OLHE QUE NÃO

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NOJO, SÓ NOJO, SIMPLESMENTE NOJO

Posted by J. Vasco em 16/04/2010

Domingo passado, hora de almoço.

Olhemos bem de perto este casal de desempregados do Vale do Ave (olhemo-lo, hoje, somente a ele, contemos apenas o seu caso, deixemos de lado, por momentos, aquele, da Azambuja, ou o outro, além, de Santo Tirso, ou esse aí, aí mesmo, da Covilhã, ou ainda aqueloutro, da Amadora… ou não será antes de Guimarães, ou de Ovar, ou de Faro, ou de Coimbra?). Os vizinhos da terra, mais novos, sem infantes, já partiram há um ano, meses depois da fábrica ter sido encerrada pela administração, as máquinas roubadas pelo Sr. CEO com o beneplácito do estado português, e os lucros, claro, tranferidos para uma conta na Suíça (a Suíça lava mais branco), ou para um off-shore perto de nós: uns foram para Espanha, tentar a sorte na laranja, na vinha, na construção civil – nunca mais se soube deles; outros abalaram para Andorra, a empregarem-se no comércio – como será que hão-de estar? 

O nosso casal, quasi-cinquentões ambos, dois filhos a estudar (e a comer, e a vestir, e a levar ao médico), recebe agora, por junto, um poucochinho menos de 1000 euros de subsídio de desemprego, após dezenas de anos de trabalho e de descontos. Os horários e os ritmos de trabalho nunca foram brandos, antes pelo contrário: «a produtividade, ora aí está». Os salários que auferiram durante esse tempo foram, como é bom de ver, aqueles salários «competitivos» próprios de qualquer «economia de mercado» que premeia o «mérito» e a «excelência». Em bom português, salários de miséria que são o correlato necessário, incontornável, inescapável, forçoso, dos lucros gigantescos dos Belmiros, dos Amorins, dos Berardos, dos Espírito Santo, e tutti quanti. E das «migalhas» generosas que eles dispensam aos seus homens de mão do PS, PSD e CDS, seja como ministros de turno, ou como gestores de ronda.

Mas voltemos ao almoço de domingo do nosso casal de desempregados, que já vai arrefecendo. 

O cozido que calmamente degustam foi confeccionado com os produtos do horto, que ainda lhes vai valendo.

O televisor está ligado, transmitindo a sessão de encerramento do trigésimo-não-sei-das-quantas-congresso-do-PPD/PSD. O gauleiter recém-entronizado, um tal de Passos Coelho, yuppie betinho com olhos de carneirinho mal morto, espécie de Ken (para quem não saiba: o namorado da Barbie) arrivista e sem escrúpulos, dá largas a todo o seu ódio de classe, espraia-se, com indisfarçável gozo, em carícias, promessas de amor e juras de fidelidade à burguesia, e em humilhações e ataques contra os pobres. Depois de propor congelamentos de salários, mais privatizações (o que será que sobra, depois do PEC?), e a revisão constitucional (será por ainda lá estar o serviço nacional de saúde, a educação tendencialmente gratuita, enfim, ainda algumas marcas da revolução de Abril?), depois de tudo isto, dizia-se, o snob Coelho condensou finalmente o seu mais alto pensamento político, como que dirigindo-se directamente ao nosso casal de «privilegiados»: «os que recebem subsídio de desemprego têm de retribuir com trabalho para a comunidade». Ah, valentão!

                                                            

É nojo, só nojo, simplesmente nojo, que estes trastes reaccionários provocam. Limitam-se a dar expressão política aos preconceitos mais fascistóides do senso-comum, tentando com isso dividir para reinar, tentando com isso virar o pobre contra o miserável. 

Sejamos, no entanto, pacientes, e reponhamos a verdade: o subsídio de desemprego é resultado de descontos que, mensalmente, os trabalhadores fazem para a segurança social. É um direito (conquistado pela luta, senhores snobs, arrancado na luta, senhores yuppies), não é nem uma benesse, nem uma esmola (de que vocês tanto gostam, senhores «democratas» de pacotilha, para manter pobres os pobres). Não é destempero orçamental, nem dádiva do governo-mãos-abertas para ganhar eleições, como dizem os liberalóides. Repete-se: é um direito. Aliás, enquanto regime contributivo, funciona como uma espécie de seguro (nalguns países tem mesmo esse nome), a lógica é idêntica à de um seguro.

