OLHE QUE NÃO

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«VAI SER UMA GRANDE LUTA»

Posted by J. Vasco em 23/11/2010

A entrevista de hoje, véspera da greve geral, é com José Reizinho, coordenador da comissão de trabalhadores da CP. Oferecemos aos nossos leitores mais um retrato de uma grande empresa de transportes, desta feita de dimensão nacional. Apresentando especificidades, não deixa no entanto de ser atravessada pelos efeitos nefastos da agressiva política de recuperação capitalista que atinge todos os sectores de actividade.

José Reizinho demonstra uma consciência aguda da necessidade de aprofundar os laços de classe entre os trabalhadores. As lutas futuras, duras e prolongadas, assim o exigem. 

  

OLHE QUE NÃO – No quadro geral do agravamento das condições de vida dos trabalhadores portugueses, qual é a situação particular da CP?

JOSÉ REIZINHO – Na minha perspectiva, para caracterizar a situação actual da CP é necessário recuar alguns anos e apreender a política de privatização gradual da empresa que tem vindo a ser seguida.

OLHE QUE NÃO – Essa política de privatização agravou-se recentemente?

JOSÉ REIZINHO – Sim, sim. A pretexto da crise financeira deram-se decisivos passos em direcção à privatização do transporte ferroviário. Invocando sempre «a crise» e «as dificuldades económicas», criaram-se condições a vários níveis para essa privatização.

OLHE QUE NÃO – Se a privatização for levada a cabo, qual será, desde logo, o efeito mais saliente?

JOSÉ REIZINHO – Antes de mais, vai vender-se ao desbarato todo o investimento público feito num transporte também ele público. O estado passa automaticamente tudo para o privado, perde o investimento, nem sequer o rentabiliza. Uma situação destas coloca, de pronto, dois problemas: a redução do número de trabalhadores e o aumento do custo do transporte ferroviário para os utentes. Corre-se com isto o risco do desaparecimento do próprio passe social.

OLHE QUE NÃO – Acaba por desaparecer, no fundo, a prestação do serviço público.

JOSÉ REIZINHO – Exacto. E, como se imagina, a questão da segurança, a questão da manutenção da infra-estrutura e a questão do material circulante são questões que trazem muitos custos, que envolvem muito dinheiro. Ora, quando se desgasta e se esgota o tempo de vida das catenárias, das infra-estruturas e dos comboios, qual é, tendo em conta as lições do passado, a tendência dos privados? Nessa altura, é entregar ao estado – e depois o estado que renove, que compre material novo e que, de seguida, volte a pôr as coisas nas mãos dos privados. O ciclo é este, é um caminho composto por estas fases.

OLHE QUE NÃO – Em número de trabalhadores, qual é hoje o resultado da estratégia de privatização da CP?

JOSÉ REIZINHO – Antes da implementação dessa estratégia, éramos 25 000 trabalhadores. Neste momento, a CP está reduzida a 3200 trabalhadores. Por aqui se pode avaliar a estratégia e a jogada desta gente.

OLHE QUE NÃO – Isso é também uma consequência de uma política de segmentação?

JOSÉ REIZINHO – Com certeza. Com o pretexto de que a CP era uma máquina muito pesada, de que era necessário aligeirar a sua gestão, criaram-se várias empresas e unidades de negócio…

OLHE QUE NÃO – …qual é a expressão desse processo de segmentação em número de empresas?

JOSÉ REIZINHO – Há a REFER, responsável pela infra-estrutura (linhas, catenárias e edifícios); há a EMEF, responsável pela manutenção; há a REFER Telecom para as telecomunicações ferroviárias; há a CP Carga para o transporte de mercadorias… Abreviando: de uma empresa única em 1996, passámos hoje para 4 empresas e cerca de 10 unidades de negócio. Ora, se multiplicarmos isto pelo número de administradores e pelo número de pessoas que gravitam em torno do poder e das administrações entretanto criadas, temos uma ideia muito clara do que significou exactamente o tal «aligeiramento da gestão» e do «excessivo peso da máquina».

OLHE QUE NÃO – Julgo que isso também possa ter trazido problemas no que toca à unidade dos trabalhadores, à sua consciência de classe…

JOSÉ REIZINHO – Isto foi um engodo. Tentou-se com este processo dividir os trabalhadores, fomentar o individualismo. A psicologia do processo foi esta: «se vocês estiverem divididos, obterão maiores benefícios». Estimulou-se a ideia junto dos trabalhadores de que, havendo mais empresas e unidades de negócio, as partes do bolo estariam mais acessíveis a cada um. «Os outros que se lixem», era o espírito.

