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VASCO PULIDO VALENTE: ASSINADO E REGISTADO NO LIVRO DE ACTAS

Posted by J. Vasco em 05/10/2010

Importa, em todos os fenómenos da vida social, perceber a partir de que ponto de vista se exerce a crítica. É o que permite apurar o teor e os objectivos determinados dessa crítica.

É possível criticar Kant, por exemplo, tanto de um ponto de vista materialista, como de um ponto de vista idealista. No primeiro caso, reconhece-se-lhe o mérito de conferir um estatuto de independência ôntica à realidade objectiva, apontando-lhe porém a debilidade de a considerar incógnita e incognoscível. No segundo, o idealismo mais consequente e mais radical aponta-lhe sobretudo a inaceitável concessão ao materialismo que representa o reconhecimento da objectividade material da coisa em si.

Também é possível criticar o capitalismo – recorrendo a outro exemplo -, tanto do ponto de vista aristocrático, monárquico, feudalizante, tardo-romântico, quanto a partir de posições progressistas, proletárias, socialistas, comunistas.

Detenhamo-nos agora no caso da república portuguesa, uma das primeiras da Europa.

O movimento operário critica-a não por ser república, mas pelo seu conteúdo burguês, limitado, amputado, por ser uma república burguesa, estruturada portanto para, dentro de uma moldura republicana, garantir a vigência da exploração capitalista.  Criticando-a de um ponto de vista de classe, simultaneamente transporta e carreia, através dessa crítica, o ponto de vista mais universalista de todos: o da humanidade social.

Em relação ao campo reaccionário (dos monárquicos, aos fascistas, passando por toda a gama diversa de direitistas com que a história nos foi presenteando), a crítica é dirigida não ao carácter burguês, mas ao próprio republicanismo da república, republicanismo tendencialmente universalista. Os reaccionários não podem conceber, sequer, que o fundamento da soberania resida no povo, que os cargos públicos sejam electivos e os seus titulares amovíveis, que não haja privilégios de casta, que os cidadãos sejam iguais em direitos e perante a  lei. Contudo, o que os desgosta mais na república portuguesa é a chamada questão social, a emergência, ainda que dentro de limites bem apertados e de conteúdo político muito débil, do movimento autónomo dos trabalhadores.

É neste quadro que surge e se constrói a interpretação fascista da república portuguesa. O seu objectivo era, a um tempo, legitimar, no plano ideológico, a construção do estado fascista, e, no plano prático, reprimir, e se possível liquidar, o movimento operário organizado, com vistas a afastar o perigo da revolução social e a proporcionar à burguesia, de uma forma mais estável e fortalecida, a extracção e a apropriação de mais-valia. E é assim que os fascistas, irmanados com os monárquicos, criam uma imagem da república como estado «jacobino», como reino da «violência» e do «arbítrio», como «caos social e político» onde impera a «perseguição», a «vigilância», a «intolerância» e a «fúria». Não era preciso pôr cobro a «isto», a este ambiente de «psicose social»?

Vasco Pulido Valente não é grande historiador, como se sabe: escreve um arremedo de livritos, rabisca umas croniquetas, e bolça, de ordinário, o seu profundo ódio anti-comunista. Mas Vasco Pulido Valente sabe que textos invoca, o que significam e que funções sociais e políticas concitam. E por isso não é inocente a convocação da figura de Salazar a que procede na sua diatribe contra a república portuguesa, publicada no Público do último sábado, dia 2 de Outubro. Para que fique registado no livro de actas, com a sua assinatura indelével, transcrevamos as exactas palavras de Vasco Pulido Valente: «Como dizia Salazar, “simultânea ou sucessivamente” meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê.».

A visão de Salazar e dos fascistas sobre a república – eis o melhor de que é capaz Vasco Pulido Valente. 