Que esta coisa fascistóide, liberal em toda a linha, a que o tal de Passos Coelho preside tenha como nome «partido social-democrata» é coisa que já não é da ordem da comédia, mas da tragédia. É a continuação da mentira que enforma, determina e pontua a sua política direitista, elitista e reaccionária. Política que promove, aprofunda e torna sem saída a situação dos casais desempregados – agora sim, falemos deles – da Azambuja, de Santo Tirso, da Covilhã, da Amadora, de Guimarães, de Ovar, de Faro, de Coimbra…

O casal do Vale do Ave, depois do almoço de domingo, continua até hoje na mesma. Com efeito, o centro de emprego da sua área de residência tem empregos a rodos para dar e vender. A 2 euros à hora. A recibos verdes. Algumas horitas por semana. Como dizia o outro: «é fazer as contas». 

 

AVISO: quem quiser consultar as condições de acesso a outro insuportável «privilégio» dos pobres, o Rendimento Social de Inserção, pode fazê-lo aqui. Vejam como o país não pode mais suportar estes elevados «desmandos orçamentais» com «quem não quer trabalhar», e, para além da pobreza material, exibe sobretudo uma aguda e persistente «pobreza de espírito», promotora da visão «subsídio-dependente» e da pedinchice ao «paizinho-estado-que-dá-tudo». Quem não estaria disposto a trocar de vida com estes «privilegiados», hã? Quem?

 

2 Respostas to “NOJO, SÓ NOJO, SIMPLESMENTE NOJO”

  1. João Valente Aguiar said

    Concordo plenamente com o teu texto. O que esse escarro humano do P Coelho faz é simplesmente usar um velho estratagema do capital: colocar os trabalhadores “remediados” contra os trabalhadores mais pobres. Isto, meu caro, é luta de classe pura e dura. Porque a burguesia tb faz luta de classe, ao contrário do que se possa pensar. A burguesia não vem para a rua, em contextos em que tem a sua dominância social assegurada. Basta-lhe conseguir explorar ainda mais os trabalhadores e ao dificultar a sua vida quotidiana nada melhor do que veicular o discurso dos tipos que andam a mamar do RSI e do sub de desemprego. Por isso é que destruir a unidade da classe trabalhadora é mais do que meio caminho andado para impor retrocessos sociais.

    Claro que a isto ainda se podem acrescentar outros discursos como o discurso contra os políticos ou o discurso mais genérico (ou conjunto de enunciados ideológicos) de fazer desaparecer os referenciais simbólicos, linguísticos e culturais que apontam para uma visão de mundo a partir da classe. Este último ponto, a meu ver, foi a maior conquista ideológica da burguesia nas últimas 3-4 décadas no mundo ocidental. Antes, mesmo que houvesse mtos trabalhadores alienados e conformados, apesar de tudo havia uma forte noção de uma pertença de classe ao proletariado. Ora, o que o capital conseguiu fazer, entre outras dinâmicas, passou precisamente por ir educando, formatando, socializando novas fornadas de jovens trabalhadores numa lógica, por um lado, consumista e individualista e, por outro, numa lógica abertamente de compromisso dos trabalhadores com uma suposta naturalidade e inevitabilidade dos interesses do capital: criar novos produtos (novas mercadorias), vestir a camisola da empresa, dar o melhor de si à empresa, recorrer a formação avançada paga pelo próprio trabalhador para melhor a sua rendibilidade e produtividade… na empresa, ver o colega do lado como um competidor e não como um indivíduo que está sujeito a uma mesma condição de classe, etc. E por aqui o capital tem conseguido boa parte da sua legitimidade ideológica mais recente.

    Evidentemente, com as coisas a apertar do ponto de vista das condições de vida e com a luta acabar-se-á por se inverter este estado de coisas. A bem dos trabalhadores, dos povos, da humanidade futura que vem aí.

    Abraço grande

    • J. Vasco said

      Esta casa é também tua. Vem até cá sempre que quiseres e puderes. As portas não estão abertas, estão escancaradas.

      Até já. Abraço.

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