessíveis nem a uma primeira, nem a uma segunda, nem a uma terceira leituras, mas a várias, a um verdadeiro trabalho sobre o texto. Como já disse lá em cima, não considero aquilo que eu interrompi como interrompido, mas apenas como esperando a conclusão da leitura.

O verdadeiramente chato, no entanto, é o banal, é o reino do senso comum, ainda para mais se for enfatuado. Mesmo disso já papei até ao fim. Lembro-me, por exemplo, de um livrito sobre o «eduquês» da autoria de um tipo que é agora ministro. Aquela mediocridade, mais do que chata, é insuportável. Enfrentá-la permite, em todo o caso, conhecê-la bem e desmascará-la.  

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
 

Em relação à literatura, aqui vão alguns, sem preocupações de organização ou de sistematização:

Antígona e Rei Édipo (Sófocles), Prometeu Agrilhoado (Ésquilo), Crónica de D. João I (Fernão Lopes), a poesia lírica do Camões. Mais que o Hamlet, Otelo e Macbeth (Shakespeare), Peregrinação (Fernão Mendes Pinto). Crime e Castigo e O Jogador (Dostoievski), A Morte de Ivan Ilitch e Ressurreição (Tolstoi), os contos de São Petersburgo, do Gogol. As Afinidades Electivas (Goethe).

Os contos do Kafka e a Metamorfose, o Bartleby, do Melville. Fiesta e O Velho e o Mar (Hemingway), Ratos e Homens (Steinbeck), O Som e a Fúria (Faulkner). A Revolta dos Soldados (Hans Helmutt Kirst), esplêndido romance. Do Stefan Zweig, o conto Carta de Uma Desconhecida e o romance Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher.

A poesia do Manuel Bandeira e do João Cabral de Mello Neto, o libreto de Os Dias Levantados, do Manuel Gusmão. Canto Geral (Pablo Neruda). Mayombe (Pepetela), sempre.

Cartilha do Marialva (José Cardoso Pires): brilhante. As raízes sociais do marialvismo e do libertinismo. O marialva como reaccionário feudal contra as Luzes. O libertino como herdeiro burguês do legado racional das Luzes. Grande prosa.

O Pecado de João Agonia (Bernardo Santareno), Contos da Montanha (Miguel Torga), Esteiros (Soeiro Pereira Gomes), Porto Manso (Alves Redol), Cinco Dias, Cinco Noites (Manuel Tiago), Cerromaior e Seara de Vento (Manuel da Fonseca), Uma Abelha na Chuva (Carlos de Oliveira), Directa (Nuno Bragança), Quando os Lobos Uivam (Aquilino Ribeiro). Do Eça, Os Maias e O Crime do Padre Amaro, mas acima de todos A Ilustre Casa de Ramires. Do Camilo, Amor de Perdição, O Senhor Ministro e O Regicida. A Escola do Paraíso, Páscoa Feliz, Nikalai Nikalai e Leáh e Outros Contos (José Rodrigues Miguéis). António Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros, Exortação aos Crocodilos , Que Farei Quando Tudo Arde? José Saramago: Levantado do Chão, Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa, O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

 Em relação à filosofia e às ciências sociais, em geral:

Tudo o que já apontei em 3. e que é o mais decisivo para mim, faltando acrescentar o Fichte. A obra filosófica do José Barata-Moura, à qual sempre retorno. Para além de ser um pensador genial, o Barata-Moura é também um escritor de ideias de primeira água.

Ainda: Dialéctica do Concreto (Karel Kosik), Estética, Materialismo ou Existencialismo? e A Destruição da Razão (Gyorgy Lukács), Crítica do Gosto (Galvano Della Volpe), The Dialectic of Abstract and Concrete in Marx’s Capital (Evald Ilyenkov), The Age of Extremes (Hobsbawm), Dez Dias Que Abalaram o Mundo (John Reed), Leitura Laica da Bíblia (Mario Alighiero Manacorda). A História de Portugal, do Armando de Castro. Educação e Luta de Classes (Anibal Ponce), A Forma do Filme e O Sentido do Filme (Eisenstein), Conferências e Outros Escritos (Bento de Jesus Caraça), Antigos e Modernos – Estudos de História Social das Ideias (Vasco de Magalhães-Vilhena).

Não me lembro de mais nada, neste momento. Mas também já vos chateei demasiado.

 9. Que livro estás a ler neste momento? 
 

Ando de volta do Sentimento de Si, do António Damásio. Estou a terminar Que É Uma Coisa?, do Heidegger, que é um conjunto de aulas sobre a Crítica da Razão Pura, dadas nos anos 30 do século passado. É interessante verificar como a questão da coisa em si constitui sempre um enorme problema para o idealismo mais consequente. Também estou a terminar o livro História e Política – A Historiografia Americana Sobre a Sociedade Soviética, de B. I. Marúchkine. É um livro interessante, que merece ser conhecido. Terminei ontem, do Shakespeare, Muito Barulho Por Nada.

 10. Indica dez amigos para o Meme literário.
 

Aqui da casa, o Jyoti Gomes e a Jayanti Dutta. O António Vilarigues, de O Castendo. O Miguel Queiroz e a Inês Félix. O Arlindo Fagundes. O Tiago Patrício e o Xatoo.

 

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