OLHE QUE NÃO

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Archive for 23 de Junho, 2010

PARA O JOÃO FERRO, COM MÚSICA

Posted by Patrícia B. em 23/06/2010

Ao João Ferro dedico esta versão musicada da canção Solidaritätslied, de Ernst Busch. A música original data de 1931 e esta é uma versão gravada após a Segunda Guerra Mundial.

A partir de hoje a força desta melodia ficará sempre associada, na minha memória, ao jornalista e camarada João Ferro. Ela representa já os breves momentos em que me cruzei com a sua figura simpática, delicada e cheia de vida e histórias lá dentro. Muitas terão ficado por contar.

“Avante, não esqueçamos a solidariedade

[…]

A manhã, de quem é a manhã?

O mundo, de quem é o mundo?” (E. Busch)

Não esquecerei, meu caro João.

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JOÃO FERRO

Posted by J. Vasco em 23/06/2010

«Para os muito maus tempos que, pressinto, se estão aproximando,
serão necessárias novas solidariedades.
Mas não devemos esquecer as antigas…»
(último mail enviado por João Ferro a um seu camarada e amigo)

Faleceu, com 72 anos, o jornalista João Ferro.

Para além de ter sido um dos co-fundadores da SIC, em 1992, e de ter pertencido aos seus quadros durante dez anos, trabalhou também na RTP e na agência noticiosa russa Novosti. Foi jornalista, durante as décadas de 60,70,80 e 90, em vários países do campo socialista, e tinha sobre ele um conhecimento muito amplo, muito vasto e muito profundo. Pertencia ao conselho geral do sindicato dos jornalistas e era membro da Fundação Internacional Racionalista.

A vida tem por vezes destas coisas tristes. Na quinta-feira passada, convidámos o João Ferro para conceder uma entrevista de fundo ao Olhe Que Não. Ele, generoso, aceitou de pronto, sem pensar duas vezes. Disse-nos apenas que teríamos de marcar o dia e a hora da entrevista no fim-de-semana que depois de amanhã começa, porque até lá estava a braços com a preparação de algumas aulas sobre a história da Rússia a leccionar numa universidade sénior. Preparávamo-nos para lhe ligar no próximo sábado.

O ponto de partida para a nossa conversa iria ser o seu último texto publicado (na ocasião, para a SIC Notícias), que deixamos aqui – e que merece ser lido, reflectido e tomado como acicate para ulteriores estudos, discussões e prolongamentos práticos. 

O João Ferro partiu. Mas a sua mensagem fica: novas solidariedades… sem esquecer as antigas. 

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O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA

Posted by J. Vasco em 23/06/2010

Com honrosas excepções, o leque de jornalistas desportivos que tem hoje assento de privilégio nos meios de comunicação nacionais destaca-se por um pouco recomendável conjunto de predicados: no plano linguístico, reserva ao português (falado e escrito) um trato de polé difícil de qualificar; no plano desportivo, consagra o mais rasteiro senso-comum como metodologia de «análise» dos jogos, e coroa a canalhice, o chico-espertismo e o desrespeito pelos adversários como modo adequado de estar no desporto; finalmente, no plano intelectivo e moral, exibe uma confrangedora boçalidade, uma ignorância a toda a prova e uma impertinência tolinha que quer fazer passar por magnífico desassombro.

Nas últimas semanas, assistimos à actuação polifónica desse coro boçal a propósito da selecção de futebol norte-coreana. Essa massa ignara de «jornalistas» – cujos horizontes mundanos não vão além da Academia de Alcochete e do Centro de Estágios do Seixal; para quem a história portuguesa se resume ao arco temporal que vai de Eusébio a Cristiano Ronaldo, passando por Figo; e para quem a história mundial se reduz a alguns campeonatos do mundo e a deduções futebolísticas de baixa extracção a partir das características etnográficas e antropológicas de cada povo – «explicou-nos» o que era a vida na Coreia do Norte, ou seja, invadiu-nos as casas com dichotes racistas e xenófobos (travestidos de piadolas espirituosas) dirigidos ao povo da Coreia do Norte. Recorrendo à humilhação, à ofensa e ao insulto – e apenas a isso -, espezinharam, através de um conjunto de jogadores de futebol, a dignidade de um povo inteiro, que é coisa que não tem preço e que não se transacciona na bolsa de valores. Riram alarvemente, esses valentões, do facto de os futebolistas norte-coreanos utilizarem ginásios públicos, em vez de recorrerem aos espaços privados, de luxo, disponibilizados pelos hóteis de sete estrelas que albergam várias selecções. Desmultiplicaram-se em apontamentos escarninhos, atingindo a dignidade, o esforço e a entrega dos jogadores de futebol norte-coreanos, sobre o desgosto que, com a sua actuação, estariam a provocar ao «querido líder». Troçaram desdenhosamente da vida de trabalho e de sacrifício de inúmeros cidadãos de um país que não suga nem rouba recursos a outros países, rematando as suas arengas com graçolas deste jaez: «o prémio para os jogadores da Coreia do Norte é terem direito a uma refeição e a não sofrerem maus-tratos».

O pasquim i chegou mesmo a este cúmulo:  «Os norte-coreanos, uma formação de homens esforçados e orientados por uma disciplina quase doentia (nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção), sentiram o peso da desvantagem e começaram a abrir brechas». «Nunca fazem faltas e marcam-nas sem excepção no local exacto onde foi a infracção». Com efeito, ser honesto é um defeito tão grande, é um traço tão totalitário, não é?

Mas o mais delicioso, apesar de tudo, foram os comentários em torno do regresso a casa dos seleccionados norte-coreanos. O que não lhes aconteceria, em caso de maus resultados!

Ora, como podemos ver, por exemplo, aqui e aqui, depois da eliminação do campeonato do mundo sem ter ganho um único jogo, a selecção francesa foi mimosamente tratada pelos governantes e pelos jornalistas do seu país.  O tema foi ontem objecto de aceso debate no parlamento, meteu ministros ao barulho e o próprio Sarkozy já se pronunciou. E que disseram estas gentes, estes representantes da alta cultura? Defenderam a dignidade dos atletas, reconheceram o seu valor desportivo, falaram das derrotas como parte constitutiva dos jogos de futebol? Não. Disseram coisas elevadas como estas: os jogadores franceses são autênticos «zeros», a selecção gaulesa está empestada de «estrangeiros», a equipa francesa é uma «vergonha». Pedro Rosa Mendes, na crónica de hoje na Antena 1, dizia, ele que agora vive em Paris, que aquilo que foi dito ontem no parlamento francês sobre os jogadores franceses «era irreproduzível nestes microfones». Entretanto, os sectores mais chauvinistas e reaccionários da direita francesa exigem desde já uma depuração de «estrangeiros» na selecção, e apelam a uma recepção da equipa com «ovos e tomates, como antigamente».

Nada disto, como é óbvio, apoquenta a sensibilidade «democrática» dos nossos finos «comentadores» desportivos. Em tudo isto, eles deixam-se apenas levar pelo charme. Pelo charme discreto da burguesia. 

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