OLHE QUE NÃO

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O GÉNIO DA BANALIDADE E OS SEUS ALFAIATES

Posted by * em 25/04/2010

(Dorian Tyrell, personagem do filme The MaskA máscara)

O génio da banalidade decidiu usar o sagrado 25 de Abril para os seus interesses pessoais, para o arranque da sua campanha. Além do desrespeito pela data, mostrou que a direita mais reaccionária não se coíbe de usar traje de esquerda, mesmo que não lhe assente. É patético ver um inveterado (não escrevi “invertebrado”, pois não?) defensor dos exploradores a fazer gala de paladino dos direitos dos explorados (que eles denominam “os menos favorecidos”), como é patético ver um Aguiar Branco citar Rosa Luxemburgo e Lenin. Isso mostra até onde eles podem ir para enganar o povo trabalhador, isso mostra o quão perigosos são esses tipos.

A imprensa subserviente ajusta, como bom alfaiate, o traje de esquerda ao corpo de direita, costurando e cerzindo o que houver a costurar e cerzir. Nem que tenha de distorcer as palavras, para que os Lapsus linguae não estraguem a encenação.

Há que repor a verdade do discurso de lançamento de campanha. Ele não disse que “a injustiça social e a falta de ética são dois factores corrosivos”. O que ele disse foi que “as injustiças sociais e a falta de ética são dois factores que, QUANDO COMBINADOS, têm efeitos extremamente corrosivos para a confiança nas instituições e para o futuro do país. A injustiça social cria SENTIMENTOS DE REVOLTA, sobretudo quando lhe está ASSOCIADA a IDEIA de que não há justiça igual para todos“.  Parece um discurso progressista? Só para quem se deixa enganar, só para quem não percebe do assunto. Examinemos esta afirmação com olhos de ver: injustiças sociais? Ok! falta de ética? Ok! Só não combinem as duas coisas! E porquê? Por que razão não se devem combinar as duas coisas? É que a combinação delas tem efeitos corrosivos (não teriam efeitos corrosivos a injustiça ou a falta de ética aplicadas separadamente, pelos vistos). A injustiça social deve ser aplicada “com ética” e  com muito cuidado e medida, porque senão o povo ainda começa a experimentar (ai povo ingrato!) sentimentos de revolta que é preciso, a todo o custo, evitar. Fica o povo com esses estranhos sentimentos sobretudo quando à injustiça social está associada (que associação malévola) a ideia de que não há, vejam que absurdo, justiça igual para todos (como ficamos a saber, esta é apenas uma ideia que o povo  teima em ter… e não a realidade nua e crua). Aliás, apesar do que é dito na primeira frase da afirmação citada, a segunda frase deixa claro que nem é propriamente a combinação de injustiças sociais e falta de ética que é criticada, antes a combinação da injustiça social com a descoberta da falta de ética dos que, demonstrativamente, se excedem no nobre desígnio burguês de parasitar. Parasitar sim, mas  de maneira a que não se descubra nem se comente. É isto que chateia o povo e, como os senhores exploradores sabem, o povo pode ser explorado, mas convém que seja explorado sem o chatear em demasia.

Os discursos do GdaB são uma delícia para qualquer um que se queira dedicar  à exegese hermenêutica. Mas, enquanto isso, vai o homem fazendo a sua campanha, vai o povo curtindo os seus sentimentos de revolta e vão os senhores jornalistas compondo os factos (e os fatos).

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