OLHE QUE NÃO

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O OLHE QUE NÃO À ESCUTA…

Posted by J. Vasco em 17/10/2010

Novas de França

O nosso camarada e amigo Miguel Queiroz, a viver em Paris, deixou aqui um importante testemunho sobre o enquadramento geral, a dinâmica e o horizonte imediato dos acontecimentos desta semana vividos em França. O relato é extraordinariamente vivo, claro, rigoroso e sintético. Capta, em primeira mão, o essencial e mostra-nos tudo aquilo a que não temos acesso através dos meios de comunicação do sistema. Obrigado, Miguel! A antena está aberta. Continuaremos à escuta…

«Camarada,

          Por Paris vivem-se tempos de luta, greves, manifestações, demonstrações de grande coragem por parte da classe operária. Terça fomos 3 milhões e meio na rua, no domingo outros tantos, na próxima terça há nova manifestação. Entretanto múltiplas greves sectoriais continuam a ser reconduzidas desde terça passada: caminhos de ferro, transportes públicos, portos, refinarias (onde os trabalhadores conseguiram parar todas as refinarias do país, nada menos que 12), educação (em certas regiões), alguns sectores da função pública e os camionistas aderem dentro de meia hora ao movimento. Tendo citado apenas os sectores mais estratégicos. Entretanto os estudantes aderiram ao movimento tendo fechado entre 500 e mil liceus na última semana (amanhã de manhã saberemos melhor como segue o movimento a este nível).
 
Paris respira um clima grave, policiamento constante e exagerado, a assembleia nacional e o senado só reúnem protegidos por uma camada de carrinhas (muitas) do corpo de intervenção nas ruas adjacentes. Torna-se raro encontrar uma estação com gasolina e em breve haverá perturbações ao nível dos aprovisionamentos de todo o género. Tem havido distúrbios da ordem social menores um pouco por toda a parte, houve até um estudante que perdeu um olho (como consequência de uma intervenção policial), e os anarquistas chegaram mesmo a montar uma barricada em Rennes (entretanto “desactivada”). O fundamental é que a luta radicaliza-se e torna-se, de dia para dia, mais política (e assim esperamos que continue).
Entretanto o silêncio do governo foi quebrado há umas horas. O primeiro-ministro anunciou hoje que usaria de bom grado a força para “desbloquear” as refinarias, num claro atentado à lei da greve (acrescentou que os trabalhadores não tinham o direito de desestabilizar a economia). Anunciou também que não pretendem recuar no que toca às reformas (dizendo que taxar o capital para pagar reformas era uma vigarice), e premiou o mundo do trabalho com o anúncio da intenção de acabar com o imposto sobre as fortunas. Uma demonstração de ódio de classe.
Do ponto de vista mediático o tratamento da informação tem sido completamente inaceitável, há uma distância imensa entre a realidade e o que é relatado, dando-se prioridade às afirmações do governo (segundo as quais a paz e a ordem reinam na república francesa, e onde as greves são minoritárias e sem impacto na vida das populações). A realidade no entanto impõe-se inevitavelmente a quem sai de casa diariamente. Os meios de comunicação tomam o seu partido. Entre outras denúncias: http://www.acrimed.org/article3459.html .
O futuro do movimento continua incerto. Espera-se que ninguém abandone a intersindical, que reúne na próxima quinta, e que a mesma avance para uma greve geral por tempo indeterminado. O elo mais fraco é a CFDT (2º maior sindicato), demonstra o direito de negociar, algo absolutamente natural dada a natureza do sindicato em questão. A direcção no entanto está um pouco refém das bases bem mais radicais (o sindicato conheceu uma radicalização no último congresso).
Desculpa-me a brevidade e espontaneidade do relato.
Mas fica aqui o testemunho, na esperança que sirva de alento, e um voto de confiança para a jornada de luta
Um abraço fraterno de quem comunga da mesma luta,

Miguel Queiroz»

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