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TAPAR O SOL COM A PENEIRA

Posted by J. Vasco em 02/07/2010

Chegam-nos imagens da greve geral da função pública de dia 8 de Junho, em Espanha.

Constituem, no fundo, a prova cabal – como os liberais nos afiançam de noite e de dia, num coro de mil e um tons – de que «terminou a luta de classes»; de que desapareceu a ditadura de uma classe sobre outras (seja sob a forma democrática, seja sob a forma autoritária); de que o que vigora em toda a linha é «a democracia», entendida nos abstractos termos do liberalismo enquanto espaço higienizado de racionalidade argumentativa, fora, além e acima dos conflitos sociais pontuados pela exploração capitalista.

Entenda-se: nada do que estas imagens mostram pode ser surpreendente, se tivermos a coragem e a lucidez de olhar de frente a complexidade do real e de perceber que a luta de classes não terminou, de que vivemos um momento de ofensiva burguesa, visando a manutenção do seu domínio. Também não surpreende que os think tankers do sistema difundam urbi et orbi a propaganda barata da «democracia», da «liberdade» (de exploração) e do «respeito pelo indivíduo», no preciso momento em que as forças armadas do capital torturam, matam e pilham em guerras coloniais no Iraque, no Afeganistão, na Palestina, na Colômbia, na Jugoslávia e um pouco por todo o globo terrestre. É mesmo essa, no fim de contas, a sua função. O que verdadeiramente surpreende é que algumas boas almas emprenhem pelos ouvidos, ruminem este digest de rasteira extracção, e sigam empenhadas, cantando e rindo, com o coração em sobressalto, na «qualidade da democracia», na «participação dos cidadãos na vida democrática» e na promoção do «dinamismo do mercado». Ridículas essas boas almas, ao tentarem tapar o sol com a peneira.   

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3 Respostas to “TAPAR O SOL COM A PENEIRA”

  1. Senhora do Monte said

    Para os mais desatentos, que duvido ser o seu caso, J. Vasco, não confundir o conceito científico de luta de classes com manifestações, contestações, lutas e lutas, mesmo que estas possam ter um carácter marcadamente de classe, tal como a que surge no vídeo. Ao ler o post o leitor pode julgar que luta de classes se reduz ao confronto violento ou à luta física.

    • J. Vasco said

      Senhora do Monte,

      tudo o que diz está correctíssimo, sem tirar nem pôr.
      De facto, quem leia o meu post pode considerar que eu identifico luta de classes com confronto físico violento. Ou que a reduzo a ele. Ora, a luta de classes tem mil e uma formas, como é óbvio. E a sua existência não é anulada pela circunstância de haver palcos institucionais onde ela se expressa.
      O meu objectivo era antes pôr a nu a hipocrisia liberal, a mentira organizada em torno do fim da história. Os liberais, através de mil e um canais, pisam e repisam a ideia de que o capitalismo, nos países avançados do ocidente, superou a luta de classes violenta, a ideia de que o estado (qualquer estado) não é a ditadura de uma classe sobre outras, mas antes o organizador do «bem comum», acima dos conflitos e dos interesses em presença. Por fim, a ideia – irreflectida, papagueada, superficial e mesmo falsa – de que o mundo em que vivemos é «A democracia», um espaço de «participação cidadã» onde todos cabem e de onde a repressão violenta estaria afastada. Este era o meu objectivo – embora votado claramente ao fracasso.
      Obrigado pela chamada de atenção, Senhora do Monte. Continue a ler o blog e a participar. Espíritos críticos como o seu fazem sempre falta.

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