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Archive for 17 de Junho, 2010

DELÍCIAS DO LIBERALISMO

Posted by J. Vasco em 17/06/2010

«De acordo com decisão do Ministério da Saúde, entre 15 de Junho e 15 de Setembro as unidades hospitalares de Setúbal e do Barreiro vão deixar de ter urgências pediátricas durante a noite. O serviço será nesse período garantido pelo Hospital Garcia de Orta.

A Administração Regional de Saúde diz que a decisão foi tomada devido à escassa procura durante a noite e garante transporte disponível para as crianças e bebés que precisarem de ser deslocados ao Garcia de Orta, “a cerca de 40 quilómetros de Setúbal e do Barreiro”.

Muito apreensiva com o encerramento das urgências pediátricas durante o período nocturno nos próximos meses, a presidente da Câmara de Setúbal lamenta a decisão e diz que “só por desconhecimento da realidade das áreas servidas pelo Hospital de São Bernardo” se pode afirmar que concelhos como Alcácer do Sal, Grândola, Santiago ou Sines estão a 40 quilómetros do Hospital Garcia de Orta».

Quem vir nesta «decisão do Ministério da Saúde» uma simples medida arbitrária e desgarrada – desengane-se. Ela é mais uma peça da consequente política liberal que visa destruir, tijolo a tijolo, o edifício das funções sociais do estado, construído com o impulso da revolução de Abril.

Os caboucos deste edifício são vergastados nos dias de hoje (pelas mãos sujas de PS, PSD e CDS, sob a orientação tutelar da UE) com uma violência sem precedentes. Encerramentos de escolas, de centros de saúde, de maternidades, de urgências hospitalares. Desmantelamento de postos de correio. Fecho de repartições da segurança social. O ramalhete é impressionante, e dele exala o inconfundível aroma das «leis do mercado». Sob a sua sombra, campeia a miséria, a falta de protecção social, o despovoamento do interior do país e uma vaga vertiginosa de emigração.

«Por um segundo podemos perder uma vida». Mas que importância pode ter isso? Os mortos serão, afinal, de famílias «sem estilo», «sem charme», «saloios do interior que nem falar sabem», não é assim? Desejável é que «o mercado» funcione, é que a «lei da oferta e da procura» vigore. Lindo é que o estado «não tutele a vida dos indivíduos», é que quem quer saúde, educação, reformas – que as pague, que não «viva à custa dos subsídios» e da «teta do estado».

Acelera, ambulância, acelera! Esses «40 quilómetros» ainda vão ser tão longos!

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O HOMEM DA CAMISA VERMELHA

Posted by J. Vasco em 17/06/2010

Se há qualquer coisa de grande, de verdadeiramente grande, na cultura estadunidense, essa coisa é o cinema, arte popular por excelência. Dos primórdios de D.W. Griffith – com a introdução da estrutura narrativa; aos contemporâneos Coppola, Scorsese e Cimino – com a complexificação, com a desconstrução e com a subjectivização dessa estrutura, à boa maneira do romance americano.
Nesse pano de fundo cinematográfico, Nicholas Ray, o realizador que se apresentava no plateau envergando sempre a sua mítica camisa vermelha, ocupa um lugar destacadíssimo.
Sobre ele, que assinou autênticas obras-primas, muito haveria a assinalar. Fiquemo-nos hoje, porém, pelo seu filme que mais amo: Johnny Guitar, de 1954, que aliás deu azo à famosa canção, composta de propósito para o filme.
Nada substitui o seu visionamento por inteiro, mas o pedaço acima carrega já muito do seu génio. Reparem na perfeição dos diálogos, autêntico duelo – as frases são como balas, tal a sua precisão e efeito cortante.
Reparem na mise-en-scéne, unidade do barroco e do despojamento, da vertente documental e da exacerbação lírica. Reparem na perfeição dos movimentos de câmara, espelho e antecipação do mais fundo das almas de Vienna e de Johnny. Sterling Hayden e Joan Crawford nunca estiveram tão bem. E depois há aquela frase inadjectivável, de tão bela: «Procurei-te em todos os homens que conheci».
A dado passo do filme, Vienna atira ao empregado do seu saloon: «Keep the wheel spinning, Ed. I like to ear it spin».
Aproveitando esta passagem, dizia João Bénard da Costa, com razão, a propósito do filme: «No fim de cada visão de Johnny Guitar, só me apetece dizer aos projeccionistas: “Keep the film spinning, Ed. I like to see it spin.” Tanto, tanto».

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