OLHE QUE NÃO

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O OLHE QUE NÃO À ESCUTA (II)…

Posted by J. Vasco em 21/10/2010

  

Novas de França

O Miguel Queiroz volta à antena. Mais uma vez, furando o cerco informativo montado pelos media do sistema, faculta-nos um relato vivo e objectivo dos acontecimentos, possibilitando-nos uma compreensão mais completa e mais adequada da intensa luta de classes que decorre em França. Ainda não sabemos para que lado acabará por pender a balança: para o lado da burguesia ou para o lado dos trabalhadores. O certo é que esta contradição, o motor da história, terá um desenlace. O certo, também, é que a radicalização das medidas repressivas do governo demonstra à saciedade a pujança do movimento operário francês. Que não se rende, que avança – e que, neste momento, fazendo jus à sua tradição revolucionária, se coloca à cabeça do movimento operário na Europa. Obrigado, Miguel! Até já…

«Camarada,

Depois de mais um dia de trabalho, de uma manifestação à porta do senado (onde se acumulam carrinhas do corpo de intervenção) e de uma visita breve ao piquete de greve da minha faculdade apresso-me a relatar o que temos vivido desde domingo. O movimento continua vivo e forte. Exemplo disso foi a manif de ontem, terça, onde 3 milhões e meio de pessoas estiveram na rua, atingindo números record em Marselha e Paris. Já foram 3  as vezes em que fomos mais de 3 milhões na rua no espaço de apenas uma semana. Não será por isso estranho que uma das palavras mais ouvidas na acção de ontem fosse “Greve Geral”. A questão continua no entanto delicada junto da CGT: Georges Seguy apela hoje no L’Humanité de forma algo velada a “que se deixe a gestão da greve aos trabalhadores”. 

 
As acções de luta foram múltiplas e constantes, tanto sectorial como geograficamente. Quem se passear por Paris por estes dias dificilmente não esbarra com algum tipo de acção de luta, são inumeras as movimentações: manifs, vigílias junto de instituições governamentais (Senado p.e.), diversos bloqueios (sobretudo de liceus e faculdades, mas também linhas de metro e centros de aprovisionamento), cortes de estrada (Bastilha, République, Campos Elíseos, etc… alguns deles com direito a carga polícial), comités de recolha de fundos para os grevistas.  Seria demasiado exaustivo relatar a totalidade das acções porque mesmo estando aqui não se consegue estar a par de todas elas, dado o seu número e o seu carácter descentralizado. A descentralização parece ser mesmo a marca deste movimento. Não há cidade francesa, nem sector profissional que não conheça por estes dias algum tipo de acção de luta.
 
O número dos grevistas tem vindo a crescer diariamente para espanto de muitos. Claro que há excepções: os transportes urbanos parisienses têm vindo a verificar uma ligeira quebra no número de grevistas, mas esse factor é relativizado quando ontem os trabalhadores dos transportes urbanos de 32 cidades francesas decidiram mobilizar-se e juntar-se à greve. Foi também o caso do sector da aviação que conheceu hoje o seu primeiro dia de greve e de bloqueios nos acessos aos aeroportos. Os trabalhadores do sector da energia viram a sua luta reforçada pela adesão dos seus camaradas da central nuclear de Flamanville (entretanto o governo importa quantidades enormes de energia). O sector ferroviário não destoa e reforça também as suas greves, mobilizações e bloqueios. Os camionistas fazem marchas lentas por todo o país e bloqueiam várias estradas e auto-estradas. Seria demasiado longo continuar o relato sector por sector (até aos sectores não estratégicos) mas a ideia fundamental a reter é a de que nenhuma greve não é reconduzida e a cada hora que passa chega a notícia de um novo sector (geográfico e/ou profissional) que se junta à greve. 
 
O sector petrolífero parece ser o mais estratégico nesta greve. Todas as refinarias francesas estão em greve e estiveram paralisadas até ao dia de hoje. O governo decretou entretanto o “desbloqueio” de todas, atentando claramente contra o direito à greve ao requisitar trabalhadores sob a ameaça de 5 anos de prisão. Até ao momento conseguiu desbloquear” 3 delas. Os trabalhadores (não requisitados), mesmo com as refinarias desbloquadas, continuam em greve, e a produção é nula ou muito perto disso. É sob essa ameaça de 5 anos de prisão que 9 de entre elas continuam em greve. Nas restantes os trabalhadores procuram outras formas de luta: cortar os acessos um pouco mais à frente, voltar a bloquear quando possível, sabotar os meios de transporte do governo, etc…
 
Os estudantes por seu lado são um dos factores de maior visibilidade da greve. As greves, bloqueios e manifestações de estudantes são incontáveis. Há diariamente cerca de um milhar de liceus bloqueados. Hoje os estudantes universitários começaram a juntar-se (em maior número pois já havia Universidades mobilizadas) aos estudantes dos liceus. 
 
A violência por seu lado tem sido uma constante desde segunda feira passada, mas vou abster-me de narrações mais demoradas visto ser este aspecto o que tem sido mais visado pelos media.  Na semana passada foram presas (e muitas delas julgadas sumariamente) cerca de 1400 pessoas. O ambiente é evidentemente pesado e de grande hostilidade mas é preciso isolar alguns actos de claros agentes provocadores.
 
O clima é de luta intensa e cada parte cerra as suas fileiras. O governo endurece os seus meios de repressão e recusa o diálogo. A esquerda parlamentar tenta adiar ao máximo a votação da lei tentando dar ao governo tempo para negociar (estratégia discutível). A luta ganha um carácter cada vez mais político e uma dinâmica muito própria começando a assustar certos sectores mais moderados. À radicalização das posições do governo os trabalhadores terão evidentemente que responder com uma radicalização ainda maior da luta sob pena de perder a parada, mas a verdade é que o futuro do movimento é tão incerto como o era no domingo passado.  Amanhã será decisivo, não só pelas diversas mobilizações mas sobretudo pela reunião da intersindical».
 
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