Na semana passada, foi tomada pelo governo uma medida criminosa: acabar com o ensino recorrente. Qualquer adulto que pretenda, já a partir deste ano lectivo, inscrever-se no ensino básico ou no ensino secundário, poderá apenas fazê-lo ou nos cursos EFA (Educação e Formação de Adultos), ou num processo de reconhecimento, certificação e validação de competências (RVCC), ambos ofertas no âmbito do programa Novas Oportunidades. No primeiro caso, entre outras coisas interessantes, ouvirá falar do funcionamento técnico de um aspirador ou de um telemóvel; no segundo, certificará competências que adquiriu ao longo da vida, algumas de entre elas, muito possivelmente, o manuseio de um aspirador ou de um telemóvel. Note-se que nada disto, em si mesmo, é mau. Pelo contrário: o reconhecimento e a certificação de competências que muitos cidadãos adquiriram fora do contexto escolar é um bem que se deve intensificar e alargar, e, de certo modo, é mesmo uma obrigação da sociedade para com os seus membros (nesse sentido, as Novas Oportunidades até pecam por serem demasiado timoratas).
O problema está todo em absolutizar este ramo, abandonando a outra vertente, ou seja, desistindo do ensino escolarizado tradicional, constituído pelos saberes formais transmitidos secularmente (já para não falar da sua completa inexistência no seio mesmo quer dos cursos EFA, quer do processo de RVCC). Em lugar de se elevar o maior número de cidadãos aos patamares do cultivo científico dos saberes, tornando-o socialmente acessível, aprofunda-se o fosso entre os escolarizados e os não escolarizados.
O governo dos patrões, moço de recados do FMI, justificou este crime com a lei da oferta e da procura. Ainda que este fosse o critério a seguir para estruturar a educação de um país, um aspecto ficará sempre por resolver: quando um homem ou uma mulher (unzinho ou umazinha que seja) de quarenta ou cinquenta anos, com uma vida de trabalho no lombo, sem escolaridade maior que o ensino primário ou preparatório, quiserem um dia aprender a sério ou geografia, ou biologia, ou física, ou literatura portuguesa, ou matemática, ou uma língua estrangeira, ou iniciar um percurso escolar sólido – quando esse homem ou essa mulher quiserem entregar-se a alguma destas coisas e recorrerem, para o efeito, a uma escola, o que terão? O que os espera? O funcionamento do aspirador e do telemóvel. Tudo coisas dignas, registe-se sempre. Em todo o caso, demasiado curtas para quem deseja o verdadeiro saber.
«Entendo o pensar como a componente ideial da actividade real das pessoas em sociedade transformando simultaneamente, pelo seu trabalho, a natureza e a própria sociedade».(Lógica Dialéctica, Introdução)
Evald Ilyenkov é um dos grandes filósofos do século XX.
Personagem trágica (suicidou-se), de recorte entre o brechtiano e o shakespeariano, elevou e desenvolveu o pensamento marxista soviético a partir da herança hegeliana, nomeadamente a partir do seu núcleo racional: a dialéctica. No seu trabalho teórico em território marxista, notam-se também fortes ressonâncias de Espinosa, por quem Ilyenkov, de resto, nutria uma especial admiração.
A sua vasta obra (consultar aqui alguns dos títulos disponíveis em inglês) começou a ser conhecida no ocidente, nomeadamente em Inglaterra e em França, a partir de meados dos anos 80 do século passado. Já é tempo de ser traduzida para português. Os seus estudos sobre a consciência, sobre o problema do ideial e da ideia, sobre a lógica de «O Capital» – são inestimáveis para quem não desiste de pensar as realidades em movimento, num horizonte de transformação.
«A nossa época é a época da crítica, à qual tudo tem que submeter-se. A religião, pela sua santidade, e a legislação, pela sua majestade, querem igualmente subtarir-se a ela. Mas então suscitam contra elas justificadas suspeitas e não podem aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame».
(Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 5)
Dizia Hegel que, sem Espinosa, não havia filosofia.
Podemos também dizer que, sem Kant (1724-1804), não pode haver filosofia.
Kant é o grande filósofo da revolução francesa. No seu cantinho de Königsberg, acompanhava os acontecimentos gauleses com entusiasmo, pois identificava no sucesso da grande revolução burguesa do século XVIII o progresso da humanidade, o progresso da razão.
Vejam o excerto citado. Como é fácil, hoje, dizer que tudo se deve submeter à crítica, como é ocioso afirmar que é a razão – e não qualquer poder externo a ela (o governante, o cura, o síndico) – que deve comandar o viver humano e enformar as relações comunitárias. Se hoje é assim – na altura não o era: que é isso, senhor filósofo, de querer transformar o mundo e a vida a partir de um fundamento racional? Há, a demonstrar o contrário, todo o peso da tradição já provada pela experiência, que tão boas mostras de dar conta do recado tem dado…
Kant é hoje «ensinado» (tanto no ensino secundário, como nas universidades), expurgado da corrente viva do seu pensamento. Apresentam-no como se de uma morta e apodrecida terceira via, entre o «empirismo» e o «racionalismo», se tratasse. Embotam-lhe o gume crítico e o núcleo revolucionário.
Porém, o mais dramático, por parte desses «professores», é papaguearem frases grandíloquas sobre o uso próprio da razão, mas matarem à nascença, nos seus alunos, qualquer semente de espírito crítico que principie a assomar. Proclamam-se kantianos, mas praticam a idolatria.
Os argumentos e as opiniões valem pelo seu conteúdo, pelo bem fundado do seu teor, pela adequação que carreiam em relação à realidade objectiva – e nunca pelos pergaminhos, por mais imponentes que pareçam, de quem os manifesta e de quem as expende.
Atente-se, por um momento, neste par de pseudo-truões. É um produto típico, acabado, da «sociedade do espectáculo», um emblema reluzente da cultura pós-moderna.
Integrar no reino e no circuito do «espectáculo», da mercadoria, do valor, qualquer dimensão da existência é uma lógica objectiva do capitalismo, desdobrada, no âmbito do mesmo processo, em dois tabuleiros: o da necessidade de acumulação de capital e de reprodução alargada do sistema, por um lado; e, por outro lado, no plano subjectivo (político, ideológico, volitivo, afectivo), o da neutralização e domesticação dos elementos e forças sociais susceptíveis de transformarem revolucionariamente o modo vigente de produzir e reproduzir o viver em comunidade.
Chega a ser enternecedor ver os donos e os directores de programação das televisões, reaccionarões de alto coturno sempre pródigos na condenação liminar das verdadeiras lutas populares, a acarinhar e a estimular as façanhas provocadoras e ofensivas das vidas duras dos trabalhadores, protagonizadas pela dupla de bobos, afinal instrumento dos seus interesses.
Mas desenganem-se, amigos. Por muito que tentem folclorizar e ridicularizar o «velho», «relho» e «ultrapassado» movimento organizado de homens e mulheres que labutam pela emancipação humana (com o intuito de o tornar inofensivo e «aceitável», porquanto enquadrado e enquadrável na estrutura regulada do «espectáculo»), a verdade é que a vossa decadência não triunfará sobre o que é vivo. Convém não confundir os «homens da luta» com a LUTA DOS HOMENS.
Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon,
tiene corazon de tierra
y alas de palomita,
es como el agua bendita
santigua glorias y penas,
aqui se encajo mi canto
como dijera Violeta
guitarra trabajadora
con olor a primavera.
Que no es guitarra de ricos
ni cosa que se parezca
mi canto es de los andamios
para alcanzar las estrellas,
que el canto tiene sentido
cuando palpita en las venas
del que morira cantando
las verdades verdaderas,
no las lisonjas fugaces
ni las famas extranjeras
sino el canto de una alondra
hasta el fondo de la tierra.
