OLHE QUE NÃO

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Archive for 15 de Maio, 2010

PEANUTS

Posted by J. Vasco em 15/05/2010

Os mais distraídos e ingénuos engoliram o isco em torno do paleio da «necessidade de reduzir drasticamente o défice das contas públicas» e têm-se esfalfado a discutir o TGV, o novo aeroporto, as auto-estradas e outras minudências orçamentais.

Por um lado, demonstram, fazendo companhia aos liberais, que desejam ver o investimento público descer ainda mais, até níveis só vistos antes do 25 de Abril.

Por outro, deixam escapar o essencial, que vai passando por detrás do biombo.

De facto, sem pruridos, falando claro, com aguda perspectiva de classe, e olhando para o horizonte, os patrões, pelas bocas, por exemplo, do fascista João Salgueiro e do salta-pocinhas Luís Nazaré, lançam já para a opinião pública programas de grande regressão social: cortes nos salários e nas pensões, fim do 13º mês, fim dos subsídios de férias e de natal, liquidação do que chamam «estado social», esvaziamento da função pública, promoção dos recibos verdes, etc. Chamam a isto «mudar de vida», apimentam a coisa com a estafada ladaínha segundo a qual «temos (QUEM, SENHORES?) andado a viver acima das nossas possibilidades». O programa, como se vê, é ambicioso e resume-se a ajustar contas com as conquistas históricas do século XX. Precisamos, na luta, de estar à altura de o combater e de o derrotar.

Ao contrário do que ensina a propaganda oficial passada nas televisões, rádios e jornais, é isto mesmo que se joga na Grécia. Na Grécia não há «caos social» nenhum. Há uma intensa e encarniçada luta de classes, que é parte e momento daquela que se joga a nível mundial. O nosso futuro decide-se aqui em Portugal, é certo, na derrota do governo dos patrões encabeçado por Sócrates e auxiliado por um tal de Coelho, como se decide na luta heróica dos trabalhadores gregos contra o esbulho do capital, coordenado a partir do eixo Paris-Berlim com a colaboração dos capatazes de Lisboa, Madrid, Dublin e Atenas. 

TGV?! Peanuts… 

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DO SUBLIME

Posted by J. Vasco em 15/05/2010

Lamento della Ninfa, de Claudio Monteverdi, cena do filme Le Pont des Arts, de Eugène Green

 

Ontem, na Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, entre as 22h00 e as 00h06, aconteceu uma epifania.

Foi exibido o filme Le Pont des Arts, de 2004, inédito comercialmente em Portugal, do realizador Eugène Green, que agora tem em cartaz, nas salas nacionais, a película A Religiosa Portuguesa. (O meu muito obrigado à pessoa que me deu a conhecer este filme e este realizador, que a partir de agora entram no meu panteão cinematográfico.)

Green nasceu em 1947 nos EUA, país que renegou. Chama-lhe «La Barbarie», e costumava dizer que «na Barbarie nem sequer existia uma língua».

O tipo de cinema que interessa a Green explorar e fazer não tem, de facto, cabimento em terras do tio Sam, seja em Hollywood ou em Nova Iorque, duas realidades cinematográficas, como é sabido, sumamente distintas. (Note-se que quem escreve estas linhas é um confessado admirador do grande cinema clássico americano, de Griffith a Malick, passando por Ford, Ray, Hawks, Kazan, e pela dourada geração de 70-80: Coppola, Leone, Scorsese, Cimino. Grande cinema clássico que, por outro lado, também trucidou génios como Orson Welles, sem grande espaço para explorar caminhos novos que eram os seus).

Eugène Green é um exímio cineasta, de um rigor formal e estilístico sem mácula. O seu barroco é muito peculiar: não tem, aparentemente, dobras, curvas e contra-curvas, foguetório visual algum. Ele está lá, o barroco, mas através da austeridade e da contenção. E é nelas que reside todo o clima encantatório que atravessa, pontua e ritma Le Pont des Arts. E é nelas, e através delas, que repousa toda a grandeza do barroco do filme, grandeza, aliás, comum a todo o barroco – que não é oco, ao contrário do que alguns tontos pensam e dizem, que não é maneirismo supletivo acrescentado de fora a um tema já dado, contrariamente ao que alguns obtusos sustentam, mas que é um complexo e riquíssimo sistema de significados não redundantes, constituído por inúmeras camadas de sentido que se articulam, condicionam e inter-penetram, e que são indispensáveis para se apreender o todo.

Para Green o amor só é possível na comunhão espiritual, no além do quotidiano mundano, na ponte que liga a vida e a morte (como nos mostra o filme: a Pont des Arts, metáfora da própria arte). É uma tese que não acompanho.

Mas a mestria com que isto nos é dito e contado; a beleza literária (não realista, no caso) que enforma os diálogos das personagens; a mise-en-scéne magistral que as envolve e que com elas dialoga; a atmosfera de «onirismo realista», ou de «realismo onírico», se quisermos, proporcionada pela fotografia e pela densidade psicológica das personagens – fazem de Le Pont des Arts um grandíssimo, um genial, filme, de onde não estão ausentes a irrisão, a mordacidade, a crítica e a ironia.

Fala bem Luís Miguel Oliveira, no texto que acompanha o filme, quando diz que «os últimos vinte minutos de Le Pont des Arts, com a deriva nocturna de Pascal, o encontro “fantasmático” com Sarah, o canto da mulher curda, os planos diurnos do Sena, em dénouement e em dissolução – os últimos vinte minutos de Le Pont des Arts, dizíamos, são do que de mais encantatório se viu no cinema de anos recentes.».

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DE JOELHOS, A SEGURAR BANDEIRINHAS

Posted by * em 15/05/2010

Suponha que um anjo de fogo

varresse a face da terra

e os homens sacrificados

pedissem perdão.

Não peça.

do poema Segredo, de Carlos Drummond de Andrade

Há um outro povo, para além dos acéfalocândidos agitadores de bandeirinhas, que idolatram ao extremo do ridículo o papa reaccionário, o ex-prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (novo nome da Inquisição), Joseph Ratzinguer. Quem andasse nos transportes veria esse outro povo, um povo digno, altivo, honrado e pouco propenso a ficar de joelhos perante os senhores. Esse povo dizia, sem medo: “em época de crise, dinheiro a rodos para este senhor”, “tanto estorvo só por causa de sua excelência”, “ainda bem que ele não vem todos os dias”, etc. Assim fala o povo que não se ajoelha. É uma honra estar entre este povo. Leia o resto deste artigo »

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