Pedro Rodrigues e Diana Dionísio (neta de Mário Dionísio), «Pedro e Diana», fazem da melhor e mais interessante música em Portugal. A criatividade da dupla firma-se numa apropriação genuína e crítica da música popular portuguesa (que conhecem de trás para a frente), numa valorização da língua portuguesa e das suas possibilidades semânticas e lúdicas, numa crítica social cheia de ironia e de irrisão, e numa grande mestria de composição e de trabalho formal.
«Por isso é que o caminho não é sempre em frente» dialoga directamente com «Tinha uma sala mal iluminada», do Zeca Afonso. A dado passo, diz o Zeca: «o caminho é só um, é sempre em frente». Tanto o Zeca como o Pedro e a Diana, cada um a seu modo e a níveis diferentes, têm razão. Mas esta música do Pedro e da Diana fascina-me. Está carregada de dialéctica. Sendo em frente, o caminho não é, de facto, sempre em frente. Nem em termos objectivos, nem em termos subjectivos. Há a rocha grande, o atalho, os malmequeres, o alcatrão… E há a subjectividade humana que os enfrenta, que os trabalha, que os pensa, que os sente…
Pela parte que me toca, depois de algumas observações, porei também um ponto final nesta discussão.
Em relação ao tema do «ódio a Sócrates» e minudências afins, deixo a barganha para os jugulentos, para os arrastados e para o Pitta. A coisa, superficial e irrelevante, parece ser muito adequada a estas pessoas de alto nível, cada uma mais coberta de verniz «democrático» e de «esquerda» do que a outra. Sinceramente, interessa-me mais, em política, perceber que grandes tendências sociais ela expressa, que classes sociais se enfrentam em cada momento, qual a correlação entre elas nos planos económico, social e institucional. É este o cerne da luta política. Por mais ruído que se faça, sem isto não se perceberá muito do que se passa. E o tempo pode então ser dedicado a discutir o «ódio a Sócrates» e afins.
Manuel Souto Teixeira é cardiologista (apenas por curiosidade: foi ele que acompanhou o filósofo Vasco de Magalhães-Vilhena).
Muitos dos anti-clericais de velha cepa, em Portugal, eram médicos. No contexto cultural europeu de setecentos e de oitocentos, de resto, o velho materialismo (então novo) apoiou-se em grande medida nos avanços da medicina. O próprio Feuerbach não deixou de trilhar esses caminhos.
Souto Teixeira acaba de publicar este livro, acutilante, interessante e provocador. Um manifesto inteligente de ateísmo e de anti-clericalismo, que desmonta com ironia mordaz várias mistificações religiosas. Os desenhos que acompanham o texto também são do autor.
Les Parapluies de Cherbourg, 1964. Realização: Jacques Demy
Como falar deste filme, desta absoluta obra-prima? Falar do que se ama, sabe-se, é difícil, muito difícil.
Tentemos balbuciar umas palavritas (só isso) com alguma ordem (aparente).
1. Jacques Demy é um dos maiores de sempre. Trabalhou toda a vida no fio da navalha, entre o grandioso, o desmedido e o ridículo. É um louco genial, que concebeu um filme inteiramente cantado, das tiradas mais líricas ao suspiro mais anódino, fugindo aos cânones do musical e às regras da ópera. Transformadamente, não deixa, contudo, de os usar. Ao mesmo tempo, o filme é tudo isso e não é. Ou melhor, é mais do que isso sem deixar de o ser.
2.Além de ser em cantado, Les Parapluies de Cherbourg é também um filme encantado. O pasmo e o maravilhamento com que a ele assistimos, do princípio ao fim, tem na base o clima de encantamento que se viveu durante as filmagens, o qual foi por diversas vezes testemunhado pelos actores e por Jacques Demy. Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo têm aqui das melhores representações das suas vidas.