Ahi donde llega todo
y donde todo comienza
canto que ha sido valiente
siempre sera cancion nueva.
Como o vídeo da sessão de terça-feira no parlamento francês, na qual se discutiu a proposta de alteração do sistema de reformas, foi censurado e retirado da rede, comecemos por esta fotografia dessa séance, cujo enquadramento pode ser conhecido aqui:
Passemos agora ao visionamento deste vídeo, que se reporta a uma outra sessão de «trabalho», em Março de 2009, no parlamento italiano, e que, inesperadamente, traz para a boca do palco a candente questão da «mortadela»:
Embora não o façamos, para poupar a paciência do leitor, podíamos entretanto chamar para este post mais alguns vídeos de casos semelhantes (não obstante a grande dificuldade, devida à censura, de os encontrar disponíveis), todos eles passados na Europa Ocidental, nos tais países das «democracias maduras», como soe dizer-se.
Ora, quem se tenha dado ao trabalho de ler a artigalhada dos últimos cinco anos produzida na «imprensa de referência» pelo «sociólogo» Barreto pode aperceber-se de que, no que toca à situação política portuguesa, a tese central que a criatura sustenta é aquela segundo a qual «há demasiada conflitualidade» entre os partidos, é a de que há um «permanente clima de crispação» no combate político em Portugal, é a de que, por consequência, as «soluções de compromisso governativo» ficam postas em causa. Não há aqui vestígio de conteúdo político específico: apenas o estribilho do «sectarismo», do «conflito pelo conflito», da falta de «visão nacional», e outras patacoadas.
Sobre isto, duas notas.
A primeira para sublinhar que, no plano factual, o «sociólogo», pura e simplesmente, mente. É conhecido de todos o ardor do combate político justamente nos países (Inglaterra, França, Itália, etc.) que Barreto quer apresentar como um paraíso celestial povoado por anjos e arcanjos. Comparado com esses países, Portugal é, a esse nível, um reduto de cavalheiros e as sessões parlamentares matinés de um chá dançante. Atendendo à intensidade da «questão social» em Portugal (encerramentos de fábricas, despedimentos, recibos verdes, perda do poder de compra, liquidação de direitos), a nota dominante da super-estrutura política do país não deixa mesmo de ser o «consenso» reaccionário do «centrão», a «respeitabilidade» hipócrita, a ausência de «grandes ondas». Uma tradição pontuada pelo peso da Igreja, pela Santa Inquisição e pelo fascismo não deixará, porventura, de contribuir para este estado de coisas.
A segunda para destacar que há um conjunto de raízes sociais para o afrouxamento e a lassidão da refrega política portuguesa (vínculo que o «sociólogo» pretende rasurar e apagar). Como lembrava Francisco Martins Rodrigues, Portugal tornou-se, desde 1835, «um local privilegiado para as soluções de transição na luta interna de classes, à esquerda como à direita. Arredondar arestas, desactivar cargas explosivas, escalonar as mudanças inevitáveis por pequenos degraus suaves, é uma arte portuguesa, que reflecte o peso social e ideológico da pequena burguesia na cena de classes (…)»[Anti-Dimitrov, 1935-1985 meio século de derrotas da revolução, Lisboa, Ulmeiro, 1985, p. 188.]
Mas se, na epiderme dos seus textos, o «sociólogo» evita sempre estabelecer abertamente qualquer correlação entre o nível de «conflitualidade» social e a sua expressão no terreno político (são, para ele, dois mundos independentes, separados por uma muralha da China), é preciso reconhecer, no entanto, que, de um ponto de vista sistemático, Barreto sabe da poda. Com as suas teses fantasistas e condenatórias, na verdade, ele não visa mais do que tentar amortecer o «conflito» social crescente, ou seja, a luta organizada dos trabalhadores pela emancipação social. Com as suas posições e consignas, ele não deseja mais do que assustar o filisteu (que o repete mecanicamente, ao mesmo tempo que acha que pensa por si e de forma original), criando a ideia do «caos político» e apelando a um «entendimento» perpétuo entre PS, PSD e CDS com o objectivo de levarem a cabo uma coordenação mais eficaz das políticas de espoliação capitalista: privatizações, aumento dos ritmos de exploração, diminuição dos salários, cortes nos direitos, etc.
