OLHE QUE NÃO

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3 DE MAIO DE 1808. FOI HÁ 202 ANOS

Posted by J. Vasco em 06/05/2010

Francisco Goya, El Tres de Mayo de 1808, 1814

 

CARTA A MEUS FILHOS

Sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, 1959

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5 Respostas to “3 DE MAIO DE 1808. FOI HÁ 202 ANOS”

  1. João Valente Aguiar said

    Pobre do Sena hoje ver o título do seu romance ser roubado pelo que tu (mto bem) chamaste de “coisa Tavares”, para uso num dos programas mais reaccionários da tv portuguesa. Pior do que isso, é ver toda a corja de pseudo-intelectuais reflexivos embandeirarem em arco e bajularem o capital. Nada de novo, mas nunca como hoje a dita camada social dos intelectuais foi tão próxima e bajuladora relativamente à classe dominante. E ver esse chunguedo todo apropriar-se do Sena (e outros claro) como se estivessem no mesmo patamar intelectual, moral e político é o cúmulo do degredo actual. Tb por aqui se vê que o sistema capitalista degrada a própria intervenção intelectual. É tb um sinal de crise do sistema.

    Abraço!

    P.S. apesar de concordar que hoje (desde os anos 70 em termos mundiais) vivemos numa situação de crise estrutural da economia capitalista, não me parece que possamos dizer que o capital, num sentido mais amplo, esteja necessariamente em crise. Ou seja, apesar de ser inegável que o sistema económico tem cada vez menos espaço de manobra para prosseguir a reprodução alargada de capital em níveis de lucratividade apreciáveis, estou em crer que o capital não é apenas redutível ao domínio económico. No terreno da luta de classes, onde se cruzam economia, política, ideologia e cultura, o capital continua a estar na ofensiva. Basta ver o (temporário, obviamente) estado de fragmentação da classe trabalhadora em termos mais gerais. Claro que existem lutas – e ainda bem! – e que têm um importantíssimo significado, mas a tendência geral de determinação da correlação de forças está ainda do lado do grande capital. Nem me parece que a actual crise vá abrandar essa dinâmica. Pelo contrário, o capital vai exacerbar o seu ímpeto explorador, militarista, etc. Daí que a organização e a luta seja cada vez mais algo de essencial.
    Por último, diferenciar onde o capital está em crise – no campo económico – e onde não o está – no espaço determinante da luta de classes – parece-me algo de teoricamente relevante para uma intervenção revolucionária consequente. Se dermos primazia à primeira (sem dúvida importante mas não única, nem principal), então podemos dormir descansados que o capitalismo cairá por si. Se dermos primazia à segunda, perceberemos que a crise económica cria dificuldades à vida dos trabalhadores e dos povos e, por conseguinte, é um campo que pavimenta (ou pode ajudar) a pavimentar a luta e a estendê-la a mais gente. Todavia, o espaço onde se decide o futuro da humanidade é no terreno da luta de classes, obviamente nunca desligada do espaço económico (nem isso seria possível).

    • J. Vasco said

      Sim, tens toda a razão, o que dizes tem muito de correcto: a burguesia é ainda o pólo determinante da sociedade. E mesmo com a crise actual não deixa de o ser, antes pelo contrário. É aqui que a porca torce o rabo. Há que distinguir bem entre pólo determinante e pólo dominante. Algumas vezes coincidem (a burguesia em luta contra a nobreza no século XVIII, por exemplo), outras não. A compreensão dessa contradição, a trabalhar e a fazer frutificar teoricamente, é fundamental para intervir praticamente nas dinâmicas sociais com um horizonte transformador.
      Acompanho-te na preocupação de entender a formação económica e social capitalista como um todo concreto e orgânico, no qual os vários momentos interactuam reciprocamente. E aí a luta ideológica, teórica e política é hoje essencial. Porventura, o apetrechamento do momento subjectivo nunca foi tão importante na história. Mas tudo isto não anula, nem por um segundo, a estrutura que configura a articulação desses momentos, e que faz deles, por consequência, momentos determinates e momentos determinados. E também adianto que não é forçoso cair no atentismo e na passividade quando se reconhece o primado do económico – aliás, como também reconheces, coração e cerne da própria luta de classes. A objectividade não é um caput mortum – tem historicidade, dialecticidade e tem como ingrediente e agente constitutivo a subjectividade prática, que a trabalha e transforma desde o âmago.
      Um grande abraço!

      • João Valente Aguiar said

        Olá!

        Concordo com tudo o que escreves. Evidentemente considerar o primado do económico não significa abandonar a luta de classes como motor da evolução (e involução, qd é a burguesia que está na ofensiva) das sociedades. Bem pelo contrário, ambos se interrelacionam dialecticamente. O que eu me estava a referir era sobretudo ao risco de enfatizarmos (nós, comunistas e progressistas) a crise económica como detonador automático da passagem para o socialismo. A luta complementa e aprofunda a crise do sistema. Contudo, enquanto vivermos um tempo de forte ofensiva do capital, o proletariado não passará à ofensiva. Claro que isto tudo não é estanque. O proletariado passa à ofensiva com a ajuda de falhas intrínsecas ao sistema económico, aos problemas de arranjo institucional e estatal a isso inerentes e, claro está, mais se mobiliza qto maior for a sua história passada de lutas. Por exemplo, o proletariado russo não se lembrou de se revoltar apenas em 1917 ou até em 1905. Existe todo um percurso de décadas e décadas de lutas contra o tsarismo e a propriedade fundiária, a partir da década de 50 do século XIX (há um livro do Eric Wolf mto interessante sobre a mobilização do campesinato durante os séculos XIX e XX – apesar do autor não ser marxista, tem uma obra interessante), e nos últimos 30 anos do séc. XIX junto do operariado industrial. Daí que as pequenas e grandes lutas de hoje sejam essenciais não apenas para defender direitos adquiridos, mas tb porque sem essas lutas de hoje e de agora, nenhuma grande luta é possível no futuro.

        Um grande abraço

  2. […] reprodução do capital não corresponde uma crise de dominação da burguesia – como aliás aqui, na caixa de comentários deste post, o João Aguiar já teve oportunidade de sublinhar. Só com a luta organizada de massas pode a […]

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