Ao mesmo tempo, apoiou-se a criação de vários sindicatos que aprofundassem e consolidassem a divisão. O objectivo era tornar mais fácil à entidade patronal e ao governo a criação das empresas e o avanço da privatização.

OLHE QUE NÃO – Entretanto, houve algum dado novo?

JOSÉ REIZINHO – Sim, essa fase, digamos assim, está concluída. O governo levou o seu trabalho até ao fim: segmentou a CP, abriu várias unidades de negócio, fundou diversas empresas e apoiou a criação de sindicatos que sustentassem estas medidas. Estas metas estão atingidas. O caminho está agora aberto para a privatização da empresa. Daí que o PEC, para 2011, preveja justamente a privatização da EMEF, da CP Carga e das unidades de negócio dos suburbanos da CP Lisboa e da CP Porto.  

OLHE QUE NÃO – Que implicações traz essa nova fase?

JOSÉ REIZINHO – Isto significa que, com o caminho aberto para a privatização, a administração da empresa já não precisa de alguns dos seus homens de mão, significa que já não precisa dos sindicatos paralelos que ajudou a criar para atingir os seus objectivos. E significa que está a dispensar os seus «serviços», desmascarando-se aos olhos dos trabalhadores.

OLHE QUE NÃO – Achas que, neste momento, os trabalhadores começam a ganhar consciência da necessidade da acção colectiva?

JOSÉ REIZINHO – Eu penso que as ilusões em torno da segmentação e do individualismo começaram a ser abandonadas. Os trabalhadores perceberam que, com a segmentação, foram prejudicados, que os postos de trabalho foram destruídos. Do meu ponto de vista, as condições para o sucesso da greve geral de dia 24 de Novembro começam a estar reunidas.

OLHE QUE NÃO – Qual é a atitude e a disponibilidade de luta dos trabalhadores nesta altura?

JOSÉ REIZINHO – Os trabalhadores têm muito em conta, neste momento, a questão da privatização. Sabem bem (e isso inquieta-os) que se forem para o privado os vínculos laborais permanentes acabam. Eles olham para o lado, para a Fertagus, e vêem que essa entidade patronal fora-da-lei nem sequer quer negociar os contratos colectivos dos trabalhadores.

Por outro lado, no quadro do PEC, a administração da CP quer reduzir 15% os custos com o pessoal. Mas quer ir mais longe: quer chular o erário público, tendo em vista a obtenção de verbas por parte do estado, a serem depois utilizadas no pagamento de indemnizações para despedir trabalhadores.

Há também o problema das categorias profissionais, mas os trabalhadores têm estes dois grandes receios: o fim dos contratos permanentes e os despedimentos. E estão dispostos a lutar firmemente contra isto.  

OLHE QUE NÃO – Achas que os trabalhadores da CP vão realizar uma grande luta?

JOSÉ REIZINHO – Vai ser uma grande luta.

Pela primeira vez, os cerca de 20 sindicatos que a CP tem estão todos virados para a greve geral. Isso é um factor que demonstra bem o ambiente de luta que se vive na CP.

OLHE QUE NÃO – Esta greve geral tem apenas uma importância pontual, ou, em relação ao futuro, poderá preparar novos patamares de luta?

JOSÉ REIZINHO – Os trabalhadores têm a plena consciência de que, ou se juntam e defendem os postos de trabalho e a empresa, ou as suas perspectivas de vida e as dos seus filhos não têm futuro nenhum.

Com a greve geral de dia 24 de Novembro vão ficar condições criadas para voltarmos a ter força (não digo ainda a de 1978-1980), para darmos início a outras lutas, mais unidas, pela defesa dos nossos interesses. Essas lutas vão ser muito necessárias no futuro.

OLHE QUE NÃO – Queres deixar algum apontamento final?

JOSÉ REIZINHO – Gostaria de deixar algumas palavras aos utentes do caminho-de-ferro.

Travamos esta grande luta, a greve geral, não apenas para defendermos os nossos interesses, os postos de trabalho e o futuro dos nossos filhos, mas também para defendermos a empresa e para garantirmos a prestação do serviço público ferroviário com a dignidade a que as pessoas têm direito. Ao defender a CP pública estamos também a defender os direitos dos utentes. A nossa luta é também pelos seus interesses.

 

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