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Archive for 30 de Maio, 2011

UM ANTI-CLERICALISTA DE VELHA CEPA

Posted by J. Vasco em 30/05/2011

Manuel Souto Teixeira é cardiologista (apenas por curiosidade: foi ele que acompanhou o filósofo Vasco de Magalhães-Vilhena).

Muitos dos anti-clericais de velha cepa, em Portugal, eram médicos. No contexto cultural europeu de setecentos e de oitocentos, de resto, o velho materialismo (então novo) apoiou-se em grande medida nos avanços da medicina. O próprio Feuerbach não deixou de trilhar esses caminhos.

Souto Teixeira acaba de publicar este livro, acutilante, interessante e provocador. Um manifesto inteligente de ateísmo e de anti-clericalismo, que desmonta com ironia mordaz várias mistificações religiosas. Os desenhos que acompanham o texto também são do autor.

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UM FILME EM CANTADO

Posted by J. Vasco em 30/05/2011

Les Parapluies de Cherbourg, 1964. Realização: Jacques Demy

Como falar deste filme, desta absoluta obra-prima? Falar do que se ama, sabe-se, é difícil, muito difícil.

Tentemos balbuciar umas palavritas (só isso) com alguma ordem (aparente).

1. Jacques Demy é um dos maiores de sempre. Trabalhou toda a vida no fio da navalha, entre o grandioso, o desmedido e o ridículo. É um louco genial, que concebeu um filme inteiramente cantado, das tiradas mais líricas ao suspiro mais anódino, fugindo aos cânones do musical e às regras da ópera. Transformadamente, não deixa, contudo, de os usar. Ao mesmo tempo, o filme é tudo isso e não é. Ou melhor, é mais do que isso sem deixar de o ser.

2. Além de ser em cantado, Les Parapluies de Cherbourg é também um filme encantado. O pasmo e o maravilhamento com que a ele assistimos, do princípio ao fim, tem na base o clima de encantamento que se viveu durante as filmagens, o qual foi por diversas vezes testemunhado pelos actores e por Jacques Demy. Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo têm aqui das melhores representações das suas vidas.

3. A comoção contra a lamechice hipócrita. A circunstância de termos um filme totalmente cantado inscreve o lirismo no plano do anódino e do banal. A comoção reside na vida de todos os dias, no pequeno gesto e na frase coloquial. O lirismo não está destinado aos grandes feitos heróicos, para lá do quotidiano.

4. O realismo. O cúmulo do lirismo está ao serviço do realismo. O realismo não é o fixo, o congelado ou o morto – porque também o real não o é. Unidade dos contrários (barroco e registo documental «neutro») para objectivos realistas. Máxima contenção para o lirismo exacerbado. Lirismo exacerbado através do anódino, do não-histriónico.

5. A música de Michel Legrand. Não se limita ao trabalho propriamente musical. É um trabalho sonoro em toda a linha, do som dos objectos e da natureza à melodia e às frases musicadas. Em Parapluies de Cherbourg há também um leitmotiv musical, que deu origem a esta canção interpretada por Nana  Mouskouri.

6. Eles amavam-se. Guy é chamado para a guerra colonial na Argélia. Na noite antes de partir de Cherbourg, ele e Geneviève trocam juras de amor, confessam os seus medos um ao outro, receiam pelo futuro. Dois anos sem se verem. Uma filha há-de nascer em resultado desta noite. Geneviève desespera, mas não espera os dois anos. Por razões familiares, percebe que não é de bom tom juntar-se a um pelintra, ainda que o ame. Casa-se com um estatuto social. Sai de Cherbourg. Guy regressa da Argélia, torna-se gasolineiro, casa-se e tem um filho. Fixa-se em Cherbourg. Agora, vejam a sequência final. É inadjectivável.

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