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Archive for 22 de Setembro, 2010

O FIM DO ENSINO RECORRENTE

Posted by J. Vasco em 22/09/2010

Na semana passada, foi tomada pelo governo uma medida criminosa: acabar com o ensino recorrente. Qualquer adulto que pretenda, já a partir deste ano lectivo, inscrever-se no ensino básico ou no ensino secundário, poderá apenas fazê-lo ou nos cursos EFA (Educação e Formação de Adultos), ou num processo de reconhecimento, certificação e validação de competências (RVCC), ambos ofertas no âmbito do programa Novas Oportunidades. No primeiro caso, entre outras coisas interessantes, ouvirá falar do funcionamento técnico de um aspirador ou de um telemóvel; no segundo, certificará competências que adquiriu ao longo da vida, algumas de entre elas, muito possivelmente, o manuseio de um aspirador ou de um telemóvel. Note-se que nada disto, em si mesmo, é mau. Pelo contrário: o reconhecimento e a certificação de competências que muitos cidadãos adquiriram fora do contexto escolar é um bem que se deve intensificar e alargar, e, de certo modo, é mesmo uma obrigação da sociedade para com os seus membros (nesse sentido, as Novas Oportunidades até pecam por serem demasiado timoratas).

O problema está todo em absolutizar este ramo, abandonando a outra vertente, ou seja, desistindo do ensino escolarizado tradicional, constituído pelos saberes formais transmitidos secularmente (já para não falar da sua completa inexistência no seio mesmo quer dos cursos EFA, quer do processo de RVCC). Em lugar de se elevar o maior número de cidadãos aos patamares do cultivo científico dos saberes, tornando-o socialmente acessível, aprofunda-se o fosso entre os escolarizados e os não escolarizados.

O governo dos patrões, moço de recados do FMI, justificou este crime com a lei da oferta e da procura. Ainda que este fosse o critério a seguir para estruturar a educação de um país, um aspecto ficará sempre por resolver: quando um homem ou uma mulher  (unzinho ou umazinha que seja) de quarenta ou cinquenta anos, com uma vida de trabalho no lombo, sem escolaridade maior que o ensino primário ou preparatório, quiserem um dia aprender a sério ou geografia, ou biologia, ou física, ou literatura portuguesa, ou matemática, ou uma língua estrangeira, ou iniciar um percurso escolar sólido – quando esse homem ou essa mulher quiserem entregar-se a alguma destas coisas e recorrerem, para o efeito, a uma escola, o que terão? O que os espera? O funcionamento do aspirador e do telemóvel. Tudo coisas dignas, registe-se sempre. Em todo o caso, demasiado curtas para quem deseja o verdadeiro saber. 

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NÃO CANSE O PENSAMENTO DE GUIAR-ME, DONDE NUNCA DE LÁ POSSA TORNAR-ME

Posted by J. Vasco em 22/09/2010

Evald Vasilyevich Ilyenkov (1924-1979)

«Entendo o pensar como a componente ideial da actividade real das pessoas em sociedade transformando simultaneamente, pelo seu trabalho, a natureza e a própria sociedade». (Lógica Dialéctica, Introdução)

Evald Ilyenkov é um dos grandes filósofos do século XX.

Personagem trágica (suicidou-se), de recorte entre o brechtiano e o shakespeariano, elevou e desenvolveu o pensamento marxista soviético a partir da herança hegeliana, nomeadamente a partir do seu núcleo racional: a dialéctica. No seu trabalho teórico em território marxista, notam-se também fortes ressonâncias de Espinosa, por quem Ilyenkov, de resto, nutria uma especial admiração.

A sua vasta obra (consultar aqui alguns dos títulos disponíveis em inglês) começou a ser conhecida no ocidente, nomeadamente em Inglaterra e em França, a partir de meados dos anos 80 do século passado. Já é tempo de ser traduzida para português. Os seus estudos sobre a consciência, sobre o problema do ideial e da ideia, sobre a lógica de «O Capital» – são inestimáveis para quem não desiste de pensar as realidades em movimento, num horizonte de transformação.

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