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SERÃO BRAÇOS DE IRMÃOS

Posted by Patrícia B. em 01/05/2011

Deixa lá, companheira!

Que havemos de fazer?

Fecharam-nos a porta e quase nos cuspiram.

Pisaram-te e, a mim, vergastaram-me as mãos.

Deixa lá! Deixa lá! Eu beijarei teus pés

e tu farás sarar as minhas mãos.

Para lá da última casa ainda há terra

e céu e água e luz…


Ainda há vida para lá.

               

Deixemos para eles o som vazio das gargalhadas

e a luxúria do oiro.

Ainda há vida para lá.

O nosso horizonte é mais vasto em cada instante.

A nossa voz mais rica em cada instante.

O nosso querer mais certo em cada instante.

Ainda há vida para lá.

Sigamos nossa rota, companheira.

Enxugarei teu rosto com cuidado.

Tu farás o meu canto.

E para além das barreiras do tempo

milhões de homens nos esperam com os braços abertos,

que desde a primeira hora serão braços de irmãos.

Mário Dionísio(1916-1993), O homem sozinho na beira do cais

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3 Respostas to “SERÃO BRAÇOS DE IRMÃOS”

  1. maia said

    Pela beleza da poesia, pelo amor que nos traz, pela sensibilidade, temos a certeza de que o mundo caminha, com avós a dizerem aos netos que só juntos chegaremos longe! Trazer o Manuel da Fonseca e o Mário Dionísio já é um grande passo…outros virão!

  2. José Terra said

    O poema é bonito e a mensagem de solidariedade também. Mas aquele “Deixa lá companheira/Que havemos de fazer?” é de contemplação e desistência, apesar de que “ainda há vida para lá.”
    Porque também há milhões de braços abertos que não são de irmãos há que, de facto, fazer.
    Continuem a fazer…

  3. Patrícia B. said

    Obrigada, Maia e José Terra pelos vossos comentários. Respondendo aos dois duma assentada: gosto muito deste poema precisamente porque após a aparente resignação (“que havemos de fazer?”) seguem-se respostas e projectos para o futuro, o que, no fim, nos faz perceber que não se tratava de um baixar de braços, mas sim de uma palavra de ternura, amor e conforto para quem acaba de se ver humilhada por aqueles que lançam gargalhadas de som vazio(“eles”). E sim, esperemos que não sejam eles a ri-se por último.

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