3. A comoção contra a lamechice hipócrita. A circunstância de termos um filme totalmente cantado inscreve o lirismo no plano do anódino e do banal. A comoção reside na vida de todos os dias, no pequeno gesto e na frase coloquial. O lirismo não está destinado aos grandes feitos heróicos, para lá do quotidiano.
4. O realismo. O cúmulo do lirismo está ao serviço do realismo. O realismo não é o fixo, o congelado ou o morto – porque também o real não o é. Unidade dos contrários (barroco e registo documental «neutro») para objectivos realistas. Máxima contenção para o lirismo exacerbado. Lirismo exacerbado através do anódino, do não-histriónico.
5. A música de Michel Legrand. Não se limita ao trabalho propriamente musical. É um trabalho sonoro em toda a linha, do som dos objectos e da natureza à melodia e às frases musicadas. Em Parapluies de Cherbourg há também um leitmotiv musical, que deu origem a esta canção interpretada por Nana Mouskouri.
6. Eles amavam-se. Guy é chamado para a guerra colonial na Argélia. Na noite antes de partir de Cherbourg, ele e Geneviève trocam juras de amor, confessam os seus medos um ao outro, receiam pelo futuro. Dois anos sem se verem. Uma filha há-de nascer em resultado desta noite. Geneviève desespera, mas não espera os dois anos. Por razões familiares, percebe que não é de bom tom juntar-se a um pelintra, ainda que o ame. Casa-se com um estatuto social. Sai de Cherbourg. Guy regressa da Argélia, torna-se gasolineiro, casa-se e tem um filho. Fixa-se em Cherbourg. Agora, vejam a sequência final. É inadjectivável.
Em relação à questão do referendo ao aborto, o cacique do PSDois diz que falou no assunto por ser ingénuo. Falou do assunto porque quis, isto sabemos nós. Mas que é burro, lá nisso ninguém lhe tira a razão (quem diz que é burro geralmente tem razão). Mas o problema nem é a burrice assumida do Rei do Lixo, o problema é o modelo de sociedade que ele defende, ou seja, ele defende um modelo de sociedade o mais parecido possível com uma selva onde, da forma mais abjecta, o capital possa explorar sem quaisquer entraves. E como qualquer arrivista, ele cumpre a sua função de classe com um imenso e intenso fervor, só comparável à sua burrice.
O ladrão fascista do Partido do Peculato é de uma demagogia Goebbelsiana, estando disposto a dizer tudo e o seu contrário para melhor defender os exploradores. Agora diz-se “à esquerda” do PSDois. O interessante é ver como ele caracteriza o “ser de esquerda”: é, palavras do gatuno de extrema-direita, ter, em “questões sociais”, um compromisso «mais forte, mais vincado, mais focado, mais permanente». Ou seja, ser de direita é, como ele próprio reconhece, o oposto disso. Mais à esquerda, mais compromisso com as “questões sociais”, mais à direita menos compromisso com as “questões sociais”: assim reconhecem os senhores da extrema-direita portuguesa. Engraçados esses tipos. Pelos vistos, entendem melhor o que defendem do que a gente julga…
Em homenagem a um amigo, Bill, que dentro de dias viria a falecer, Orson Welles, o maior dos grandes, interpreta em sua casa, em 1984 (um ano antes de morrer), um texto do aviador Charles Lindbergh. É um momento deslumbrante. Quero dedicá-lo ao Eduardo Chitas, amigo empenhado, que nos deixou estupidamente há dois meses e que ainda tinha tanto combustível para andar.
O meu amigo Jorge Carvalheira começa por bater a uma porta que já está aberta: é verdade que a vida é, na essência, prática, não-linear, concreta, complexa. É justamente por isso que a teoria – ao contrário do que ele parece defender – se torna tão necessária. Sem teoria não há acção consciente – há apenas resposta a estímulos. Como se há-de ver.