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2 Respostas to “VASCO PULIDO VALENTE: ASSINADO E REGISTADO NO LIVRO DE ACTAS”

  1. João Valente Aguiar said

    De facto, o que o VPV faz é de um enviesamento imenso. Claro que a I República reprimiu barbaramente o operariado. O que o VPV quer legitimar é o facto de essa I República ter sido um palco para a desordem. Ora, defendendo a tese de que a I República foi um palco de desordem e caos rapidamente se chega à conclusão de que a “vinda” do Salazar foi benéfica, no mínimo parcialmente, pois teria pelo menos colocado o “país na ordem”. Aí há uns tempos o Pacheco Pereira escreveu um artigo no Público na mesma linha. Mto sinceramente não acho que 1910 seja um momento para comemorarmos por aí além, mas apenas relembrar que, de um ponto de vista relativo, a democracia burguesa é preferível ao fascismo, sem com isto ter como modelo de sociedade a opressão existente na democracia (para a) burgues(i)a.

    Outro exercício nada honesto dessa gente é tb o facto de homogeneizarem a I República. Não se pode colocar no mesmo patamar o Bernardino Machado, o Teófilo Braga ou o Sidónio Pais. Aliás, a instabilidade institucional da I Rep espelha as enormes contradições na sociedade portuguesa de então: operariado em busca da sua identidade, pois ainda não tinha independência política de classe; lutas intestinas entre facções liberais e industrias da burguesia contra a burguesia agrária (se que é, em termos puros, uma burguesia), onde se incluía a igreja. O “mérito” burguês do Salazar passou por estes coordenadas, ou seja, por um lado, desbaratar a resistência operária (da greve geral de 18 de Janeiro de 34 até às lutas na zona de Lisboa 42-44 passaram-se quase dez anos sem lutas de massas minimamente organizadas e de resistência colectiva ao regime), e, por outro lado, unificar a burguesia, moderando e harmonizando as quezílias das suas fracções. Até por aqui se vê o carácter fascista do chamado Estado Novo, pois todo o fascismo existiu para isso mesmo: esmagar o movimento operário já colocado em recuo pelos regimes republicanos/democrático-burgueses e unificar politicamente a burguesia.

    Concluindo, a instabilidade da I Rep é mto menos uma desordem institucional-partidária mas antes o reflexo de uma instabilidade dentro da própria burguesia, como o “Barranco de Cegos” do Alves Redol demonstra. Este movimento de passar de uma pespectiva institucionalista para uma perspectiva classista não só deslinda o que realmente se passou como colocaria a nú a luta de classes como motor da história. E isso, nenhum VPV qualquer poderia apresentar ou aceitar.

    Um grande abraço

    • J. Vasco said

      Toda esta gente, Costas Pintos, Ramos, Mónicas, Fátimas, etc & tal, que por aí se intitula «historiador» ou «historiadora» é de uma mediocridade assustadora. Longe vão os tempos em que gente de envergadura, como César de Oliveira, por exemplo, se debruçava seriamente sobre estes temas. Com as coisas que ele deixou escritas pode até haver discordância -dado que há nível para discutir e para argumentar. Com estes tipos, não.
      Entretanto, eles têm uma agenda, e são obstinados. Uma das linhas de acção (e essa tu conheces bem) é passar a ideia de que não houve fascismo em Portugal. Como se diferenças de manifestação concreta (maior ou menor peso de um movimento de massas, maior ou menor importância das milícias e grupos armados, maior ou menor grau de repressão física, etc) pusesse em questão o carácter essencial do fascismo. Seria o mesmo que dizer que nos países liberais há capitalismo e que na Suécia não (ou, já agora, no próprio fascismo). Seria o mesmo que dizer que já não há capitalismo quando se passa do capitalista individual às grandes sociedades por acções. Seria o mesmo que dizer que em Itália ou na Alemanha não houve fascismo porque mesmo no interior desses países as condições políticas entre regiões eram, entre elas, muito distintas.

      Abraço.

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