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Archive for 17 de Junho, 2011

UM ARTIGO DO AVANTE!

Posted by * em 17/06/2011

Num momento em que o irracionalismo pulula em meios académicos e comunicacionais, aqui reproduzimos o texto de Manuel Augusto Araújo, publicado no Avante! de 16 de Junho de 2011:

  • Manuel Augusto Araújo

A miséria do pensamento pós-moderno

Fredric Jameson, com uma extensa obra sobre o pós-modernismo, escalpeliza as íntima relações entre o pós-modernismo e as generalizações sociológicas que anunciam um novo tipo de sociedade que alcunham de sociedade pós-industrial. Argumenta que «qualquer que seja o ângulo de análise sobre o pós-modernismo na cultura e nas humanidades tem necessariamente uma posição política, implícita e explícita, com respeito à natureza do capitalismo multinacional dos nossos dias (…) à lógica desse capitalismo tardio».

O pós-modernismo produziu deliberadamente a perda de historicidade, a fragmentação do pensamento, o esvaziamento do pensamento ideológico que retira sentido aos partidos políticos que se tornam um fim em si-próprios, organizações eleitorais sem definição nem mobilização ideológica, representando determinados interesses económicos que lhes dão apoio variável e pontual. O resultado é visível a olho nu quando se procuram diferenças entre as práticas políticas do PS, PSD e CDS. A democracia, despida da retórica em que se procura confundi-la com esses partidos, é cada vez menos uma realidade correspondente ao ideal democrático. O paradigma democrático do voto como expressão da vontade popular, quando usado para votar num desses partidos, é um voto perdido para a democracia.

Nas outras áreas, a expansão do pós-modernismo é devastadora. Nas artes, o apagamento das fronteiras entre culturas, a chamada alta cultura e a cultura popular, produziu uma polpa onde flutuam objectos e produtos sem outro destino que não seja o da exploração publicitária do trabalho formal. As ciências sociais foram tomadas de assalto pela miséria do pensamento.

O político, o intelectual, o artista ideologicamente comprometido cederam o seu lugar a uma espécie palrantes todo-o-terreno, especializados nas banalidades com que vendem as virtudes de uma sociedade que rasurou toda e qualquer espécie de dignidade para lutar pela sua sobrevivência. O espectáculo a que diariamente se assiste, vendo, ouvindo e lendo os meios de comunicação social, é deprimente. O pós-modernismo pauperizou o pensamento e o sentido de humanidade. Produz máquinas de imagens que o reproduzem nos ecrãs das televisões e dos computadores, nas redes sociais, nas montras dos centros comerciais. Mede a pulsação da vida pelos resultados económicos. Transforma a ciência económica que Marx tinha elevado à condição de ciência social e humana por excelência, na aritmética grosseira do deve e do haver. As ciências sociais e humanas, em particular a sociologia, foram despojadas de ambição para se venderem no que é imediatamente mais rentável. O que é seguido, no seu essencial pelo ideal do saber universitário cerceado por critérios económicos que impõem cursos e especialidades consideradas mais vendáveis.

É extraordinária a sucessão de gurus que se atropelam para debitar mais do mesmo, com papel de embrulho diferente. Quanto mais o pensamento é esquelético mais se vende a ideia de líder e de líder excepcional com que se procura preencher esse vazio.

A literatura, os textos de opinião, as pós-graduações e doutoramentos em liderança são abundantes, por mais insustentável que seja a sua leveza.

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