Sentado nesta concepção «vitalista», o Jorge Carvalheira diz depois que sente «pena» e «vergonha» de «ver os comunistas mancomunados com a direita mais vil». São palavras fortes e terríveis, com efeito. Note-se, no entanto, que se adoptarmos como critério de definição de esquerda simplesmente apoiar as medidas do PS (apenas porque vêm do PS, abstraindo, portanto, do seu conteúdo real: social e político) e verificarmos a seguir que mais de 90% daquilo que foi aprovado na Assembleia da República por proposta do «partido de Sócrates» contou com o voto favorável do PSD e que o programa da «troika» é partilhado por PS, PSD e CDS – então das duas uma: ou o PSD é um partido mais à esquerda do que o PCP, ou o Jorge Carvalheira, em relação aos comunistas, alinha com o discurso da «direita mais vil». O que é «pena» – e a «vergonha» que sente percebe-se melhor.
Assinalaremos as lutas e reivindicações dos trabalhadores em cada época, alguns elementos dos contextos sóciopolíticos em que ocorreram, as vitórias, as derrotas e os resultados obtidos em direitos e para a melhoria das condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e das suas famílias. Ficará provado que vale a pena lutar.
AMÉRICO NUNES, Diálogo com a história sindical. Hotelaria – De criados domésticos a trabalhadores assalariados
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Na Lisboa de 1900, os criados de mesa em muito pouco se diferenciavam dos criados de portas adentro. As mesas de restaurante e o próprio hotel eram as camas e também as casas onde habitavam os seus empregados.
INÊS BRASÃO, Le Monde Diplomatique (recensão do livro de Américo Nunes), 6 de Novembro de 2007
APAREÇAM ÀS 18:30
Rua Alberto Sousa, 10 A
Zona B do Rego
1600-002 Lisboa
Junto à Av. das Forças Armadas, do lado oposto ao Hospital Santa Maria.
Transportes:
Metro: Cidade Universitária ou
Entrecampos
Autocarro: 31, 34, 54, 55 e 68
Os mais tótós ainda papam a repisadíssima história da carochinha de que Ferro Rodrigues representa uma tão vaga quanto inexistente «ala esquerda do PS». Com efeito, há uns dias o homem apareceu em público a matar. Com o intuito de passar manteiga pelo pêlo desses tótós cheios de credulidade, informou-nos – e bem – Ferro Rodrigues de que o programa do PSD é de «direita radical». A jogada era dar a aparência de um profundo contraste em relação ao PS, partido defensor do «estado social» (não se ria, leitor!). Esqueceu-se, no entanto, de acrescentar que o PS partilha exactamente esse programa, o famigerado «memorandum de entendimento» da troika, com o PSD e com o CDS.
Os meios de comunicação burgueses estão a apoiar e a apostar forte e feio no ladrão fascista e incansável defensor dos exploradores que dá pelo nome de Paulinho das feiras e tramóias, do caso Moderna, do Jaguar, dos submarinos, dos documentos roubados, líder do Partido do Peculato, etc. Apoiam-no e depois dizem que ele sobe nas sondagens. Mas claro, se está a ser empurrado para cima com todas as forças…
Obs: Alguns dos crimes de que se fala e que até aparecem referidos na Wikipédia:
Caso Moderna
“Descobertas informações que Paulo Portas e a sua mãe, Helena Sacadura Cabral Portas, assim como outras personalidades, teriam recebido ofertas da cooperativa em causa, de forma a que esta ganhasse notoriedade e visibilidade nas altas esferas da sociedade. Um dos presentes alegadamente terá um sido uma viatura de luxo, da marca Jaguar. O “Caso Moderna”, assim como é conhecido, culminou na detenção de José Braga Gonçalves”
(…)
“Sousa Lara ex-vice-reitor da Universidade Moderna e um dos arguidos no Caso Moderna, acusou Paulo Portas numa sessão de tribunal de estar implicado no caso. Sousa Lara disse que em relação a Paulo Portas, existia matéria com implicações a nível penal.”