Com os seus artigos, ele pretende o que sempre pretendeu, ontem como liquidador-mor da Reforma Agrária, hoje como «intelectual» orgânico do regime: perpetuar o capitalismo, defender a exploração, evitar o socialismo. Não nos parece, contudo, que os seus textos tenham esse estranho condão de configurar uma realidade que em nada lhes corresponde.
Qual foi a resposta dos trabalhadores franceses, há três dias, aos intentos patronais de aumentar a idade da reforma dos 60 para os 62 anos de idade? Vergar-se perante as «inevitabilidades»? «Compreender» a necessidade de «contenção orçamental»? Aceitar a destruição do «estado social» em nome da sua «defesa»? Sorrir perante o aumento da exploração capitalista? Não. Foi a da luta retumbante (greve, cerca de 2 milhões de manifestantes), a da verdadeira luta à francesa, a da mobilização popular organizada e combativa, que bebe o seu vigor na tradição revolucionária de 1789, de 1848 e de 1871. Os trabalhadores franceses são fortemente politizados, conscientes, e os sindicatos de classe, apesar de inúmeras contradições, nunca perderam implantação no terreno, têm força e mantêm perspectivas de luta. Será esta grande luta nacional (nacional na forma, internacional no conteúdo) suficiente para fazer recuar o governo burguês de França? Veremos. Certo é que, sem luta, a derrota já estaria hoje consumada. A dos trabalhadores franceses – e a dos restantes trabalhadores europeus.
Não deixou de ser com pasmo que, por acidente, assisti ontem ao arremedo de programita televisivo que a cavalgadura da fotografia, todas as semanas, toscamente, chefia. Não haverá muito a dizer sobre o que ali se passou, a não ser que aquele estúdio se tornou num nauseabundo caneiro. A tentativa de lavagem das figuras de Carlos Cruz e dos seus amigos poderosos, já depois de condenados, atingiu um patamar de indignidade que dificilmente se poderia imaginar. Vejam os meios de que esta gentalha dispõe!
Para a posteridade, registemos apenas os nomes dos rastejantes que carregaram ontem, para o caneiro, a lixívia Neoblanc e que se destacaram pela fúria com que mergulharam nela a esfregona: Marinho e Pinto, burguês encapotado, Daniel Oliveira, escuteiro-mirim do BE e «democrata» de relevo, José Manuel Fernandes, falso jornalista estipendidado pelas embaixadas de Israel e dos EUA, e Fátima Campos Ferreira, a já citada burgessa de serviço.
NOTA: Com todo o respeito que me merece o passado de Adelino Granja, a verdade é que neste processo Casa Pia ele revelou-se um homem moralmente derrotado e inclinado para o oportunismo. Percebe-se finalmente por que motivo, a partir de determinada altura, rompeu Pedro Namora com ele.
ADENDA A 8 DE SETEMBRO DE 2010: clicar aqui para ler o artigo de Manuel António Pina no Jornal de Notícias de hoje.
Começa hoje, e estende-se até domingo, a edição da Festa do Avante de 2010. Teatro, cinema, música, desporto, gastronomia, debates e intervenção política (nacional e internacional), convívio fraterno – tudo isto será a marca desta festa, erguida e mantida a funcionar pelo trabalho voluntário de milhares de militantes e simpatizantes comunistas. Como de costume, durante o certame viver-se-ão rasgos de futuro e estarão presentes no recinto os quatro cantos do mundo.
Os editores do Olhe Que Não marcarão presença nesta iniciativa inigualável. Boa festa a todos!