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LÉNINE E A FILOSOFIA

Posted by J. Vasco em 13/10/2010

José Barata-Moura lançou, há um mês, mais um grande livro de filosofia a juntar à sua vasta obra. Intitula-se «Sobre Lénine e a filosofia. A reivindicação de uma ontologia materialista dialéctica com projecto», e é, depois do anterior, de que aqui demos notícia, o segundo a ser dado à estampa este ano.

O trabalho de auscultação da relação de Lénine com a filosofia é realizado, por Barata-Moura, em filigrana. O cotejo crítico, que atravessa o livro de fio a pavio, entre «Materialismo e Empiriocriticismo», de 1908, e os conspectos, constantes dos «Cadernos Filosóficos», sobre a filosofia de Hegel, que remontam a 1914, desmontam uma ideia que faz carreira entre grande parte da marxologia ocidental, segundo a qual haveria dois Lénines: o desconhecedor da dialéctica, tosco «materialista», na primeira obra; e o renegado do «materialismo», já conhecedor da dialéctica por intermédio da «descoberta» de Hegel, nos «Cadernos Filosóficos». Na verdade, como no-lo mostra Barata-Moura, o que há é um solo comum entre os dois momentos, a partir do qual as preocupações e núcleos temáticos do primeiro vão, em processo, recebendo aprofundamentos e desenvolvimentos.

Outro aspecto interessante a destacar no livro é o tema da prática. Se em Lénine ele aparece decisivamente tratado, no plano da teoria do conhecimento, enquanto critério da verdade (muito embora não esgote esse critério), deve salientar-se que há também uma abordagem da prática em Lénine, não menos capital, enquanto agente material da transformação material da realidade (seja no plano do trabalho, da aplicação técnica da ciência, ou da luta política).

Uma chamada de atenção parece-me merecer ainda a diferença de tratamento que, para Lénine, deve ser estabelecida entre a luta política, no plano estratégico e táctico, e a luta filosófica. Não que uma não interfira na outra. Mas até que ponto a relação entre uma e outra é complexamente mediada, mostra-nos a especificidade da abordagem que cada uma recebe por parte de Lénine. É assim que um menchevique como Plekhánov está mais próximo do materialismo marxista do que um bolchevique como Lunatchárski. José Barata-Moura, com minúcia, conduz-nos por estes intrincados meandros. 

Finalmente, a questão central que dá ritmo e teor determinado ao livro: a perspectiva ontológica. José Barata-Moura, como é seu timbre, não abdica de a convocar. Ainda que Lénine não tenha dado ao problema um tratamento isolado, circunscrito e autónomo, a verdade é que a perspectiva sobre o estatuto do ser, a demanda sobre aquilo que é, comandam e determinam toda a abordagem leniniana. Sem ontologia, sem compreensão de aquilo que é, não se chega sequer a perceber de forma adequada a economia, a política, a transformação,  a revolução. Lénine sabia-o – e, por isso mesmo, a persepctiva ontológica perpassa e inunda toda a sua obra. Lénine sabia-o – e, por isso mesmo, o estudo da filosofia foi sempre uma preocupação constante ao longo da sua vida.

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