(…)
“Este caso também parece ter ligações com a alegada gestão danosa por parte de Paulo Portas, quando este geria a empresa de sondagens Amostra, quando uma alegada carta de José Braga Gonçalves veio a público.”
Saída de Maria José Morgado da Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Financeira da Polícia Judiciária
“Numa comissão de inquérito, Maria José Morgado revelou que foi Adelino Salvado, o então director nacional da PJ, que lhe tinha dito que eram Celeste Cardona e Paulo Portas que teriam receio que ela continuasse a liderar o combate ao crime económico na PJ.”
Fotocópias de segredos de Estado
“Em 2007, o público em geral tomou conhecimento de que Paulo Portas, antes de deixar as funções de ministro da defesa e do estado, tinha fotocopiado 60 mil páginas, nas quais alegadamente estariam segredos de Estado, antes de abandonar as funções de ministro da defesa e do Estado.”
Compra de submarinos
“A compra de submarinos para a marinha portuguesa a uma empresa alemã, está envolta em polémica, uma vez que alegadamente faltam 34 milhões de euros e que, desses 34 milhões de euros, 1 milhão alegadamente foi parar a uma conta bancária ligada ao CDS-PP.”
A República Portuguesa, pela mão de PS, PSD e CDS, participa desde 1991 em guerras coloniais pelo mundo fora. Assim que o capital ocupa um país, destrói as suas infra-estruturas, arruína a sua economia, dizima a sua população, lá vai, em bicos de pés, a burguesia portuguesa tentar recolher as migalhas do banquete rapace encabeçado pelas suas congéneres alemã, estado-unidense, francesa e inglesa. Os seus três partidos históricos preparam o terreno para o efeito, ao mesmo tempo que encerram, no país, a metalomecânica pesada, os altos-fornos, a siderurgia, os estaleiros navais, o têxtil. Se a exportação de capitais é quase impossível para a burguesia portuguesa; se a exportação de mercadorias não é satisfatória – então há que participar nos lucros que as guerras coloniais geram.
No ano de 2011, a coberto do eufemismo «operações humanitárias e de apoio à paz», Portugal, como invasor colonial, está presente, entre outros países, no Iraque, no Afeganistão, nos Balcãs, na Somália, até na Líbia. É bom não esquecer. Portugal, como invasor colonial, participa na pilhagem, na destruição e na morte. Em nome do lucro e do capital. Pelas mãos cheias de sangue da troika PS/PSD/CDS, qual dos três o mais «democrático».
O argentino Aníbal Ponce viveu apenas 39 anos. A sua obra teórica, porém, nomeadamente os seus estudos sobre história da educação, até hoje inigualados, atravessarão os tempos.
O Ricardo Noronha andou por Setúbal no 1º de Maio. E contou o que presenciou:
«Estive ontem em Setúbal e pude testemunhar pessoalmente (e até de bastante próximo) os acontecimentos no bairro da Fonte Nova. Para não variar, a PSP está a fabricar novamente uma versão à sua conveniência, somando vários pontos ao seu conto, de maneira a transformar a sua violência repressiva num gesto de defesa dos cidadãos.
A primeira coisa que deve ser destacada é que a manifestação – cerca de centena e meia de pessoas – percorreu toda a cidade sem qualquer incidente, sendo apoiada e saudada por vários setubalenses pelos quais passou e que receberam com interesse os panfletos distribuídos. Apesar de não ser acompanhada por qualquer agente da polícia, todos os automobilistas foram pacientes e respeitadores do direito de manifestação, aguardando enquanto o cortejo passava e demonstrando por vezes o seu apoio às palavras de ordem e às faixas. O mesmo aconteceu com os vários proprietários de restaurantes e cafés localizados no bairro da Fonte Nova, inclusive os que estavam no largo onde tudo viria a acontecer.
«Digam à minha neta! Digam-lhe que ela tem razão! Um homem só não vale nada! Ouve-se como que um gemido soltado por dezenas de bocas, e os camponeses atiram-se para diante.»