OLHE QUE NÃO

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Archive for 21 de Março, 2010

UM RIO DE SANGUE

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

PORT WINE

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

 

Joaquim Namorado, in A Poesia Necessária

 

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«AMANHÃS QUE CANTAM»??!!

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

A expressão «os amanhãs que cantam» é, de forma useira e vezeira, utilizada pelos snobs do costume para apoucar uma suposta visão messiânica da história que os revolucionários, em geral, sustentariam e que os neo-realistas, em particular, reservariam, como correlato estético, para o campo da arte. Mais uma vez, o preconceito e a mesquinhez dão as mãos, servindo de solo para as mais desbragadas catilinárias.

A visão da história dos mais altos representantes teóricos do movimento neo-realista português era tudo menos simplista, tosca ou mecanicista. Era, pelo contrário, bem dialéctica, rica e anti-messiânica. E não só estava pensada, como adquiriu mesmo, algumas vezes, a forma e o conteúdo estéticos. «Amanhãs que cantam»? Olhem que não…

 

COMPLICAÇÃO

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

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