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O HOMEM DA CAMISA VERMELHA

Posted by J. Vasco em 17/06/2010

Se há qualquer coisa de grande, de verdadeiramente grande, na cultura estadunidense, essa coisa é o cinema, arte popular por excelência. Dos primórdios de D.W. Griffith – com a introdução da estrutura narrativa; aos contemporâneos Coppola, Scorsese e Cimino – com a complexificação, com a desconstrução e com a subjectivização dessa estrutura, à boa maneira do romance americano.
Nesse pano de fundo cinematográfico, Nicholas Ray, o realizador que se apresentava no plateau envergando sempre a sua mítica camisa vermelha, ocupa um lugar destacadíssimo.
Sobre ele, que assinou autênticas obras-primas, muito haveria a assinalar. Fiquemo-nos hoje, porém, pelo seu filme que mais amo: Johnny Guitar, de 1954, que aliás deu azo à famosa canção, composta de propósito para o filme.
Nada substitui o seu visionamento por inteiro, mas o pedaço acima carrega já muito do seu génio. Reparem na perfeição dos diálogos, autêntico duelo – as frases são como balas, tal a sua precisão e efeito cortante.
Reparem na mise-en-scéne, unidade do barroco e do despojamento, da vertente documental e da exacerbação lírica. Reparem na perfeição dos movimentos de câmara, espelho e antecipação do mais fundo das almas de Vienna e de Johnny. Sterling Hayden e Joan Crawford nunca estiveram tão bem. E depois há aquela frase inadjectivável, de tão bela: «Procurei-te em todos os homens que conheci».
A dado passo do filme, Vienna atira ao empregado do seu saloon: «Keep the wheel spinning, Ed. I like to ear it spin».
Aproveitando esta passagem, dizia João Bénard da Costa, com razão, a propósito do filme: «No fim de cada visão de Johnny Guitar, só me apetece dizer aos projeccionistas: “Keep the film spinning, Ed. I like to see it spin.” Tanto, tanto».

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2 Respostas to “O HOMEM DA CAMISA VERMELHA”

  1. João Valente Aguiar said

    De facto, Hollywood iria sofrer uma grande mudança, reflexo do próprio neoliberalismo. Não que não se continuem a fazer filmes mto interessantes, mas o lado comercial passou a imperar mto mais e em mto mais filmes. É este lado mais sombrio e com contornos de classe mais vincados na luta ideológica do capital que daqui a uns meses gostaria de te dar conta. 🙂

    A classe fala e em Hollywood (anos 80 e 90 para cá) passou a falar cada vez mais. Mesmo que mto raramente usando uma conotação classista evidente. No fundo, a minha tese é que, como depois te procurarei mostrar, o cinema não só é o espaço do imaginário por excelência da modernidade (o que não tem nada de mal em si) e como isso foi apropriado pelo capital no sentido de construir metáforas de classe (algumas, por sinal, com valor e beleza estética) e, com isso, reconstruir e ir construindo novas subjectividades aparentemente desvinculadas com a classe social, mas que na realidade consolidam e complexificam os mecanismos e os processos de dominação ideológica. Naturalmente, nem tudo é dominação (sobretudo inconsciente), mas este tópico passou a estar mto mais presente no cinema de Hollywood das últimas duas-três décadas.

    Já agora, diz-me o que acharias mais interessante analisar dos seguintes blockbusters: Harry potter, Batman, Guerra das Estrelas, Homem-Aranha, ou todos eles? Tens outras sugestões? Acho que só poderemos avaliar o real impacto do cinema (ou melhor, de certo cinema) de Hollywood tendo em conta esses blockbusters que chegam a milhões e milhões de jovens trabalhadores e que ajudam a moldar a sua subjectividade. Não apenas no sentido da dominação, mas nunca esquecendo esta.

    Um grande abraço

    • J. Vasco said

      Anseio por ler esse teu trabalho. Acho que, em geral, as metáforas de classe, como lhes chamas, foram-se tornando, no cinema americano, cada vez mais agressivas (no conteúdo), embora também mais escondidas, mais enroladas e mais subliminares (garantia de uma maior eficácia). Certamente, sinal dos tempos: sinal do avanço agressivo do imperialismo, do fim do campo socialista, e da promoção, no plano intelectual e moral, do irracionalismo e da ignorância.
      Alguns blockbusters, para além de promoverem tentativas de desclassização no plano ideológico, são feitos de propósito para publicitar marcas de automóveis, de roupa, etc. Acho que isso, no campo das artes, é uma coisa sem precedentes. É pura e simplesmente a arte ao serviço do capital.

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