Posted by J. Vasco em 30/04/2011
Se o meu amigo Jorge Carvalheira se der ao trabalho de virar a atenção, por um segundo, para a Grécia antiga dos séculos VI e V antes da nossa era – que diferenças encontrará entre Esparta e Atenas, por exemplo? Em termos da forma política do estado, do peso relativo das diferentes actividades económicas, das preocupações pedagógicas – algumas, com certeza. Os hilotas e os periecos, com efeito, não tinham as mesmas características económicas e sociais dos metecos.
Uma cabeça entupida de senso comum olha para estas diferenças, no movimento seguinte genuflecte diante das aparências – e acaba consagrando-as como a contradição determinante da Grécia clássica, afirmando que num lado há ditadura e que noutro existe democracia. Mas um indivíduo medianamente cultivado, portador de espírito crítico, sujeito de razão (e um escritor a sério, por força do seu ofício, é tudo isto a multiplicar por 10), observa as mesmas diferenças, integra-as na totalidade concreta a que estão ligadas e onde ganham estação, e nunca lhe passará pelo sentido negar que o estado grego, seja ele o de Esparta ou o de Atenas, não é outra coisa senão o estado dos escravistas, não é mais do que a organização dos proprietários de escravos para manter, consolidar e aprofundar o seu domínio de classe sobre os escravos. Este indivíduo, raciocinando desta forma, transitou da aparência à essência, não para negar a aparência, mas para explicá-la no seu movimento de manifestação e de aparecimento. Este indivíduo, pensando desta maneira, nem sequer negou a especificidade dos metecos em Atenas: integrou-a na contradição determinante, fundamental, essencial, da sociedade grega. Leia o resto deste artigo »